Latest / Logosofia no Dia a Dia / Ligar os Pontos — Como Transformar os Fatos do Dia em Significado Espiritual
Transcript
- Oi, é o Ronny, tudo bem? Você lembra quando... Acho que quando todos nós fomos crianças. Crianças talvez não, mas adolescente ou pré-adolescente. Ainda, afinal, da infância, vai? Tinha aquelas revistinhas de... Comprava na banca de jornal. Talvez tenha ainda, não sei. Que chamava Passatempo ou... Acho que era Coquetel. Não lembro. E tinha, assim, várias atividades, né? Especialmente aquelas de... São super comuns em... Tem em jornal, em todo lugar, que é você encontrar sinônimos para preencher as lacunas de letras, né? E formar palavras preenchendo lá os vazios. Mas tinha aquelas que eram mais para criança mesmo. Que eram, assim, ligapontos, por exemplo. Tinha um que chamava picolé, que era fácil. Era uma categoria fácil daquela revista de Passatempo. E picolé tinha muitos ligapontos. Ligapontos eu adorava fazer. Você lembra o que que é? Aquele que, assim... Tinha um monte de pontos numerados. E você precisava fazer as linhas entre cada ponto na ordem, óbvio, da numeração. Porque ia surgindo uma figura, né? Era, na verdade, uma imagem. E ela só surgia quando a gente ligava os pontos na ordem correta para que a imagem tivesse as linhas que formavam aquilo que estava supostamente escondido, esperando, né, você passar as linhas por cima. E eu gostava de ligapontos porque surgia algo, né? Do nada. Você olha ali, um monte de ponto. Até hoje, né? É a mesma coisa. Se eu olhasse — eu não vejo faz tempo, mas — você olha e fala: bom, e daí? O que que esses pontos todos significam? Mas é diferente quando esses pontos se conectam em linhas, obviamente determinadas, em uma ordem clara. Tem uma razão, né? Não é que se conecta a êxomo, de qualquer jeito. E é surpreendente quando surge a imagem, né? O que estava ali oculto, à vista, até que as linhas se desenhem. Pensar que a nossa vida, de um certo modo, segue um padrão parecido com isso. A gente tem uma existência que a gente começa a viver sem entender muito bem, ou praticamente sem entender nada, claro. Depois vai entendendo muitas coisas sobre essa existência. E a gente meio que aprende, né? Vamos dizer assim, vamos assumir a premissa de que a gente aprende sobre essa existência o suficiente para que na vida adulta a gente consiga navegar, consiga viver, consiga fazer o que tem que fazer com dificuldades, situações, experiências várias, obviamente. Mas que no final a gente dá um jeito aqui, dá um jeito ali, passa por um aperto aqui, outro ali, e vai vivendo. Ou... Eu penso que até é preciso ser preciso nas palavras. A gente vai existindo. Não necessariamente a gente vai vivendo, né? Mas a gente vai existindo. No máximo, às vezes, sobrevivendo do jeito que dá. Mas dentro de cada um de nós, eu senti — por muito tempo eu sinto, às vezes eu sinto ainda assim quando eu, se eu passar algum período assim mais inconsciente do dia, da semana, do mês — eu sinto uma sensação assim de: o que é mesmo que eu estou fazendo aqui? E eu lembrei do Liga Pontos porque na verdade os dias são cheios de pontos. A vida aqui na Terra é cheia de pontos. Ou seja, acontece um monte de coisa todo dia com cada um de nós. Eu acho isso incrível. Você já pensou nisso? Acontece tanta coisa, passa tanta alternativa na nossa frente. Ou seja, a gente se vê de frente a tantas alternativas durante o dia, cada dia. E quando eu me refiro a isso, tem alternativas simples? Tem? Aquelas assim: o que é que eu vou comer no almoço? Essas são, essas de fato talvez só têm significado para a saúde física. Mas tem as alternativas que a gente enfrenta, ou que a gente se depara com elas o dia todo. E especialmente elas estão ocorrendo sem parar na nossa mente. E eis o ponto dessa reflexão, que é assim: se tem uma série de pontos aparecendo o tempo todo durante o meu dia, e eu vou passando por eles e fazendo escolhas, optando por conduta XY, eu vou deixando que pensamentos de várias índoles atuem e me movam durante o dia. A própria impulsividade — quantas vezes eu atuei por impulso? Eu evito isso o máximo possível hoje. Eu fico atento para não acontecer isso. Porque atuar por impulso é sempre um risco. O impulso de um pensamento, quando não passa pelo crivo da razão, está sempre no risco de não ser exatamente o que depois nos beneficiaria mais, ou o que nos vai beneficiar mais. Inclusive, quantas decisões por impulso não causam dificuldade diretamente. Às vezes é uma resposta torta porque algum incômodo foi causado pelo que o outro fez. Mas incômodo geralmente nas nossas deficiências — incomoda não a nossa melhor parte. O que os outros fazem incomoda as nossas deficiências. Então o incômodo por si já é um impulso desenfreado que não deveria ocorrer, porque a gente deveria ter um controle. A razão deveria exercer um controle maior sobre os movimentos mentais para que a gente não se movesse por impulso para nada. Mas ainda acontece. Então vamos voltar ao grande, à imagem maior do que eu estou delineando aqui, falando em ligar pontos. A vida pode ser — durante um dia — uma série de fatos que, ao final do dia, deveriam estar de alguma maneira encadeados ou conectados com a vida. Aí você fala assim: Rony, mas eu passo uma parte do dia trabalhando. E eu também, esses são fatos que não tem nada a ver com a minha vida. Tem a ver com as coisas do trabalho, tem a ver com a empresa que a gente trabalha, tem a ver com objetivos. Aliás, muitas vezes são muito materiais, materialistas. Então assim, é o ganhar pão, o sustento, a construção do patrimônio. E os fatos que acontecem lá são fatos do trabalho, como o pessoal fala. Só que não. Porque independente dos fatos do trabalho ou relacionados ao trabalho, a empresa, ao que seja — não importa a instituição que cada um de nós prestou ou presta serviços — os fatos do dia, independente de quais são, precisariam estar de alguma maneira conectados verdadeiramente à vida, não naquilo que eles representam no mundo terreno. Porque realmente, de fato, tem pouca importância para a vida se a instituição que cada um trabalha ou trabalhou naquele dia tivesse ido melhor ou pior, fechado uma venda ou não. No meu caso, que eu lido com várias áreas na mesma empresa, estão muitos fatos durante o dia. E ao longo do dia eu nem lembro dos iniciais às vezes, de tanta coisa que acontece. Mas o ponto para mim e para você é assim: o que que representam esses fatos? Não do ponto de vista terreno, mas o que que eles representam do ponto de vista espiritual para cada um de nós? E eis aí o desafio. Você fala assim: olha, peraí, não tem nada a ver uma coisa com a outra. O que que as dificuldades que eu vivo no meu trabalho têm a ver com a minha vida espiritual? Tem a ver com a vida da empresa, com a vida do meu negócio, da atividade profissional que cada um desenvolve, desenvolveu. E esse é o ponto que acho que a gente precisa se deter e colocar uma reflexão profunda sobre. De alguma maneira, a gente precisa retirar — de alguma maneira não, a maneira é uma só — mas de alguma maneira a gente precisa entender que é preciso retirar de cada um desses pontos algum significado. Não sobre a vida terrena, mas sobre si mesmo. Nós mesmos. Isso para mim está bem, assim, bem claro nessas situações, nas coisas do dia a dia. Cada um desses fatos, ou muitos, ou a maioria pelo menos dessas coisas que a gente vai vivendo durante o dia, elas acabam mostrando para si mesmo algo que às vezes a gente não tinha se dado conta ainda. Talvez as coisas do dia a dia, a vida, a existência terrena, seja mesmo um espelho. Onde — isso é uma afirmação que a logosofia traz, a sabedoria logosófica é muito precisa nessa afirmação — de que a vida é um espelho onde se reflete o que os pensamentos, ou o que o ser pensa, ou que os pensamentos pensam por ele. Ou seja, na nossa vida diária, nessa existência diária, nos fatos todos, na nossa interação com as pessoas, com as coisas, nas decisões que a gente toma, nas posições que a gente assume, nas opções que a gente faz, vão espelhados. Na verdade servem de espelho em que se projeta o reflexo de algo que existe dentro de cada um de nós. E isso pode parecer meio uma obviedade. Ok, tudo bem, faz sentido. E aí? E daí? E daí, esse é o ponto que deveria servir exatamente como uma oportunidade de a gente pegar mais uma pecinha ou identificar mais uma pecinha desse quebra-cabeças enorme, gigantesco que é o quebra-cabeça da própria vida do ponto de vista consciente e espiritual. Assim como esse quebra-cabeça também engloba a imagem da própria criação e todas as grandes questões que a gente se pergunta e nos inquieta e inquieta a humanidade desde sempre. Como é que a gente faz para que cada um desses fatos do dia a dia, ou pelo menos a maioria deles, ou alguns deles, ou para iniciar, que pelo menos um fato por dia, tenha um significado para essa missão maior que é de montar o grande quebra-cabeça da vida humana? Como é que a gente faz para que a gente possa olhar para si mesmo através de todas as coisas que acontecem ao longo do dia e talvez descobrir — por dia — não descobrir, a palavra pode ser assim — revelar para si mesmo ou tirar realmente o que está cobrindo, descobrir, revelar para si mesmo, deixar evidente para si mesmo algo sobre essa questão mais profunda da vida? E às vezes é na interação com os outros que a gente manifesta de algum jeito ou alguma coisa. E ali geralmente fica, sai impressa ali a característica, o reflexo de algo que existe dentro de cada um de nós. Da forma como a gente vive a vida, da forma como a gente entende a vida. Então é possível pensar que, e seria lógico a gente considerar que a vida acaba se espelhando nesses fatos do dia a dia, na existência terrena. Embora a gente, a princípio, pelo menos eu, passei a maior parte do tempo sem perceber isso. Achando que os fatos do dia a dia eram apenas pontos soltos. E quanta gente ainda vive achando que toda essa vida diária são apenas pontos soltos que obrigatoriamente cada um de nós tem que passar. E às vezes lamenta por passar. Eu lamentei muito, muitas vezes, passar por vários desses pontos. Porque muitos deles são pontos que causam aperto mesmo, de várias formas, de várias maneiras. Pode apertar a mente com um problema muito agudo que eu não consigo resolver. Pode apertar o coração com um assunto que é próprio desse órgão sensível e que diz respeito aos sentimentos, ao amor, o que seja, amizade. Podem ser pontos que nos causem muita apreensão, angústia, ansiedade. Outros podem ser pontos que nos causam muita alegria, felicidade, entusiasmo. Mas ainda assim, então assim, independente do que causam esses fatos, essas ocorrências do dia a dia, é preciso ligar esses pontos. E aí esse é o cerne da questão: como é que a gente liga os pontos dessa existência terrena para que surja uma imagem que tenha significado para a vida? Sob o risco de não fazendo isso, ou não buscando isso, a vida fica sendo aquela coisa meio sem significado, né? Só pegar lá na banca de jornal uma daquelas revistinhas de passatempo que tem a ligar pontos e olhar os pontos, a página ali cheia de pontos. Não diz nada. Não diz nada. Ainda mais quando for em muitos pontos, como é a vida humana, muitos pontos. Não vai dizer nada porque parece uma confusão, parece uma aleatoriedade, parece um... Sei lá o que parece. Não parece nada. E aí a angústia e a ansiedade da vida em que se olha para a vida como uma grande tela em branco cheia de pontos, cheia de pontos. E a gente olha para aquilo e fala assim: cara, o que que é? E daí? Assim, para quê? Por quê? Qual o sentido disso? E eu falo porque eu já senti isso muitas vezes durante períodos da minha vida, senti isso continuamente. E o que a gente hoje busca, e o que eu encontrei, foi começar a ver o sentido quando cada um — ou cada um nada — quando vários desses pontos, isso progressivamente começa com um, pelo menos, mas quando vários desses pontos começam a se interligar, a gente começa a interligar os pontos que vão, na verdade, revelando de fato algo sobre a própria vida do ponto de vista espiritual. Quem somos? Quem somos de fato? Nós não somos esse que está descrito no RG, né? Achar que a gente é essa foto e esse CPF e o endereço e o comprovante de residência. Quer dizer, achar que a gente se define pelo RG, foto e comprovante de residência — o que obviamente parece uma piada, mas pensa: quantas vezes a gente não acha que o que nos define é exatamente essa forma física, né? Que nós somos esse ser, nós estamos nesse ser. Hoje eu afirmo isso com tranquilidade para mim mesmo e para você, porque eu confio em você e sei que eu estou em um ambiente de intimidade aqui nessa conversa nossa. Nós somos muito mais do que a gente conseguiu construir e viver ao longo desses anos desse RG aqui, né? Desse documento aqui, dessa foto aqui. A questão é: o que mais nós somos? Qual mais nós somos? O que mais tem nesse tesouro gigantesco dentro de cada um de nós que é preciso revelar para si mesmo? Bom, para revelar para si mesmo esse tesouro, esse conteúdo infindável, essa potência que cada um de nós é — ainda que a gente desconheça — essa parte inseparável do todo da criação que cada um de nós tem dentro de si — é preciso começar a ligar os pontos dos fatos, das ocorrências, das experiências, das alternativas da vida terrena com consciência. Para que vá surgindo cada vez melhor, ou de forma mais ampla, mais clara, mais completa, a imagem que está oculta aos olhos do entendimento hoje. E é para isso que a gente está aqui. E é para isso que eu estou todo dia buscando conhecimento, essa ferramenta maravilhosa que vai capacitando a mente, a razão, em especial para compreender como interligar cada um desses pontos, que significado cada um deles tem. E a hora que a gente consegue unir esse trabalho da razão, do entendimento, com a consciência do significado desses fatos, das circunstâncias da vida do dia a dia, com a própria vida do ponto de vista espiritual, aí, aí a página da vida, essa grande tela da vida, começa a mudar de perspectiva e começa a surgir o significado oculto por trás da inconsciência. Bora? Esse é um trabalho de formiguinha, de todo dia, de buscar mais conhecimento, de entender mais sobre si mesmo, sobre esse mecanismo todo maravilhoso que cada um de nós tem e que é preciso colocar em movimento. Eu entendo que essa é a missão do conhecimento logosófico. Boas reflexões, fique bem e até o próximo podcast.