Latest / Logosofia no Dia a Dia / Eu Passava o Ano Preparando a Fantasia — Só Que Não Era Para o Carnaval
Transcript
- Oi, é o Ronny, tudo bem? Eu estava lembrando de um fato que na época me chocou muito — me impressionou, na verdade —, mas que depois eu fui entendendo como eu era vulnerável ao mesmo problema, só que, obviamente, de forma análoga. Eu lembro de conhecer uma pessoa que trabalhava no mesmo lugar que eu — isso no começo da minha vida adulta —, e essa pessoa achava que o carnaval era a coisa mais incrível que ela tinha para viver no ano. Ela gostava de desfilar, de participar do carnaval em si, na escola de samba e tudo, e passava o ano contando e se preparando para aquilo. E talvez o que mais me impressionou na época é que ela precisava colocar uma parte da renda — que era pouca na época — para poder sustentar aquilo que ela gostava muito. Por quê? Porque a fantasia — esse negócio de fantasia de verdade na escola de samba — é caríssimo. Não é botar roupa que a gente tem em casa, não é isso. É caro para fazer, para preparar e para dar manutenção nessas roupas todas, com máscaras, cheio de coisas. Então, sim, é um valor considerável. E eu lembro que era uma pessoa que, embora de condição mais simples, colocava sim uma boa parte dos recursos mensais à disposição dessa fantasia, de toda essa indumentária. E eu lembro que aquilo me causou uma impressão muito forte — assim, meu Deus —, talvez porque eu não sou fã de carnaval de jeito nenhum, e porque eu nunca gostei, na verdade, de nada que fosse baile à fantasia, essas coisas. Eu nunca gostei disso. Pode ser qualquer coisa relacionada ao medo de palhaço quando eu era criança — não sei —, porque, pelo amor de Deus, palhaço era um negócio aterrorizante. Eu acho esquisito até hoje, né? Aqueles palhaços de antigamente, muito caracterizados. Mas o ponto é que, no final, ela passava o ano inteiro — essa pessoa — para viver aquele momento. Obviamente os vários momentos de fim de semana que ela estava lá, com os ensaios e tudo, mas ela passava o ano focadíssima em viver aquela vida, viver aquele desfile. Bom, é o que ela gostava — e acho superinteressante que tem gente que gosta de uma coisa completamente diferente, porque não é minha praia de jeito nenhum. Mas por que eu recordei essa pessoa? Porque ao longo do tempo, depois, eu fui observando que eu estava vivendo algo muito similar — embora quem olhasse de fora não identificasse nenhuma semelhança com a experiência citada. Eu passei o começo da minha juventude adulta, e muitos anos depois, praticamente cultivando e dedicado à minha carreira e à construção da minha vida material. Aí você fala assim: "Mas Ronny, não tem nada a ver com carnaval, com fantasia, com máscara." De fato, não tem nada a ver diretamente mesmo. Mas tem algo que, no cerne dessa minha experiência, eu depois me identifiquei muito com essa festa — com essa prática de se usar a fantasia e se desfilar como uma personagem, em vez de desfilar como uma pessoa é. Porque eu passei uma parte considerável da vida criando, cultivando, construindo uma figura externa. Você fala assim: "Como assim, Ronny, você estava fingindo ser o que você não era?" Não — é pior do que isso. Eu cultivei durante muitos anos, como se fosse importante e vital — ou fosse o mais importante —, aquilo que era a minha vida fora de mim. Que eram, na verdade, conquistas, circunstâncias, fatos, posses, experiências, aparências. Imagina que eu passei quase uns 15 anos me deslumbrando com as perspectivas de estar parecendo ser uma pessoa cada vez mais importante no mundo. Porque eu ia galgando essa posição social de destaque na carreira, nas realizações materiais da vida, nos sinais visuais da vida. Quem via a minha vida via sinais claros de riqueza, de nível social bem alto. Olha só — eu detesto carnaval. Detesto qualquer coisa de se vestir diferente. Nunca gostei de usar fantasia, detestava qualquer coisa assim desde pequeno. Mas eu fui me adequando muito facilmente a essa concepção que eu tinha recebido da cultura corrente e acreditei que, de fato, eu ia sendo — ou eu era — aquilo que a minha condição social, minha trajetória profissional, minha aparência material fosse mostrando. Eu não tinha fantasia nem máscara, de fato — mas eu tinha bens que eu usava como pompa, eu vivia experiências que era como se eu vivesse uma outra vida. Eu tinha um currículo que era como se fosse uma máscara muito bonita — quem visse ficava impressionado com o cargo, com as realizações, com tudo. Então olha que interessante: a gente — quando falo "a gente", falo nós, humanidade em geral — foi se deliciando com essa perspectiva de ir construindo ao nosso redor toda uma aparência que, no fundo, no fundo, é um cultivo ao deus da vaidade. Não existe esse deus, claro que não. Mas é como se a gente tivesse escolhido, em vez de viver para a criação, para o Pensamento Central, tivesse escolhido viver para o deus da vaidade — como se a gente fosse se deliciando com a sensação de que o nosso destaque, ou que nossas conquistas fossem suficientes para mostrar que a gente era alguém na vida. Qual o problema principal disso? Porque, de certo modo, como a grande maioria concorda com esse culto ao que é externo, ao que está fora de nós, a sociedade em princípio vê isso de forma normal. Mas qual é o grande problema? É que há um antagonismo muito grande entre cultivar essa capa, essa máscara, essa fantasia toda que a gente quer vestir e manter todo dia — cada vez mais —, e o verdadeiro cultivo de um ser humano que quer ser e viver uma vida muito mais ampla, plena e feliz do que vive. A primeira prova cabal da diferença e do antagonismo dessas duas realidades é que quantas vezes, nessa condição muito boa do ponto de vista externo — de aparência de muita coisa boa na vida, conquistada, tudo —, o sofrimento humano é extremo. Eu conheci muita gente, eu convivia num meio muito específico — muita gente que tinha essa fantasia na mais perfeita qualidade e de nível altíssimo. Mas a vida íntima era desesperadoramente triste. A vida íntima era uma vida totalmente desarticulada, era um caos. E eu vi isso muitas e muitas e muitas vezes. No meu caso não era esse caos, mas eu tinha muitas dificuldades de lidar com todos os desafios, fragilidades e problemas da minha psicologia, da minha mente, os problemas do meu coração do ponto de vista sensível. Era como se eu lutasse — e eu lembro, eu sentia essa luta. Eu ficava tentando viver uma vida, do ponto de vista mental e sensível, mais elevada. Mas como eu dedicava muito tempo ao cultivo daquilo que estava fora de mim, eu não conseguia. Era um negócio que é como se fosse — talvez — aquela lei da física que diz que um corpo não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. É isso: eu queria viver uma vida com conteúdo elevado, eu queria sentir que eu existia de fato, mas eu estava tão fora de mim mesmo. Primeiro porque eu cultivava aquele fora de mim mesmo fazia tempo — e aquele mundo, esse mundo que está fora de nós, ele nos puxa todo dia. Então não é a questão de apenas querer viver uma vida mais íntegra, dentro de mim mesmo, independente das circunstâncias e fatos. O mundo que existe fora de nós vai, todo dia, tentar fazer a gente sair de dentro de si mesmo. Ou seja, esse cultivo do que está fora — esse valor extremo que muitos de nós demos ao que está fora de nós, às conquistas externas — cobra um preço muito grande para a verdadeira felicidade que a gente busca e que o ser humano pode sentir e experimentar. Ao contrário desse cultivo da persona — a personalidade é essa representação, essa fantasia, esse cultivo para fora, para os outros observarem, ou apenas para deleitar o deus da vaidade, o deus da confiança extremada em si mesmo, da admiração de si mesmo, coisas que vão saindo do razoável e viram um culto a si mesmo, mas não ao ente verdadeiro. Eu cultuava a minha personalidade — olha que coisa surreal. Mas é sutil isso. Eu cultivava, eu saboreava essa minha persona que eu vivia. Ou seja, eu saboreava a minha personalidade, não o meu verdadeiro ser. E a Logosofia traz a luz — ou joga a luz — sobre essa realidade com uma concepção muito clara de que essa é uma das grandes causas, se não a maior, da infelicidade humana. Porque ao contrário da personalidade, a Logosofia joga a luz sobre o cultivo da individualidade — que é fruto da evolução. E como diz o trecho que a gente entra agora, é fruto do cultivo constante das qualidades morais e psicológicas latentes no ser humano. O próximo tópico se chama "A Formação Consciente da Individualidade". É exatamente essa confrontação de duas opções — ou duas possibilidades — que a gente tem: a vida continuar seguindo como o cultivo de uma persona, como aquela pessoa que eu conheci que passava o ano inteiro preparando a fantasia e vivendo a personagem dela; ou a gente optar por verdadeiramente ser — e começar a descobrir quem somos. E enquanto a gente vai descobrindo quem verdadeiramente somos, do ponto de vista espiritual e consciente, a gente pode ir cultivando esse ser — essa verdadeira essência que cada um de nós carrega. Eu tive que tomar uma decisão na vida. E eu lembro quando tomei essa decisão: que eu ia começar a deixar de cultivar essa fantasia e esse personagem que eu tanto achava que era a mim mesmo. Eu tinha que parar de cultivar a negação de quem eu sou — ainda que seja uma luta deixar de fazê-lo. Porque eu entendo hoje que a personalidade é como se fosse, realmente, a negação do meu verdadeiro ser. E é em busca desse verdadeiro ser — a descoberta dessa maravilha, dessa realidade, das condições mais elevadas em cada um de nós — que eu estou focado desde então. Esse tópico, tenho certeza, vai fazer você refletir sobre pontos vitais sobre a vida e sobre a nossa existência aqui na Terra. Boa leitura, bom estudo, boas reflexões. Fique bem e até o próximo podcast.