Latest / Logosofia no Dia a Dia / Você Está Curtindo a Vida no Navio de Cruzeiro? Ou Está Pronto Para a Verdadeira Expedição?
Transcript
- Oi, é o Ronny. Tudo bem? Eu acho que o nosso problema é muito fácil de identificar. A gente acabou acostumando a buscar na vida, ou a gente acabou aprendendo a buscar na vida, idealmente, uma eterna viagem no navio de cruzeiro, sabe? Porque navio de cruzeiro é aquela facilidade, né? Comida à vontade, tem as piscinas, tem entretenimento, tem coisa pra fazer em qualquer hora, 24 horas por dia, tem a vista bonita. Às vezes o mar fica meio agitado, mas a vista bonita. E tem o convívio com o pessoal, com o social, com as pessoas que estão aqui viajando junto. Vai conhecer um monte de gente diferente, vai, às vezes, passear em lugares diferentes, dependendo da rota, vai conhecer lugares que não conhece ainda. Então é uma forma boa também de explorar algum lugar novo. Mas, em geral, é quase como se fosse um — é assim, é sempre férias, né? Então é aquela sensação boa de, assim, ah, tô aqui. Que nem eu vou pegar uma viagem pra qualquer lugar e ficar num hotel bom, num resort, num, né, tranquilo. Já fiz várias viagens dessas, né? Mas o ponto é que, se a vida, se a gente for buscar na vida, ou seguir buscando na vida, o momento em que a gente vai estar sempre nessa viagem no navio de cruzeiro, é como se fosse o ideal que a gente buscasse, sabe? Esse dia, aquela situação tranquila, tá tudo à disposição, eu tô relaxando e aproveitando a vida. Olha só que curioso — a gente tem uma imagem de que aproveitar a vida é esse momento de relax, não é? Eu já não tomo álcool faz quatro anos, mas é porque, né, quando decidi mudar a saúde do corpo, o nutrólogo avisou que o álcool ia atrapalhar, porque atrapalha mesmo, né, essa mudança, essa melhoria, de acordo com os esforços que eu ia fazer, com exercício, com tudo. Então eu simplesmente falei: então, se atrapalha, eu paro agora. Eu bebia muito pouco, né — bebia socialmente só. Mas falei, se atrapalha, até porque não tinha muito, né, gostava, mas não tinha nenhum apego ao álcool. Então, gostava de um vinho, no verão, calor muito quente, gostava de uma cerveja. E, obviamente, adorava um momento no final de semana ou no feriado em que pudesse estar exatamente nessa situação, tomando um vinho, mandando um bom charuto. Quando tem tempo, uma vez cada, sei lá, hoje em dia, cada tantos meses, consigo mandar um charuto com o tempo tranquilo. Mas estou dizendo isso, estou só dando detalhes, porque diz o seguinte: a gente acabou criando — ou criando não, né — a gente criou, a gente acabou absorvendo um conceito de que a vida boa é quando a gente está aproveitando o descanso com as facilidades e prazeres que a vida material oferece, de preferência ao redor de pessoas que a gente gosta. Que, veja, não tem nada de errado nisso, né, não tem nada contra — é o contrário. Eu continuo achando muito gostoso cada momento desse. O problema é que a gente acabou colocando isso como arquétipo da felicidade, do bem-estar, do, sabe assim, de precisar alcançar essa condição. Eu estava recordando e me veio à mente imediatamente uma situação bem oposta, né, à viagem no navio de cruzeiro, esse tipo de situação. Em 1914, um explorador chamado Ernest Shackleton — ele começou, ele fez algumas, né, esse é um cara que explorou especialmente a Antártida, né, o continente Antártico. E ele partiu numa expedição, em 1914, muito ousada. Eles iam atravessar o continente Antártico. Pessoal, ou é Antártida ou Antártica? Se usa os dois nomes, né? A verdade, originalmente, é Antártica. Aqui em português a gente usa Antártida. Porque Antártica é o anti-ártico, é o ponto oposto ao Ártico, que é no norte. Então é o anti-ártico, por isso que era Antártico. Mas, enfim, isso fecha o parênteses aqui. O Shackleton fez uma viagem com vinte e poucos homens, que ele recrutou. E já recrutou dizendo que ia ser um negócio assim: cara, só vem se você realmente quiser ser o descobridor, o explorador do que hoje é ainda uma área inexplorada. E fazer coisas assim é uma viagem épica. E era mesmo. E esse é o tipo de coisa que pouquíssima gente topa, né? Só topa aqueles que você fala: ah, esse pessoal é maluco, né? Por que vai colocar a vida em risco para fazer um negócio desse? Bom, podemos questionar as motivações. Mas há algo nessa motivação do Shackleton que eu sempre admirei. Que é, sim, essa busca pelo que é ignorado. Essa busca por explorar aquilo que ainda é desconhecido. Não porque é arriscado — isso da adrenalina, não é isso. É porque alguma coisa dentro de nós nos move em busca daquilo que a gente ignora e ainda não conhece. Essa viagem foi praticamente um milagre. Porque foi um desastre no início. Era para ser um desastre até o fim. E por razões que só a história pode explicar corretamente. E esses caras não morreram todos. Mas no começo da viagem, quando chegou lá nas primeiras pontas do continente antártico, o navio deles, chamava-se Endurance. O navio acabou ficando preso no gelo. E o que se faria numa situação dessa? Bom, eu que sou meio medroso do ponto de vista de coisas muito sérias, eu ia falar assim: ah, fico no barco, né? Fico no barco, é que é mais seguro, né? Mas o Shackleton, não. Ele entendeu que se ficasse no barco, eles estavam condenados ao gelo quebrar o barco e afundar. Então ele decidiu botar em botes os mantimentos. E a tripulação abandonou o Endurance. E saiu em botes para continuar a jornada, para chegar no continente. E, enfim, aí começou uma história que, acho que o dia que fizerem um filme vai ser incrível. Mas começou uma história em que, acho que alguns — não lembro se alguns ficaram, acho que alguns ficaram no barco, não lembro. Mas começou uma história incrível. Durou quase dois anos. Porque o Shackleton foi com alguns, ou em algum momento foi pedir ajuda. Então eles foram procurar ajuda. Chegar em algum lugar, né? Chegar em alguma condição que pudessem depois resgatar os outros. Acho que, na verdade, eles chegaram no continente e depois alguns saíram para buscar resgate. Final da história — final da história que o Shackleton conseguiu encontrar ajuda depois de quase dois anos. Olha que situação louca. Só para a especificação, né? E voltou para resgatar os homens dele. Não morreu nenhum dos vinte e tantos durante os dois anos no continente Antártico. Depois o barco fica preso no gelo. Olha aqui, não estou falando agora de 2015, né? Não estou falando de 2014 com celular, internet, satélite, nada disso. Estou falando de cem anos antes. Não tinha nem televisão, não tinha nem carro direito, né? Não tinha carro em produção em massa ainda. Não tinha, obviamente — tinha telégrafo, né? Você podia mandar uma mensagem por telégrafo aí na época. Não tinha nada. Veja, estou falando que, assim, num mundo que é extremamente distante do que a gente conhece hoje de recursos, esse explorador se colocou numa viagem com o objetivo de descobrir, de desbravar o que a humanidade desconhecia. E esse cara podia ter sido uma tragédia completa. Esse cara conseguiu. Mas aí, assim, aí já — podia ter sido exatamente a tragédia que falei. Acho que a grande chance era ser a tragédia. Mas esse cara conseguiu não só salvar todos, como se tornou um exemplo. Essa história do Shackleton se tornou um exemplo de que a luta, ou aquilo que move o ser humano na busca pelo que é mais honrado, acaba elevando o ser humano a uma condição que mesmo o próprio ser não conhecia antes. E o que isso tem a ver com a gente? Ah, muita. Eu estou já me detendo na próxima conferência, na seguinte, do livro, e ela se chama "Sobre Ética Logosófica." E ela tem uma — acho que me fez fazer reflexões muito curiosas, porque me levou para todo esse raciocínio, toda essa recordação da exploração do Shackleton. Por quê? Porque a sensação é que a gente está exatamente nesse mesmo momento em que há um desconhecido, há um território, há um mundo, que a gente, ainda que a gente tenha avançado tanto, em tanta coisa ao longo dos últimos milênios como humanidade, como raça, a gente se afastou. Acho que lá atrás a gente pegou uma bifurcação que não foi boa, sabe? Acho que a gente, a humanidade, a gente se afastou do conhecimento transcendente. E a gente foi, cada vez mais, se materializando nas coisas terrenas, realmente na matéria. A gente foi se apegando à matéria, a gente foi se apegando às coisas que a mão pega, os olhos veem, o nariz percebe o cheiro, o ouvido ouve o som, a boca sente o gosto. A gente acabou se materializando tanto, tanto e tanto — e digo isso por mim, pelo apego às coisas materiais, apego que, inclusive, já consegui diminuir muito ao longo dos últimos muitos anos, nesse processo. Mas a gente acabou se afastando daquilo que seria o território, o terreno, seria o campo, seria a vida que a gente simplesmente passou a ignorar, que é o conhecimento transcendente, que é o mundo transcendente, é o mundo causal. Quando a gente fala do mundo mental, é preciso — eu acho que, eu acho não, eu tenho certeza que falta, às vezes, em mim — e por isso que fico me recordando e pensando nessas imagens — falta para mim essa visão clara de que a gente está falando de um mundo que, analogamente ao que era a Antártida há 100 anos atrás, é um mundo totalmente inexplorado pela humanidade, ou seja, pelo ser humano como um todo. A gente se afastou muito desse mundo, ele virou um lugar estranho, virou um território praticamente inexplorado. É como se a gente tivesse as portas dessas grandes expedições de séculos atrás. Aí você fala: pô, Rony, mas e daí? E o que a gente faz agora, então? Esse é o ponto. A gente ficou com a imagem de que a vida é buscar aquele — o ápice da vida seria aquela felicidade do estar curtindo a vida, descansando tranquilo, curtindo as coisas do mundo, material, as coisas terrenas. Isso, para nós, tudo bem, pode ser que para você você tenha uma imagem muito mais elevada que essa, mas fiquei com essa imagem durante a minha formação. Eu absorvi essa imagem da cultura que a gente vive, que eu tinha que buscar essa condição, porque essa condição iria me dar a tranquilidade, a paz, a alegria, a felicidade que sempre sentia que precisava encontrar. O problema, e eu já aproveitei muito dessa condição, durante muitos anos da minha vida, nessa condição material, o problema é que esse lugar, essa viagem de cruzeiro com tudo à vontade, não responde àquilo que inquieta cada um de nós, nem preenche o vazio que a gente sente há tanto tempo, de que tem algo vital faltando na própria vida. A gente olha para uma fronteira como essa que a Logosofia apresenta e fala: uau, mas porra, isso aí é novo, ninguém direito fez isso, poucos fizeram, e puxa, mas é um terreno tão inexplorado para mim. Pois é, para mim também era. Mas a gente tem uma vantagem, frente a essas outras expedições. A gente tem uma vantagem muito grande. A gente tem um conhecimento guia, exatamente para que essa expedição de cada um de nós não seja uma aventura arriscada, mas seja um avanço constante e seguro, rumo àquilo que a gente nem sabia que veio fazer aqui no mundo, mas é aquilo que cada um intui, sente, que precisa buscar, porque é como se tivesse faltando uma parte da própria vida que a gente não tinha encontrado ainda. É sobre isso — o conhecimento logosófico é sobre isso. Isso para mim é muito claro. Isso me deixa assim, me eleva num estado de força, de estímulo, de confiança, porque o conhecimento traz essa condição. Não é uma viagem arriscada, não é uma exploração de risco. É uma expedição com todas as ferramentas e o guia seguro de que a gente vai avançar passo a passo, rumo às grandes descobertas que a humanidade ainda não fez. Elas vão acontecer dentro de cada um, porque é nesse caminho, nessa jornada dentro de si mesmo, que a gente vai encontrar a conexão direta às grandes questões da criação e que tanto a gente sente que precisa buscar e nunca encontrou um caminho para elas. É como se a situação agora fosse assim: a gente está na vida, mas o barco que a gente estava ficou preso no gelo, que nem aconteceu com o Shackleton. É que o gelo da vida comum está se fechando, está fechando ao nosso redor, essa indiferença da vida comum ao grande conteúdo da vida. Então assim, a gente vai ficar sentado na cabine esperando o naufrágio da mente perante todas essas circunstâncias terrenas que tanto tiraram nossa paz, nossa felicidade? Ou a gente vai ter a honra de lutar pela própria liberação? Conhecimento transcendente é esse bote salva-vidas, que exige que a gente abandone o que é pesado e a gente possa ir caminhar rumo a esse despertar. Bora? A gente vai junto. Boas reflexões, fique bem e até o próximo podcast.