Latest / Logosofia no Dia a Dia / O Trapézio da Vida: O Medo de Soltar o Que Nos Traz Até Aqui
Transcript
- Oi, é o Ronny, tudo bem? Eu estava pensando em uma coisa curiosa. Não sei você, mas eu nunca gostei de circo, desses que paravam no bairro. Lembro que meus pais me levaram uma vez quando criança, mas a experiência foi muito ruim e eu não quis mais ir. Não sei se eram os palhaços, que me assustavam, ou a impressão que dava ver aqueles animais presos em espaços minúsculos. A sensação era ruim. Claro, na vida adulta vi espetáculos de outra produção, como o Cirque du Soleil, que é outra história. Mas daquele circo de lona da infância, a lembrança não é boa. Mesmo assim, havia um momento que eu aguardava e que me encantava: quando as luzes se apagavam, os holofotes apontavam para cima, a rede de proteção subia e os artistas começavam o número do trapézio. Puxa vida, como eu gostava de assistir! Desde criança aquilo me encantava. A música de tensão, os tambores, e aqueles artistas se balançando, ganhando velocidade, cada vez mais alto. De um lado, um trapezista pegava impulso; do outro, um parceiro o esperava em outra barra. Então, no momento exato, o primeiro soltava o trapézio, voava pelo ar e agarrava o outro, completando a travessia. Nossa, aquilo era incrível! Ainda hoje, acho o número de trapézio fascinante. O desafio à lei da gravidade é sempre emocionante. Mas, embora pareça extremamente arriscado, há muita ciência no que eles fazem, não é sorte. O trapezista se solta no final do arco, no ápice do movimento pendular. Nesse instante, por conta da inércia, ele está mais leve, quase sem peso. É o momento perfeito para se lançar, voar por um segundo e agarrar o outro trapézio que chega em um arco semelhante. E, claro, se algo der errado, a rede está lá embaixo. Por que essa imagem me veio à mente? Porque ela representa um dos maiores desafios da vida: não dá para pegar o próximo trapézio sem soltar o que estamos segurando. Imagine a cena: o trapezista balança, ganha altura e, quando o outro trapézio se aproxima, ele estende um braço, mas se recusa a soltar a barra em que está. Que imagem absurda, não? Não dá para segurar os dois. Se fizesse isso, ficaria parado, o movimento cessaria. A transposição não aconteceria. Agora, vamos trazer isso para a vida. Como é possível nos transformarmos, superarmos uma condição ou vivermos uma vida diferente se não soltarmos o trapézio da vida atual? Não dá para voar de um lado para o outro se não largarmos o que nos trouxe até aqui. É tão lógico que parece um absurdo questionar. E aí entra o ponto em que cada um precisa ser um cientista da própria vida, como propõe a Logosofia. Muitas vezes, estamos em uma situação, especialmente em uma configuração mental, que parece confortável simplesmente porque já estamos nela. E, por isso, nos parece muito arriscado mudar. Eu mesmo sinto medo de largar algo da vida atual para viver algo diferente. Mesmo que a vida que temos não seja a que queremos, mesmo com tantas coisas para mudar, há uma resistência. Em mim, essa resistência aparece de várias formas. Primeiro, um medo generalizado: "E se eu não conseguir agarrar o próximo trapézio? E se a nova maneira de ser não for melhor?". É como querer sentir paz, mas continuar se importando com coisas que não têm importância nenhuma. Quantas vezes perdi a paz porque me incomodei com fatos circunstanciais, muitas vezes por causa das minhas próprias deficiências psicológicas, que se ativam sem justificativa real? Não dá para viver em paz se eu não trabalhar para anular a força delas em mim. Ou então, acreditamos que a felicidade depende das circunstâncias. Enquanto eu mantiver essa crença, colocando nos fatos externos a causa da minha felicidade ou infelicidade, como poderei ser feliz de verdade? Não chegarei a esse lugar de liberdade interna. Outro exemplo: "Eu quero muito conhecer a mim mesmo, viver uma vida superior, consciente." Mas, ao mesmo tempo, não quero largar a forma inconsciente como vivo em muitos momentos, não quero fazer o trabalho necessário para que essa vida superior se torne uma realidade. Minha intenção não é criar dificuldades, mas mostrar a mim mesmo, e espero que seja útil para você, que para viver uma vida diferente é preciso estar preparado para deixar o ponto em que estamos hoje. Isso se refere ao nosso mundo mental. A vida muda quando mudamos esse mundo interno primeiro. Essas reflexões estão atreladas a um tópico da Logosofia chamado "Essencial". Ele tem poucas frases, mas é muito claro ao afirmar que avançar para um mundo superior exige o afastamento simbólico do mundo comum. O parágrafo termina dizendo: "Ninguém pode ir ao lugar que se propõe se pretende, ao mesmo tempo, permanecer no ponto de partida." É óbvio, lógico, mas como é desafiador viver isso no dia a dia, em cada aspecto da vida. Temos medo de soltar o trapézio em que estamos para poder avançar rumo ao outro. Espero que estas reflexões sejam úteis. Fique bem e até o próximo podcast.