Latest / Logosofia no Dia a Dia / Quando a Vida Não Segue o Nosso Plano — A Lição das Árvores
Transcript
- Oi, é o Ronny, tudo bem? No último podcast, no último episódio, eu falei que a gente precisava mergulhar nisso, né, nesse assunto, que é a adaptação, o poder de adaptação que cada um de nós tem frente às circunstâncias e fatos da vida. E que, na verdade, o ponto é exatamente ser ou não poder. Esse é o ponto, esse é o detalhe, porque na adaptação, ou nesse ato de adaptação, existe um mandamento que eu entendo que realmente é o mandamento do pensamento criador. Olha só, tudo, tudo na criação, daquilo que a gente conhece, se adapta. Não é uma questão de opção. Olha que interessante que é isso. Pensa no mais básico. Aqui, na frente da minha janela, eu não tô vendo ainda porque tá escuro lá fora, mas tem um bosque aqui, um monte de árvore bem alta, tem um monte de eucalipto, sei lá o que mais. Pensa assim, durante o ano, nas quatro estações, e na loucura que elas têm variado essas estações, tá tudo meio doido o tempo, o clima, essas árvores, assim como as plantas pequenas, elas se adaptam a cada uma das características que o clima oferece ao longo do ano. Às vezes com variações bruscas, no mesmo dia, isso aqui em São Paulo é super comum. Tem dia que a gente amanhece com frio e passa um calor gigantesco durante o dia, depois cai de novo a temperatura. Não é à toa que é uma época que todo mundo fica meio gripado, ou pega-se muito, fica resfriado, gripe, tudo isso. Mas essas árvores, elas não têm um dilema. Veja, o que é interessante, elas não ficam se debatendo todo dia com a questão: me adapto ou não me adapto à mudança do tempo hoje, ou nesse mês, nessa época do ano? Aí você fala, Ronny, que bobagem, né? Claro que não. Mesmo que elas não tenham condição, não pensem, não sejam, perfeito. E nisso, exatamente por elas não terem essa opção, nisso demonstra, ou nisso está uma prova, na minha compreensão, que esse é um mandato supremo. Ou seja, adaptar-se às mudanças que a vida, no caso, a vida da árvore, né, que a vida oferece, que a vida impõe, não é uma opção. É uma necessidade, é uma lei. Não é à toa que a logosofia leva essa condição a uma das leis universais, como as várias que comandam a criação. Porque não é uma questão de pensar se vale a pena se adaptar. Quando as circunstâncias mudam, a flora, a fauna, os átomos de qualquer ser se adaptam. E os átomos também de objetos, ou daquilo que é inanimado, não tem vida, como a gente conhece, né? Como eu estava falando no último episódio da água, também obedecem. Ou seja, tudo que existe na criação se adapta às mudanças constantes que as condições externas impõem. Então, assim, isso precisa ser pra nós uma... Isso tem que ter uma força instrutiva pra gente que seja inequívoca. Porque, assim, não é o exemplo de uma coisa na criação. É tudo na criação. Tudo, né? E isso tem que se constituir numa lição. Quase como se fosse um MBA, vai. A gente pode olhar pra isso e pensar que isso é um MBA sobre adaptação. E sobre um poder que a gente, como espécie privilegiada que somos, deveríamos ser, mas somos, né? Do ponto de vista de potência, né? Em potência temos toda uma capacidade que, ainda que não esteja desenvolvida totalmente, ou às vezes longe disso, essa capacidade existe de desenvolvimento. Então, nós, com a consciência, com a inteligência, com o poder de analisar, de julgar, de discernir, com essa capacidade de buscar conhecimento que possa explicar o porquê das mudanças da vida, na vida, que a vida impõe, que a vida oferece, é maior ainda a responsabilidade frente a tudo que muda na nossa vida. E, por conta disso, obviamente, quando a gente não exerce essa capacidade de se adaptar às mudanças da vida, pra nós tem um custo muito maior. Bom, isso é outra coisa lógica, né? Quando existe uma capacidade maior, quando essa capacidade não é exercida, o custo é maior. É igual como a gente cobra uma criança de dois, três anos que quebra um negócio, empurra um negócio, um vaso de vidro, sei lá, que alguém, por acaso, deixou ao alcance dela e cai no chão, um copo? Como é que você vai cobrar a responsabilidade de uma criança dessa idade? Agora, se a criança tem oito, nove anos, você já dá aquela... Mais atenção, né, filho? Você está vendo que isso aqui é de vidro, é delicado, isso cai e quebra. Você não pode simplesmente andar por aí sem perceber isso, né? Então, quanto mais capacidade tem, mais cobrança ou, vamos dizer assim, mais custo tem o não exercer essa capacidade. E frente à vida, certamente, não ia ser diferente. Como eu falei, a árvore não escolhe, né? Ela se adapta por um mandato divino. Por quê? Porque tem que se adaptar. Parece que essa é uma condição, de fato, universal. A gente acha que é uma questão de, assim, a vida mudou, ou esse aspecto da vida mudou, ou essa experiência mudou, não está indo do jeito que eu queria, do jeito que eu escolhi, do jeito que eu planejei. É isso, né? Muitas vezes a gente planeja uma coisa e fala, não, eu planejei uma experiência. Então, eu sempre quis viver isso. É, legal, mas aonde está escrito que porque a gente quis ou planejou viver, a gente vai viver como a gente quis e planejou? Obviamente que em lugar nenhum. Ah, mas às vezes a gente consegue. Sim. O que não invalida o que eu acabei de falar. Onde está escrito que o ser humano viveria a experiência e as experiências que escolheu para si, do jeito que quis, quando quis, como quis? Você fala, ah, Ronny, não está escrito em lugar nenhum, lógico. Mas veja se a gente não passa uma parte boa da vida, ou se a gente não passou uma boa parte da vida acreditando que seria assim. Razão essa pela qual a gente sofre. Eu já sofri muito na vida quando as coisas não saíram de acordo com o plano. É igual aquela história que o pessoal fala. Eu não sei de onde é que é, porque eu não acompanho futebol, mas o pessoal fala que tem que combinar com os russos, porque eu acho que algum técnico, ou jogador da seleção brasileira de muito tempo atrás, falou, não, vamos jogar assim, jogar assado, vamos fazer tal tática, tal jogo para poder ganhar o jogo. Eu falo, ah, você já combinou isso com o adversário? Porque todo plano vai encontrar a realidade no instante em que começa o jogo, seja um plano de jogo ou jogo da vida. Então, se todo plano vai ter que lidar com uma realidade que não é como planejado necessariamente, e geralmente não é, como é que a gente se coloca à frente a isso? Como é que a gente vai viver uma vida e vai ser feliz se a vida não sai como a gente planejou ou queria? Parece uma pergunta, chega a ser uma pergunta boba. É boba quando a gente está tratando já dentro de uma reflexão mais clara como essa. Mas quantas vezes eu não acreditei nisso? Quantas vezes eu não esperei? Veja, às vezes você fala, ah, não, lógico, faz sentido, imagina. Seria uma ingenuidade enorme acreditar que a vida seria, ou que as coisas vão acontecer como a gente gostaria. Sim, acho que é fácil de dizer isso. Agora, quantas vezes eu já não me coloquei frente à vida dessa forma como se fosse, como se sim, como se as coisas fossem acontecer como eu queria, claro. Muitas vezes. Eu muitas vezes sucumbi a essa ingenuidade, e que eu vou dizer que não é nem questão de ser ingênuo, porque ingenuidade às vezes dá a impressão que a gente só é bobinho, ah, inocente, e ingenuidade não é inocência, primeira coisa. Porque ingenuidade é ruim, e ela acaba trazendo junto, ela é parte de um conjunto maior de problemas internos. Por exemplo, por que eu quero que as coisas saiam como eu planejei? Porque muitas vezes eu sei que se não fizerem, ou se as coisas mudarem, se as circunstâncias mudarem, eu vou ter que mudar a forma como eu me coloco frente às circunstâncias, às experiências, à própria vida. E eu, sinceramente, tenho sempre uma resistência a mudar a forma como eu me coloco a vida e as coisas. Eis o ponto para mim. Chegamos no ponto do problema do Ronny. Muito bem, eu falo para você com muita confiança, você que está me ouvindo, eu sei que está me ouvindo porque a gente está interessado na mesma coisa, que é essa compreensão cada vez mais ampla, mais clara de como é que a gente se coloca frente à própria vida. Então, eu falo com muita tranquilidade de expor aqui minhas dificuldades, minhas fragilidades tantas para você, porque eu sei que você recebe elas com muito respeito. Então, esse é o ponto principal, a minha fragilidade principal, onde eu sou mais deficiente nesse sentido, é isso. Há uma resistência em mim a mudar a forma como eu me coloco frente à vida e por isso que eu resisto tanto se as circunstâncias e experiências acabarem mudando ou não saindo como eu gostaria. Porque quando não sai, não acontece como eu quero, eu me vejo frente a essa necessidade, é praticamente uma obrigação, eu preciso me adaptar à mudança e há uma resistência. A minha psicologia, a minha mente resiste ainda, sempre oferece, veja, não é que de vez em quando oferece uma resistência, a minha mente ainda sempre oferece uma resistência a fazer uma mudança na forma como eu me coloco frente às experiências da vida. Aí você fala assim, Ronny, que decepcionado que eu estou com você. Ok, não tem problema você me julgar um pouco, mas o ponto é, a despeito disso, isso não quer dizer que então a gente está condenado a sofrer frente a cada mudança. No meu caso, a sofrer frente a cada mudança das circunstâncias da vida, porque, sim, há uma resistência na minha mente, e essa resistência é óbvia, ela é clara no porquê que ela existe, porque é mais cômodo eu ficar e ser do jeito que eu sempre fui até então e ficar torcendo, esperando que a vida me dê as circunstâncias e experiências que se adaptem ao jeito que eu sou. É quase uma inversão, eu inverti toda a lógica, minha mente comum, cômoda, como sempre foi em relação à própria existência, prefere que a criação, que a vida, que o mundo se adapte e ofereça o que eu quero, porque o contrário exige esforço, esse é o ponto. Então, sim, há uma inércia, há um componente de inércia mental na minha mente, há uma fraqueza, claro, uma fragilidade óbvia, há uma resistência a ter que fazer o esforço de recolher, de buscar os elementos, buscar o conhecimento que possa ser necessário para favorecer uma compreensão mais ampla acerca do que eu estou vivendo e, consequentemente, uma mudança na forma de me colocar frente à vida. Há preguiça, falta de vontade, há medo, eu tenho medo, porque eu ainda acredito, muitas vezes, que eu sou desse jeito e que essa forma de ser me define. Mas quando eu me recordo que nenhum de nós, eu, a princípio, posso falar sempre por mim, somente, mas isso aplica a cada um de nós, eu não sou, eu não me defino pelo estado atual da minha psicologia, da minha mente, dos pensamentos atuais. Eu tenho a possibilidade de ser cada vez mais, cada vez melhor. Eu tenho a possibilidade de me superar infinitamente, em pequenas porções que seja, claro, nada dá salto mesmo na natureza, na criação. Então, a possibilidade é infinita. Então, eu não posso me definir na condição atual que eu estou e a condição atual que eu estou não pode definir quem eu sou. Percebe a lógica que está implícita nisso? Isso é uma notícia linda, por quê? Porque nenhum de nós precisa se sentir incapaz, porque frente a uma circunstância, uma experiência da vida que muda, que se alterna, ou uma novidade que a vida apresenta, que não estava previsto, não era do nosso agrado, nada disso representa um obstáculo real. Porque na essência, cada uma dessas alternâncias da vida, elas podem ser transformadas na oportunidade, no ponto de partida de um esforço individual interno de ir em busca dos elementos que a gente precisa para consolidar uma mudança necessária na nossa forma de ser. Pegou a sutileza? É como se essas alternâncias abrissem, cada uma delas, ao mesmo tempo que nos traz um desconforto inicial, e às vezes é muito grande, mas elas abrem oportunidade de que a gente vá buscar o que é necessário, e que às vezes ainda está faltando, na compreensão para a inteligência, compreender aquela mudança, o significado dela, e a necessidade que tenho de me recolocar frente àquela mudança na vida. Ou seja, há um mandato supremo nessas condições, nessas experiências, que são experiências que se acumulam na vida. Acho que não é quase o tempo todo, mas é muito da gente ser surpreendido pela vida caminhar de um jeito que a gente não queria. Isso acontece desde coisas pequenas, todo dia. Tem um compromisso e o trânsito é o caos hoje em São Paulo. É uma coisa que não sai como eu gostaria naquele momento. Mas isso não tem valor, não é sobre isso que estou falando, não é sobre o inconveniente do trânsito. Mas como isso acontece todo dia, ou coisas similares na vida, naquilo que concerne a própria vida, isso também acontece de forma constante. Então, se você olhar para isso, isso não é um incômodo apenas, isso não é uma dificuldade apenas, não é somente um desafio, e às vezes o desafio parece gigantesco. Eu falo desde as coisas pequenas como exemplo, mas eu tenho vivido nos últimos anos experiências que têm me colocado frente a desafios que, inclusive, algumas eu julguei que eu não ia conseguir sobreviver a eles. Lógico que sobreviver literalmente sim, mas que eles iam me arrasar, iam me jogar na lama. E se assim não foi, por que que não foi? E por que que não tem sido? Porque, de fato, cada uma dessas circunstâncias ou experiências da vida que vão se alternando, na maior parte das vezes, e eu friso isso, porque para mim isso fica mais claro a cada dia da minha vida, que a maioria desses fatos e circunstâncias se alternam sem o nosso controle. Isso é uma constante na minha vida, em vários aspectos. Cada uma dessas alternâncias, ela tem alguma ligação direta com a própria existência, com a vida que deveria ser uma vida consciente, já que eu deveria estar vivendo. É como se cada uma dessas alternâncias tivesse um papel a cumprir na minha vida. No despertar da minha consciência para a verdadeira vida, para a verdadeira razão de estar aqui na Terra. Aí você vai falar, ah Ronny, mas isso é uma visão poética, de que puxa os problemas, as experiências difíceis, as surpresas difíceis que a vida apresenta, você vai querer colocar isso como um presente? Ah, tá bom. Eu acho que, assim, hoje seria um stretch, hoje seria um exagero falar que eu vejo assim, exatamente assim, mas eu tenho caminhado para entender cada vez mais de fato assim. O convite que o conhecimento transcendente, esse que a logosofia oferece, é um convite para que a gente possa se capacitar. Nesse sentido, de começar a olhar para a vida e para essas alternâncias, todas as experiências, se não como um presente ainda, mas no mínimo como oportunidade de promover em cada um de nós um passo decisivo de superação em relação a algum aspecto da nossa psicologia que ainda resiste a mudar a forma como nós somos. A adaptação é, de fato, um poder, se a gente conseguir exercê-lo com consciência dessa oportunidade. Ou se adapta às mudanças da vida, o ser humano, ou sofre. Talvez por isso mesmo que tanta gente sofre tanto, por tanto tempo, frente às experiências da vida. O caminho se abre para cada um de nós. A questão é como é que a gente vai se colocar frente a tudo isso. Conhecimento dá disposição, e é o que nos capacita a escolher a melhor forma de caminhar. E eu estou junto, e espero que você fique junto para a gente caminhar com essa força que a gente sente quando a gente sente que a gente não está sozinho nessa luta. Boas reflexões. Fique bem e até o próximo podcast.