Latest / Logosofia no Dia a Dia / O Cuco na Sua Mente: A Metáfora Chocante Que Explica o Parasitismo de Ideias
Transcript
- Oi, é o Ronny, tudo bem? Como é que a gente sabe ou faz para que na vida a gente possa ter segurança de que a gente está vivendo uma vida apoiada na verdade e não no engano? Como é que a gente faz para garantir isso? Ou seja, como é que a gente alcança a segurança de estar apoiando a vida, as decisões, a forma de se colocar à frente de tudo? Na verdade, como é que a gente sabe se a gente está apoiando, se a gente está numa posição em que estamos vendo a verdade quando a gente tem que confrontar cada situação, cada experiência do dia a dia? Aí você fala: "Pô, Ronny, mas como assim, né? Verdade e erro." Eu vou te dar um exemplo. Eu vou te dar um exemplo porque para mim é chocante. E veio na minha mente por conta dessa reflexão. Uma das coisas mais chocantes que eu vi em documentário da National Geographic — aqueles documentários sobre natureza. Eu assistia muito isso quando era mais jovem. Hoje em dia, acabo não tendo o tempo de assistir, mas assistia muitos. E uma das coisas mais chocantes que eu vi — você vê que me marcou, olha como marcou isso, e eu não esqueço disso nunca — é parasitismo de ninhada, parasita de ninhada. Sabe o que é isso ou não? Sabe o cuco? O cuco é uma ave, né? O cuco que a gente fala do relógio de cuco — ninguém quase nunca viu um cuco na vida, mas obviamente existe uma ave com esse nome, né? Não sei se a história do relógio de cuco tinha cuco ou não, mas isso é outra história. Mas o cuco, olha só que surreal que é isso. O cuco não faz ninho. O cuco bota ovo — a fêmea bota ovo depois de acasalar —, eles não fazem ninho. Sabe o que eles fazem? Eles parasitam o ninho de outras aves, em geral bem menores que eles. E sabe o que acontece? Olha só: eles substituem o ovo original. Eles acham, eles procuram um ninho que tenha ovos e que esteja sem os pais no momento, ela pousa, ela joga um ovo fora do ninho — porque sabe que as aves sabem quantos ovos têm, né? —, ela bota o ovo dela no ninho e vai embora. E vai embora. Acabou. E larga. O ovo, ainda que diferente, por conta do instinto das aves que têm o ninho, ela não só não percebe que o ovo não é dela — o ovo eclode num dia X, os filhotes nascem. O filhote de cuco é muito maior em geral do que os ninhos que eles escolhem, do que as espécies que eles escolhem para substituir. E os pais ficam alimentando o filhote de cuco. E vou dizer coisa que é mais chocante: o filhote de cuco empurra outros filhotes para fora do ninho, mata eles, empurrando para fora, e fica demandando comida com aquele bico aberto — um bico que não tem nada a ver com o bico da espécie, a cor dele não tem nada a ver, o tamanho dele não tem nada a ver. E os pais, por conta do instinto e por não terem obviamente uma mente como nós seres humanos somos muito evoluídos temos, eles não percebem o absurdo de que aquele filhote não é deles, e é um assassino, e é um parasita. Se você tá chocado, ótimo, porque eu fiquei muito chocado com isso. Isso me incomodou assim um tempão. Olha que surreal que é — isso é real, isso é realidade do cuco. Aí você fala: "Pô, mas isso é cruel, né?" Assim, veja, a sensação que a gente ser humano tem é de crueldade, mas não tem crueldade nisso, né? É instinto de sobrevivência de todo mundo. Ainda que pareça um absurdo, os pais adotivos — entre aspas — ficar alimentando um filhote que já matou os filhos dele, ou vai matando, é surreal. Porque a quantidade de comida que o cuco precisa é muito maior do que a que os pássaros menores estão acostumados, então assim, vira um inferno, vira uma vida exaustiva dos pais tentando alimentar um filhote muito maior. Bom, vamos parar com show de horror, né? Porque para mim é um show de horror essa história. Mas olha só que interessante: você fala assim, "Ainda bem que essa história é lá nas aves, não tem nada a ver com a gente." Eu vou falar: por um lado é, por outro lado, quantos pensamentos, quantos conceitos, né? E às vezes quantas crenças cada um de nós admitiu na vida, de fora de si mesmo, vindo de fora — veja, vindo de fora —, quantos desses foram inculcados na nossa mente pela cultura vigente, e a gente aceitou como se fosse nosso? Agora você sentiu onde o bicho pega, né? Como o pessoal fala. Olha só: o risco, que é um risco praticamente, se traduz em uma realidade muito triste. É que a gente foi moldando a nossa psicologia, admitindo, aceitando conceitos — esses ovos psicológicos que entraram na nossa mente pequenininhos às vezes, por várias razões, né —, e que a gente foi defendendo como se fosse nosso, mas não são nem bons para a gente eventualmente, ou verdades, ou não tem nada a ver com a nossa vida. E a gente perdeu um tempo enorme, e perde às vezes ainda alimentando esses pensamentos na mente, com nossa energia psicológica, com nossa vida, com nosso tempo. E chega às vezes a causar um estrago tão grande. Eu vou dar exemplos mais radicais, mas só para a gente poder ponderar aqui como isso é uma realidade. Por exemplo: pensamentos ideológicos, políticos, religiosos, de defesa — sabe assim, defesa cega de qualquer coisa, né? Crença cega de qualquer coisa. Porque assim, tudo que a gente não possa, na verdade, comprovar, acaba sendo uma crença, né? Tudo que não possa ser visto à luz da razão, acaba sendo uma crença. Às vezes você pode acreditar em qualquer coisa, em qualquer assunto, né? Inclusive nos assuntos relacionados ao próprio pensamento criador. Então tudo isso que entrou na nossa mente, que alguém colocou, que a gente absorveu, e que às vezes são posições que nem na verdade nos interessam, ou nem nos fazem bem, ou nem nos agregam nada, mas a gente foi aceitando tanta coisa de fora que você vê gente que fica defendendo essas posições que às vezes são tão absurdas, né? E causa briga, causa discussão, causa separação. Por exemplo, na parte política, ideológica, ou social-ideológica, né? Pode ser na política, ou pode ser na parte da sociedade por conta das ideologias todas. Em cada um quer defender o seu ponto de vista, e o outro para ele é um estranho, e o outro para ele é quase um inimigo. Então assim, a gente vê as pessoas se degladiando por conta de opinião sobre tal ou qual ponto da vida social, sobre tal ou qual ponto da política, da economia, do futebol. O pessoal não se mata por causa de crença — porque a minha crença é que vale, você tem que morrer —, o pessoal literalmente se mata. No limite, no limite do absurdo, até isso acontece. Eu tô dando esses exemplos radicais para poder assim mostrar que não tô falando de uma coisa teórica. A nossa cultura está infestada desse parasitismo, que é fruto da gente não ter defesas mentais, e de não ter se capacitado, não ter capacitado a própria razão para avaliar e julgar tudo que entrou, tudo que foi colocado na nossa mente e que acabou eclodindo como ovos. Aí um dia nasce lá e os pensamentos vão crescendo e a gente foi aceitando que esses pensamentos crescessem na nossa mente. Olha só que surreal que é isso. Aí começa a ficar mais parecido com o exemplo absurdo que eu acho absurdo, chocante, da história do pássaro. Mas assim, é chocante, mas para nós é muito pior, porque deturpa. Em geral, todos esses — vamos chamar de enganos —, são enganos, são erros, são equívocos, conceitos, pensamentos equivocados que não se sustentam à luz da razão. Mas que muitas vezes a gente carrega e defende como se fosse parte de nós mesmos, como se fossem nossas criações. Quantas vezes a gente defendeu? Eu defendi muitas vezes na vida uma ideia de outra pessoa como se fosse minha, defendi uma posição como se fosse minha. E para quê? Quando eu era jovem, eu era muito sujeito a esse tipo de coisa. Minha mente ainda estava muito sujeita a defender conceitos e posições de terceiros, da cultura, enfim, da moda, de qualquer coisa, de qualquer ideologia. E eu era muito propenso a defender como se fosse eu mesmo. Eu demorei muito tempo para perceber que aquilo não era eu, que aqueles conceitos, aquelas posições, não são eu. Eu não sou esses pensamentos, esses conceitos, essas posições externas à minha própria vida interna. Mas tudo isso se misturou muito, né? Por conta de ignorar o que é a realidade do mundo mental, a minha realidade, o que é minha mente, o que tem na minha mente, do que tem na minha mente, o que é meu de fato, o que se identifica comigo, e o que não se identifica comigo. E ainda que pensamentos outros se identifiquem comigo, que bem que eles estão fazendo, né? Eles estão a serviço do que é a minha felicidade, ou estão me colocando — colocando a minha vontade a serviço deles? Porque esse é um risco. É que nem o passarinho lá do documentário — coisa horrível a imagem —, passarinhos na exaustão porque não conseguem. Têm que ficar o dia inteiro alimentando aquele monstro que é o filhote de outra espécie, que é parasita no ninho deles, e não dá conta. É o dia inteiro. Quantas vezes eu acabei dando minha energia mental, minha energia vital para pensamentos que não eram nem meus? Puxa vida, como eu perdi tempo com isso. Como eu me desgastei. E eu cheguei em épocas da vida — não vou dizer brigar, mas assim, a me desgastar muito defendendo ideias que na verdade não tem nada a ver com a minha vida. Curioso, não é isso? Tem o tópico seguinte. O livro não é de capítulos — esse livro que a gente está estudando, o "Curso de Iniciação Logosófica" —, mas é de tópicos. E o tópico seguinte é muito curioso. É algo sobre a verdade e o erro. Olha que incrível. E foi esse tópico que me fez imediatamente lembrar — olha que veio na minha mente — essa história do documentário dos pássaros lá do cuco. Agora, tem um ponto claríssimo nesse tópico, no ensinamento logosófico. Para mim é exatamente o que determina a chave, o que determina a alavanca da gente deixar de ser hospedeiro de parasitas mentais. E cada um de nós conquistando essa capacidade, essa independência, essa força de defender a própria vida interna de tudo isso que não está diretamente vinculado àquilo que nós consideramos o mais elevado para a vida e para a existência. Porque o que a gente está buscando, obviamente, para que ocupe, para que permeie nossa mente, a gente está buscando a verdade. A busca humana — eu tenho certeza que isso é algo universal — é pela verdade. E as frações de verdade que a nossa mente, que a razão, seja capaz de identificar naquilo que observa, que a gente vive, que a gente toma contato, essas porções de verdade precisam passar sempre pelo crivo da razão. Não dá para seguir admitindo — entre aspas — porções de verdade se a razão individual não atestar, não der o selo de autenticidade. Então sim, lógico, muitas vezes a gente vai admitir algum conceito que tenha muita lógica até que a gente possa ter mais elementos para julgar com efetiva propriedade aquilo, até que a gente possa observar se aquilo é um fato. Por outro lado, a busca pela verdade — eu entendo que é a busca pela identificação de si mesmo com o que existe de mais elevado, que é o próprio pensamento criador. Que é Deus, na concepção de que Deus está muito mais próximo de nós, na medida que a gente possa compreender a criação, do que o dia que a gente fosse encontrar-se frente a Ele — entre aspas também —, porque esse é um ponto que provavelmente não é o caso. Tem um trecho nesse tópico do ensinamento que a Logosofia afirma o seguinte. Olha, essa é das coisas mais incríveis que eu guardei para mim há um bom tempo quando eu redescobri esse ensinamento. É o seguinte: "As verdades quando o são não se ocultam nem se impõem. Descobrem-se à luz da razão, com o objetivo de que o homem tome consciência delas e as use para emancipar-se da ignorância." Esse trecho para mim é praticamente uma chave, um princípio. Uma... É assim, para mim isso é uma revelação sobre aquilo que eu a vida inteira fiquei intuindo e agoniado. Como é que eu posso saber se eu tô indo pro caminho, se eu tô sendo enganado pelos meus próprios pensamentos, conceitos, aquilo que eu venho — que tá na minha mente, que eu venho admitindo ou que eu já admiti na minha mente em algum momento da vida? Mas esse — "as verdades não se ocultam nem se impõem. Descobrem-se à luz da razão." — Então a própria razão precisa ir sendo capacitada para poder julgar com exatidão tudo isso que existe no nosso acervo mental. Olha que legal. Quer dizer, não é para admitir nada e para permanecer nada na mente que não passe pelo crivo da razão. Aí você pergunta: "Ronny, mas como é que a gente faz para razão estar capacitada para isso?" Bom, o que que eu entendi? Eu entendi que o processo de evolução consciente que a Logosofia propõe e ensina a realizar é exatamente essa capacitação — entre outras tantas coisas, né? É exatamente essa capacitação do mecanismo interno da própria mente, das faculdades da mente. A razão é uma dessas faculdades. Para que a mente possa efetivamente servir de crivo, trabalhar como guardiã do que é, qual é o acervo que a gente tá usando, né? Que a gente tá baseando a vida. Porque é possível que cada um de nós ainda tenha algumas tantas — vamos dizer assim — alguns tantos enganos que tão influenciando na forma como a gente vive e experimenta o dia a dia, a própria vida em si. Dureza isso, né? No final, não era tão longe o exemplo do cuco, né? Por outro lado, a gente tem uma capacidade que obviamente as aves não têm: que é de reverter essa condição. Entender que a capacitação mental, o processo de superação das condições internas, é um processo de ir aproximando cada um de nós da verdade. Porque a gente vai se capacitando a identificar o erro na própria vida. E o erro não tá fora. O erro tá na própria mente. Veja, essa é uma conclusão que para mim me enche de esperança. Ainda que obviamente me impõe um trabalho contínuo de capacitar a razão e avaliar, reavaliar todos esses pensamentos que a gente um dia admitiu. No meu caso, eu admiti e que preciso garantir que todos eles sirvam aos melhores propósitos da minha vida e não o inverso — que eu sirva a qualquer um desses pensamentos, por qualquer uma das razões que eles existam. Vamos que essa liberdade que a Logosofia propõe, a verdadeira liberdade, vale muito a pena. Boa leitura, boas reflexões, fique bem e até o próximo podcast.