Latest / Logosofia no Dia a Dia / A Torre de Babel e o Espelho da Convivência Humana
Transcript
- Oi, é o Ronny, tudo bem? Eu penso que nunca ficou tão óbvia a referência da lenda, dessa história da Torre de Babel. É só olhar para a humanidade, para nossa humanidade hoje e ver que é exatamente a imagem que descreve o que aconteceu com a gente. A gente — que eu digo, o ser humano — em respeito a esse campo experimental que se estende para a convivência humana e para a vida entre os iguais, entre os semelhantes. Que é o segundo campo experimental ou é uma das partes do campo experimental que esse capítulo a Logosofia trata. A gente vive literalmente na Torre de Babel. E não porque de fato os grupos de povos falam línguas diferentes — e isso certamente a gente causa ou é fruto de uma distância entre os povos — mas especialmente porque é só olhar para os que falam a mesma língua e ver como há uma dificuldade inerente à experiência atual de compreender o outro. E de novo, não é porque o outro fala outra língua. Estou falando daqueles que falam a mesma língua. Mais do que isso, vamos se aproximando. Vamos pegar as pessoas mais próximas. Quantas vezes não há dificuldade de entender pessoas próximas que a gente tem convívio e parece que a pessoa está falando outra língua? E, obviamente, que a gente está falando outra língua para essa outra pessoa. Porque a impressão é mútua. A impressão não é nossa apenas. A gente está acostumado a ver o nosso lado. E eu — poxa — eu vivo de vez em quando, eu vivo algumas experiências que me surpreendem. Porque tem seres que eu nunca imaginei que eu fosse me desentender. Por exemplo, as pessoas que a gente mais ama. Eu, nesse caso, os filhos. Essa é porque é um amor que já existe na consciência da mulher e do homem — que amor de pai e mãe não tem igual. É, acho que a gente como filho demora para entender o que que é esse amor. Ele só vai entender quando a gente já é adulto e passa por circunstâncias análogas para poder se colocar na posição do que representa ser mãe e pai e entender o que que é esse amor que parece infinito mesmo. Claro que não é assim, mas não tem nada mais próximo do que um amor infinito do que esse. E quantas vezes acontece — e aconteceu, obviamente, em épocas variadas — de eu me desentender com algum dos filhos. Aí você fala assim: "Ah, mas Ronny, é normal?" É, sim, normal. É assim, é normal porque hoje em dia a gente vive sob o império de pensamentos que ao não serem de nosso controle totalmente — ou seja, a mente não é ainda um espaço, uma dimensão de nossa posse perfeita e controle — acontece mesmo de às vezes eu não conseguir segurar a atuação de algum pensamento, especialmente daqueles mais proeminentes na minha mente que já foram muito mais fortes, mas ainda hoje, de vez em quando, quando eu dou uma bobeada, eles conseguem me curvar assim e curvar minha vontade. E muitas vezes eu discuti com filhos. Claro, não quando eles eram pequenos, mas por exemplo, na adolescência aconteceu. Faz parte do processo até de descoberta dos filhos na idade adolescente — quais são os limites da vida, entre eles, quais são os limites que tem com o pai e com a mãe. Não é uma experiência que acho que todo mundo passa? Tem, depende da psicologia de cada um, dos dois lados. Mas dois filhos meus passaram por isso e eu passei por isso. Então, quando eu estou dando esse exemplo, e aí, obviamente, daí pode partir para pensar em qualquer outro ser que eu me vinculo, me vinculei e que eu tenha um vínculo muito realmente forte. Ainda assim tem hora que há um desentendimento. E, obviamente, que a gente vê que o desentendimento é causado não pelo assunto em si. Porque geralmente quando a gente vê discussões, em geral, as discussões são sobre assuntos quaisquer. Não é que a gente discute só com outro ser humano quando o assunto é muito de vida ou morte. Não é isso. Em geral — lógico, tem até aquela — não é brincadeira. Tem até referência a casal brigando porque como é que cada um aperta a pasta de dente. Lógico que isso é um absurdo. Mas só espelha que a gente assim está ainda sob influência de pensamentos de uma forma tão perigosa que até em coisas que têm zero valor para vida, é possível arrumar encrenca com alguém e com alguém que a gente gosta. E por que eu estou dizendo isso? Porque quando a gente pensa no campo experimental da convivência humana, eu penso que a chave é compreender que ele é uma extensão natural do campo — da parte do campo experimental da vida interna. Por quê? Porque eu achava, durante boa parte da minha vida, que o campo experimental da convivência — esse que a gente estende aos que a gente convive, lógico — ele fosse assim a questão de observar os outros e recolher os elementos que a observação fosse capaz de recolher sobre a psicologia de cada um, sobre como é que cada um lida com as situações, como é que são as experiências que esses outros, esses semelhantes estão vivendo e como é que essa experiência ou a forma de colocar-se na experiência pode me dizer alguma coisa que eu preciso aprender. Ou quando eu vejo alguma conduta que eu falo: "Poxa, mas isso é muito ruim, triste, essa conduta, inadequada" — obviamente deve me servir também como um ponto de alerta de falar assim: "Poxa, como é que eu evito de ter uma conduta como essa também? Eu preciso observar, olha só como é que é o pensamento tal." Essa é uma realidade da convivência. Quer dizer, ela no mínimo tem uma utilidade enorme nessa jornada que cada um de nós busca realizar — que é de nos prover realmente de muitos, vamos dizer assim, frutos. Se a gente empregar a observação de forma consciente para o que vive a humanidade que nos cerca. Mas eu penso que esse é apenas uma parte do campo experimental. E eu demorei para entender o porquê. E eu queria te falar exatamente sobre a parte que para mim assim foi um eureka, sabe? Aquele momento que fala assim: "Ah, agora eu entendi esse negócio." Porque parece muito óbvio esse negócio de observar os outros. E a gente acaba, lógico, como a gente viveu a vida, a gente cresceu numa cultura que voltou a gente para fora. A nossa atenção foi voltada e foi cultivada para fora de nós mesmos. A gente passou a vida observando e apontando o dedo. Não é assim? Quantas vezes a gente não falou assim: "Nossa, o outro ali, olha que feio, que triste, que errado, que não sei quê." Ou quando a gente encontrou alguma dificuldade na vida, a gente procurou o culpado fora de nós. Não foi assim? Quantas vezes eu não fiz isso? Ou quando eu tive uma discussão, uma desentendimento com alguém, eu falei: "Nossa, não dá, fulaninha não dá, pelo amor de Deus. Quantas vezes eu passei por isso?" Essa posição é uma posição obviamente equivocada. Por quê? Porque está exatamente no cerne dessa questão que eu quero dizer. Eu penso que o ponto mais importante dessa parte do campo experimental da convivência humana não é apenas observar os demais com fins de colher esses elementos de uso para si mesmo. Eu acho que a coisa mais sensacional — e é isso que esse capítulo penso que vai deixando claro — mas eu precisei, ao longo do tempo, fazer muitas leituras e refletir muito a respeito para poder pegar essa sutileza. Olha só: o campo experimental do mundo interno, do próprio mundo interno, ele se estende na parte da convivência humana quando aquilo que eu observo nos demais e nas experiências que eu tenho com os demais serve para mostrar algo sobre mim mesmo que de outra forma não estaria à minha vista. Você pegou a sutileza. Ou seja, é como talvez a própria Logosofia afirma — que a vida é um espelho que reflete aquilo que cada um de nós pensa ou que os pensamentos nos levam a fazer, a pensar. Na convivência surgem oportunidades sensacionais de descobrir algo sobre si mesmo que só fica em evidência quando encontra e faz essa prova — essa roça assim, um roça no outro do ponto de vista mental, psicológico. Quando surgem esses desafios, essas oportunidades de ao colocar-se frente ao outro ser humano — por obviamente sermos todos indivíduos, então nós somos diferentes, ainda que a gente possa pensar muito parecido em muitas coisas — nós somos diferentes. Nessas diferenças surgem oportunidades únicas de observar algo sobre si mesmo. Então o que é que eu entendi? Que o campo experimental na parte que se refere ao mundo interno pode se estender — esse campo do mundo interno se estende na parte que concerne à convivência humana, onde não deve ser apenas uma parte do campo de observar os outros. O que eu demorei para entender e perceber é que essa convivência era na verdade uma oportunidade — uma parcela do dia, porque a gente convive uma parcela do dia com os outros — era uma parcela do dia que era incrivelmente possível observar a si mesmo em aspectos ou observar aspectos, faces de si mesmo, sobre si mesmo quando as situações de convívio expõem algo sobre si mesmo. E aí eu posso pegar cada episódio desses diários e começar a ver esses episódios, pensando nisso, assim: "Ué, o que que será que esse episódio aqui está mostrando sobre mim mesmo?" Em vez de ficar apenas falando assim: "Ah, o que que esse episódio aqui fala sobre o outro?" E eu vou observar do outro. Olha só que chave fantástica que a Logosofia está apresentando ao jogar luz sobre algo que para nós era praticamente, às vezes, uma inconveniência — o convívio com os outros. Mas se a gente transformar cada dia, cada dia, literalmente, hoje — não importa que dia você está ouvindo esse podcast, nem que horas — se a gente transformar cada próximas vinte e quatro horas de cada um de nós numa oportunidade de observar a si mesmo quando a gente tiver vivendo essa experiência de lidar com os outros seres humanos, começa a surgir, então, começa a ampliar muito o campo experimental da vida consciente. Eu tenho certeza que você vai observar de forma diferente suas próximas vinte e quatro horas ou em algum momento desses próximos dias sobre isso. E eu tenho certeza que você vai tirar conclusões muito úteis para você. Boas reflexões, fique bem e até o próximo podcast.