Latest / Logosofia no Dia a Dia / As Cerejeiras de Nova York — A Lição Sobre Cultivar a Seiva Antes de ter Flores ou Frutos
Transcript
- Oi, é o Ronny, tudo bem? Ah, que delícia estar de volta a São Paulo e gravar um podcast de novo depois de ter passado uma semana praticamente fora. Mas foi uma semana que eu aproveitei para fazer muitas observações, muitas observações. E talvez esse grande — o grande mistério que a gente ainda não sabe decifrar de forma eficiente na vida — é esse do aproveitar aquilo que a vida vai oferecendo para a gente viver para que sirva de alguma forma para a nossa existência de conteúdo permanente, né? Quer dizer, como é que a gente vive as experiências da vida, sejam elas quais forem, de modo a que a vida vá ganhando um conteúdo real enquanto isso? E eu estava observando por conta dessa viagem, eu estava observando umas — lá no Hemisfério Norte estava uma mudança, eu estava em Nova York, onde mora meu irmão, e estava uma mudança de estações bem, bem, bem nesse começo lá da primavera. E quando eu vou lá no começo da primavera eu fico na expectativa enorme de encontrar as cerejeiras brancas, rosas, vermelhas, violeta. Lá tem cerejeira de uma faixa enorme de cores lindas e elas tendem a florir durante uns quatro dias assim, na hora que esquenta mesmo, né? Primeiro o calor que vem do período da primavera quando começa, elas simplesmente saem daquele estado em que parecem que estão mortas e ficam assim durante meses e meses e meses, né? Do final do outono, inverno inteiro, até que vem esse calor da estação ou uma onda de calor primeira da estação da primavera. Elas se transformam completamente e aquela quantidade infinita de flores de cada cerejeira fica ali exuberante até que alguns dias depois todas as flores caem e aí o verde surge com a força. E aquilo que parecia que não tinha vida, né? Uma árvore que estava meses e meses e meses só, tronco e galhos, surge com uma força enorme. Esse é um espetáculo que enche não só os olhos, mas enche o coração de alegria, porque enche o coração de esperança, enche o coração de otimismo frente à vida, sabendo que na vida — como tudo, né? — na natureza, na criação, tudo é cíclico, tudo é alternando, tudo vai se alternando, tudo vai se superando, né? E aí o ponto é: quando a situação não está propícia às flores, quando não é a hora das flores nem a hora das folhas verdes, o que sustenta a vida da árvore se não são as folhas e as flores? Obviamente a seiva que corre dentro da árvore, essa seiva que é aquele caldo de nutrientes e outras substâncias que a árvore retira do solo e especialmente na época das folhas ainda tem o resultado da fotossíntese. A seiva da árvore é a verdadeira existência da árvore, concorda comigo? Embora a gente admire muito quando a árvore está florida ou se for uma árvore frutífera, quando a árvore dá os frutos, na verdade a essência da árvore é a seiva. As flores e os frutos, no caso, são apenas consequência, né? Isso é assim claríssimo e me fez pensar que muitas vezes eu quis — acabei dando mais atenção aos frutos. Eu queria ter frutos na minha vida, mas não estava preocupado ou não estava cultivando a melhor seiva possível. E isso é curioso porque é como se eu quisesse — durante muito tempo eu quis ter uma vida como se fosse uma árvore cheia de frutos lindos, deliciosos, doces — mas eu não cuidava da seiva, eu não cuidava do mundo interno, eu não cuidava dessa essência que é na verdade a causa tanto das flores como dos frutos. E que a gente pode chamar — até porque a gente se move agora para o próximo tópico, que o próximo tópico são os resultados da realização desse conhecimento no aspecto moral da vida — a gente pode entender então que não adianta querer frutos ou querer ter uma vida, uma árvore toda frondosa e querer ser feliz e querer que os outros nos respeitem, querer que a gente seja bem quisto, querer que a gente seja querido pelos demais. Não dá para conseguir uma posição humana perante os demais seres humanos boa se a gente não estiver na essência, não estiver cultivando na essência da vida interna as condições de excelência de uma vida que vai ser um exemplo, vai ser uma referência, vai ser inspiradora para si e para os demais. A Logosofia apresenta nesse tópico sobre os resultados do aspecto moral uma lógica e uma reflexão e obviamente são ensinamentos que estimulam a reflexão sobre o ponto vital de como é que a gente vai ser de fato feliz se a gente estiver apenas cuidando da árvore de forma externa. E o problema é: como a gente não conhecia o mundo mental interno, o mundo próprio de cada um de nós, esse mundo que pertence a cada um de nós no íntimo, é como se a gente nem soubesse que tem uma seiva. A gente acha que a vida é medida pelas frutas ou pelas flores. Sim, eu acho até que a gente pode dizer que é possível fazer uma medida da vida pelos frutos e pelas flores que a vida apresenta e que a gente tem pendurado nos nossos galhinhos. Mas o problema é quando eu passo a querer que essa árvore dê frutos e flores, sendo que não há cultivo dessa condição interna essencial. É como se a gente tivesse essa vida interna, mas por desconhecer, por não entender como ela funciona, a gente descuida desses nutrientes, da qualidade dessa seiva, permite que circulem durante a vida elementos estranhos dentro da árvore. E a gente acha estranho depois que a vida não reflete, que o dia-a-dia, que a nossa conduta ou que as coisas que a gente vive não refletem aquilo que a gente gostaria. É como se a árvore não cuidasse de si mesma e no final eu não cuidei de mim mesmo durante muito tempo, e teve outro tempo que eu cuidei pouco, outro tempo que eu cuidei de forma inconstante. Aí você pergunta: mas como é que é cuidar de si mesmo? Como é que a árvore cuida de si mesma? A árvore é fácil, porque ela já tem no DNA dela a instrução toda do que fazer, que processos realizar. A raiz retira os elementos, todos os nutrientes e outros minerais do subsolo e ela faz circular os elementos dentro da sua estrutura interna. No nosso caso, talvez a gente veja o seguinte: que a gente também tem tudo para isso já. O problema é que a ignorância acerca do que a gente tem de condições nos faz não aproveitar essa oportunidade. E aí a Logosofia aponta algo que assim — eu não tinha, sabe assim, antes desses ensinamentos da Logosofia — eu não tinha, eu não ia talvez sozinho nunca apontar e ligar duas coisas assim que me pareciam distantes. Que a moral surge em cada um de nós das excelências do sentir interno, que é preciso cultivar essas excelências e ser consciente do que elas constituem. Constituem o quê? Constituem-se uma força poderosa, imponderável, quando — diz o ensinamento — colocadas a serviço, colocadas em prol do propósito, do objetivo, do destino superior da vida humana. Obviamente que esse destino superior está totalmente vinculado à construção daquilo que é de essência permanente na vida. E quando a gente fala nisso sempre me vem à mente, obviamente, essa face da vida que é a face da vida espiritual, que não é outra coisa, né? Que é super simples, que não é outra coisa que não essa face do conteúdo que não é material da vida, do conteúdo que é de essência elevada. Por isso que a gente às vezes tem tanta dificuldade de ver isso, é porque a gente está desacostumado a ver com os olhos do entendimento. A gente está acostumado a ver com os olhos físicos só. Aí a gente olha para a árvore e vê a árvore morta. Aí ou alguns de nós vão lá — eu já fiz isso algumas vezes na vida — que é pendurar frutos numa árvore que não tem nada a ver com a história. Aí eu acho lindo um fruto, aí eu vou lá, pego um fruto e amarro na árvore. Não adianta isso, não é uma árvore frutífera, né? Aqueles que se preocupam — como eu me preocupei durante uma parte da vida muito com a parte externa da árvore — tá sempre parece colocando frutos, pendurando frutos com barbante. Pode parecer ridícula a imagem, né? Alguém fosse pendurar frutos com barbante na árvore para que a árvore parecesse uma árvore frutífera no seu auge. É claro que é boba a imagem, mas no fundo, no fundo eu fiz muito isso: de tentar não ser, tentar parecer ser. E parecer ser não leva a nada, é claro. Mas o difícil é entender que o fruto, né? A árvore frutífera, a árvore bonita de ver com frutos e flores, ela é resultado de uma condição interna que reflete os sentimentos mais elevados que cada ser humano pode ter e pode cultivar dentro de si. Não é à toa que todo método logosófico ele vai apontando para uma realização de forma a alterar, né? Em prol da superação interna, da superação individual de cada ser humano, alterar esse conteúdo que não é só mental e sim sensível também. É como se a seiva não fosse apenas elementos nutritivos que ela carrega. Aliás, ela não é. A seiva é esse conteúdo interno. Claro, na árvore não é o sentir, né? Mas que parece que no ser humano, pelo ensinamento, pela indicação que o ensinamento dá, faz sentido que seja essa condição mais elevada. Porque o que há de mais elevado no ser humano não está na mente ainda, né? Me parece que o que há de mais elevado na condição humana está de fato na capacidade de sentir. Por exemplo, a capacidade de amar, a capacidade de sentir por si mesmo, pelo outro, pela criação, por Deus, pelo que seja. Sentir grato, sentir amor, sentir respeito, né? Sentir compaixão, sentir — sentir é algo que enche, obviamente, a vida desse conteúdo que parece que tem uma essência muito diferente do que apenas como se isso não fosse tão importante. Mas é também, como se fosse apenas questão do cultivo de alguns pensamentos. Por isso que a moral não é algo que se coloca de fora para dentro. Não surge de fora para dentro. A moral surge de dentro para fora. A moral é esse cultivo, essa condição de uma seiva que está cada vez mais pura. E a pureza da nossa seiva, a pureza da vida interna, ela se dá também na mente, mas especialmente no coração. Quantas vezes a gente não fala assim: ah, fulano, ah fulano tem um coração enorme, fulano tem um coração muito bom? Então de vez em quando a gente observa que as pessoas — a gente tem essa referência que é uma referência no fundo, não é referência sobre como a pessoa aparenta, sobre qual a altura da pessoa, se é magra, se é gorda, como é que ela se veste. Não é isso. É naquilo que surge da conduta como uma reflexão, um reflexo desse conteúdo elevado que em geral nas pessoas ainda surge ou aparece muito mais claro pelo sentir do que pelo pensar. Obviamente que o coração nosso já está muito à frente da nossa mente em muitas questões, muitas questões. Nosso coração é o sistema sensível. Que a gente fala sobre o coração, a gente está falando sobre o sistema sensível. Ele parece que está muito à frente. O problema é que muitas vezes a parte da mente, os pensamentos que ainda estão em nossa mente vão impedindo que surjam na vida essas excelências do sentir. É como se a gente tivesse uma seiva muito, muito assim especial, mas ela não consegue gerar os pássaros e as flores porque a casca da árvore está cheia de coisas esquisitas. Então não é à toa que o processo de realização da evolução não é um processo apenas mental nem apenas sensível, não é um processo só de sentir. É de saber. É um processo em que vai se alinhando — a mente vai se alinhando ao coração enquanto o coração vai cultivando de forma cada vez mais consciente. A gente vai cultivando no coração esses sentimentos mais elevados que nos diferem e nos elevam muito das outras criaturas que a gente conhece, que nos distinguem. A capacidade de sentir e de nos identificar com o que há de mais elevado na criação que nos distingue de todos os outros seres vivos que a gente conhece. Que a árvore, que as cerejeiras, que enfim, que qualquer referência de uma árvore linda, de frutos e flores cada um de nós queira recordar, queira ter, seja sempre uma recordação de que a gente precisa cultivar a seiva. O que a gente vai ver na árvore é apenas uma consequência disso. Boas reflexões, fique bem e até o próximo podcast.