Latest / Logosofia no Dia a Dia / A Lista de Compras que Você Esqueceu ao Entrar no Shopping da Vida
Transcript
- Oi, é o Ronny, tudo bem? Eu estava rindo aqui comigo mesmo, lembrando de alguma situação que já se repetiu algumas vezes na vida. Eu acho que você vai de alguma maneira relacionar, você não viveu exatamente, mas passou por uma coisa parecida. Já teve vezes que eu saí para um shopping, para um shopping center qualquer, porque eu precisava comprar um presente para alguém que ia ter algum aniversário, alguma festa, alguma coisa assim. Ou seja, gastar o menos tempo possível, gastar dinheiro suficiente para o presente e resolver o problema. Bom, você entra no shopping, eu entrei algumas vezes focado — ou pelo menos achando que estava focado — no que eu precisava fazer, e começa a passar na frente daquelas várias lojas. O shopping, propositadamente, é um ambiente feito para deslumbrar. Você vê que o shopping não tem relógio em lugar público, né? Você não vê que horas são. Não tem quase luz natural, tem geralmente uma música de fundo. É para distrair mesmo a atenção e desfocar. Aí você passa numa loja, vê uma promoção da capinha do celular. Tem outra, tem uma peça de roupa ali, ou não sei o quê. Aí passa pela praça de alimentação, ou para numa lojinha de sorvete. Sei lá, tem uma quantidade tão grande de distrações que não foi uma vez na minha vida que, 2 horas depois, eu me dei conta de estar indo para o estacionamento com alguma sacola ou duas a mais do que eu imaginava, cansado, tendo gasto mais do que eu imaginei que ia gastar. E teve uma vez que eu esqueci de comprar o presente — mas tudo bem, que nas outras vezes eu comprei também o presente. Então assim, gasto recursos de tempo, dinheiro e foco em distrações, e cheguei a falhar na missão principal. Pelo menos uma vez eu falhei na missão principal. Supermercado, então, que eu faço toda semana, já aconteceu várias vezes de pegar coisas a mais. Não é possível que só eu vivi isso. Mas várias vezes isso aconteceu — sei lá, 2 semanas atrás aconteceu a última vez — de eu pegar coisas a mais e não ter olhado a lista de novo e esquecido alguma coisa que era necessária. Então assim, são exemplos tão clássicos para mim. Primeiro porque, em geral, isso é uma deficiência minha: eu tenho uma confiança muito grande nas minhas capacidades, fora da medida essa confiança. Porque vira e mexe eu confio na minha memória, eu confio de que eu não vou esquecer alguma coisa, que eu sei o que tenho que fazer. Então eu não saio com papelzinho, com listinha, nem com o celular. Quando é uma coisa muito específica — vou fazer um churrasco do aniversário do meu filho —, legal, aí eu faço uma listinha de compras para o churrasco. Mas assim, em geral, eu não faço lista. E pergunto, até pergunto para a minha mãe, o que está faltando. Ela fala 3, 4 coisas, geralmente, porque o resto eu já sei o que é do dia a dia. Aí eu olho aqui e falo: 3, 4 coisas eu lembro. Bom, se fosse só passar por isso na vida, você ia falar assim: ah Ronny, tudo bem, não causa nenhum mal maior. Quer dizer, é perda de tempo, às vezes compra o que não precisava. Em geral, o que eu não precisava comprar é coisa calórica, porque quando eu vou com fome no mercado, eu geralmente compro coisa errada. Então tem esses problemas que são pequenininhos, são pequenos prejuízos no dia a dia, em termos de foco, de dinheiro e de, especificamente, não ir atrás daquilo que se quer e acabar com coisas que não queria. Mas quando eu penso nisso, fica muito claro um problema muito maior. E o problema maior não é, especificamente, não esquecer uma lista de compras. O problema maior é o seguinte: quando a vida espelha a mesma situação, o mesmo problema, é como se a gente tivesse chegado na vida adulta e a vida fosse, sei lá, o shopping ou o mercado. E isso aqui é tão grande, tão gigantesca a quantidade de lojas no shopping, tão gigantesca a quantidade de corredores do mercado, cheio de vitrines brilhantes. E a gente acha que tem um objetivo, ou a gente percebe — pelo menos sente — que tem algo a realizar na vida. Mas como isso não está claro, a gente começa a entrar na rotina do dia a dia, que é uma rotina de passar por todas as vitrines todo dia da vida. As distrações, as muitas distrações que diariamente tendem — ou ficam tentando — me pegar. Então, por exemplo, a carreira profissional, e muito também pelo status disso, as discussões políticas, a fofoca, os prazeres imediatos, as coisas que tomam tempo. Porque a gente percebe que tem um vazio, de certo modo, na vida, e a gente não quer ficar com a mente parada, porque é agonia, é angustiante ficar com a mente parada. Então tem as distrações que são apenas distrações por si mesmas, que perde-se um tempão, seja hoje na tela, navegando, ou passando o dedo de um lado para o outro na tela, e no final fazendo nada. É como se realmente a vida tivesse se transformado num gigantesco shopping center, e eu me perdi, literalmente. E aí a gente passa a viver num shopping center — imagina, olha que agonia, pensando assim é desesperador. A gente passa a viver num shopping gigantesco, imenso, e esqueceu o que a gente vai fazer nele. A gente não lembra mais qual era o objetivo, o que a gente tinha ido comprar, entre aspas. E a gente tem o risco de gastar a vida inteira nesse shopping, comprando, consumindo coisas, andando de um lado para o outro, vendo vitrine, vendo gente, de vez em quando parando para comer, e se distraindo, consumindo, enfim, às vezes até discutindo, brigando, falando da vida dos outros. E a gente esquece completamente o porquê que a gente entrou nesse lugar. É como se a gente realmente tivesse jogado a lista do objetivo principal — ou não, talvez a gente não tenha nem se dado conta da lista. E como eu, no mercado, sempre acho que vou lembrar. Mas as vitrines são mais fortes que a memória. É duro isso. Eu fico refém do marketing do mundo, e eu fico refém disso no mercado, no shopping. Essa é a fragilidade que eu tenho como ser humano. E aí qual o risco maior? É chegar no final da vida, quando o shopping finalmente vai fechar, cheio de sacola que a gente acumulou durante a vida toda, um monte de sacola inútil, inútil. E a sensação terrível de ter esquecido o que a gente tinha ido fazer nesse shopping. Imagina que desespero que ia ser. Eu sei que a imagem é meio absurda. Claro. Mas assim, você entendeu? Fica assim tão ridículo que dá para entender que, pô, peraí. Então o risco é nós estarmos vivendo a vida diária nesse processo de acordar — inclusive, acordar, fazer academia, o que for. Trabalhar para caramba, resolver os problemas, ou tentar resolvê-los pelo menos, porque os problemas não resolvem porque a gente quer resolver. Os problemas resolvem quando os processos que envolvem cada um desses assuntos da vida se encaminham para um lado ou para o outro e por várias razões. E como eu sempre recordo, e eu penso que isso é vital recordar, nem sempre, apenas condicionados, se resolvem de forma condicionada aquilo que a gente faz ou quer. O risco é passar uma vida nessa rotina diária, pagando boletos, conquistando status, tentando ser mais pelo parecer do que pelo ser mesmo, correndo atrás de um monte de objetivo terreno. E que, de novo, quando eu falo isso, eu não estou diminuindo a importância da vida terrena. É o contrário. É que a vida terrena, eu entendo hoje, deveria ser exatamente o que chamaria nossa atenção todo dia para o que mais importa. Porque a gente esquece de recordar diariamente o objetivo principal. Se é que a gente tem o objetivo principal, claro. Porque, de novo, como as distrações do dia a dia são muitas, muito grandes, são muitas — o shopping é infinito, é um shopping infinito de vitrines —, e não tem relógio, não sabe se é dia, se é noite, a gente se perde. O problema do nosso destino, da nossa existência, da nossa humanidade, da nossa vida como ser humano na Terra, e a nossa existência espiritual — entendo que são os pensamentos principais que todo dia eu preciso me recordar que eu acordei mais um dia para viver a vida assim, em busca de resolver esse problema. Quando digo problema, não é que é um problema, é um enigma. E aí essa reflexão toda é porque tem um trecho no Curso de Iniciação Logosófica, que a Logosofia afirma o seguinte: que cumprir as instâncias do processo de evolução consciente leva aquele que se empenha em realizá-lo — o processo — a recordar diariamente o problema de seu destino. E o ensinamento continua. Mas eu falei: é isso. Quantos dias eu vivi na minha vida totalmente desconectado com o objetivo, o enigma do meu destino como ser humano. E lembrando que o destino, meu destino como ser humano, não me refiro a cumprir as tarefas terrenas, porque isso não é o destino. Porque se isso fosse o destino, você ia me ver jogar a toalha. Literalmente. E eu espero do coração que você não se decepcione comigo. Que você não faça um julgamento apressado dessa minha afirmação. Mas é que são tão duras às vezes, tão duras são as experiências terrenas em todos os campos da vida. E tem época que é mais dura em alguns aspectos: às vezes é no aspecto sensível, emocional, às vezes é no aspecto das lutas materiais, outras no aspecto da convivência, outras vezes é no aspecto de ver um mundo degringolando, a humanidade se degladiando, a situação se deteriorando. Ou às vezes é sentir o vazio e esquecer que o vazio é para ser preenchido. Não importa. Mas se fosse para viver a vida entendendo que o destino, que o meu destino era só repetir tudo isso todo dia durante anos, a chance de eu jogar a toalha era enorme. Pode ser uma dificuldade só minha, uma fragilidade só minha. Pode, ok. Mas eu te digo com sinceridade de coração que, se fosse isso, eu não ia achar sentido em viver. E eu não estou com nenhum pensamento estranho, estou dizendo o seguinte: eu ia passar a viver uma vida angustiada todo dia, o dia inteiro. E talvez eu fosse viver essa vida, passar a vida inteira angustiada, sofrendo, se eu não tivesse despertado para entender finalmente, descobrir finalmente que o meu destino não era passar a vida no shopping center da vida correndo atrás das coisas, me distraindo, ou apenas tomando sorvete e passando na praça de alimentação para não morrer de fome. O que o conhecimento transcendente abre e abriu para mim — e segue abrindo — é a possibilidade de finalmente entender qual é o destino que eu devo recordar todo dia. Ou seja, qual é o problema do meu destino, não como ser terreno, mas como ser dotado de uma consciência e um ser que é também humano e espiritual. Ou seja, eu sou biológico, eu sou psicológico e eu sou espiritual. Esse sou eu, esse é você, esse é cada um dos seres humanos que habitam esse planeta. Embora a gente possa dizer que tem alguns que a gente olha e fala assim sinceramente: esse já se afastou tanto da parte espiritual dele, da realidade espiritual dele, que parece mais um animal. Ok, tem gente assim. Concordo. Mas originalmente nós somos todos esses seres ao mesmo tempo. E é exatamente a força, vamos dizer assim, a força. O benefício maior que nesse sentido eu percebo nessa prática diária de estudar o conhecimento logosófico, de buscar esse conhecimento todo dia, é essa renovação dessa clareza, sabe? Que o dia a dia tende a me afastar dessa clareza. Esse caos do dia a dia — quando eu falo caos, às vezes o dia pode ser tranquilo. Quem olha de fora fala: oh Ronny, você fez home office hoje, que legal, ficou tranquilo em casa. Tudo bem, teve todas as reuniões, ficou no computador fazendo tudo o que tinha que fazer, mexendo em planilha e não sei o quê, atendendo, mandando propostas para cliente, trocando mensagem com o pessoal do seu trabalho para resolver os problemas. Então foi um dia mais tranquilo. Bom, os problemas do shopping foram resolvidos eventualmente. Mas é aquele dia que o caos representa o esquecimento do que eu estou fazendo aqui todo dia nessa terra. Então buscar o conhecimento todo dia logosófico, quando eu vou estudar, quando eu vou fazer a leitura, fazer essa reflexão meditada que eu faço com o ensinamento todo dia, é isso: a sensação de respirar, a sensação de puxa, é isso. Eu vim para a terra para lidar com o enigma, para desvendar o enigma da minha existência, do meu destino como ser humano espiritual, não como ser humano animal. Eu vim para viver, para sobreviver essa vida independente, a despeito de todas as circunstâncias que eu tenha que viver e que eu venha a viver. Que a gente, cada dia, se perca menos. Que a gente não saia no acordar, no começo do dia, esquecendo que a nossa lista de compras nessa vida terrena não é nada material e não é nada circunstancial. Que é para construir algo eterno, em si mesmo. E que a gente não deixe as vitrines continuarem nos traindo tanto, para que no dia que a gente saia do shopping, dessa visita que a gente veio fazer dessa vez, a gente saia com a sensação de que a gente cumpriu o máximo que a gente pôde com a missão principal. Boa leitura, boas reflexões, fique bem e até o próximo podcast.