Latest / Logosofia no Dia a Dia / A Lotérica e o Foguete — Por Que as Provas da Vida Não São um Infortúnio
Transcript
- Oi, é o Ronny, tudo bem? Sabe já como é que eu fico, né? Eu começo a lembrar de tanta coisa quando eu faço uma revisão, né? Ou quando eu tô estudando, ou quando eu tô nas reflexões mais profundas. Eu sempre recordo de alguma passagem já da vida que eu tentei tirar algum ensinamento real pra mim, né? Algum ensinamento da minha experiência. E tem umas coisas que são tão icônicas porque são tão simples na vida. Daí que a gente pode perceber que o conteúdo ou o valor das coisas da vida não estão no fato em si, né? Estão na capacidade que a gente vai desenvolvendo de retirar desses fatos um valor que realmente esteja acima das coisas circunstanciais, né? Eu lembrei de uma cena. Eu já contei isso há muito tempo atrás, mas... Eu lembrei de uma cena que eu, vários anos atrás, uns 10 anos atrás, eu acho, eu lembro de estar num lugar aqui perto da região sul de São Paulo resolvendo alguma coisa na rua, e eu passei por uma lotérica. E a lotérica tava anunciando que o prêmio, acho que era da Megasena na época, tava acumulado naqueles prêmios bem gordos, assim, que o olho vê, né? Quando a gente capta aquele número, aí vem imediatamente aquele pensamento de uau, e se eu ganhar isso, né? Então eu lembro de... aí eu entrei na lotérica, comprei um bilhete, claro, e eu lembro de pegar o bilhete. Olha só, olha a sensação. Eu lembro de pegar o bilhete, receber o bilhete num balcãozinho, caminhar alguns passos até a frente da loja, assim, o final da lotérica, antes de descer pra calçada, tinha um degrau, eu acho, e eu lembro que eu parei, assim, no último passo, antes de descer pra calçada. E eu lembro que eu olhei pro nada, assim, sabe assim? Olhei pro horizonte, não fechei os olhos, mas é como se eu tivesse naquele momento mergulhado na minha imaginação, porque a imaginação correu solta. E eu comecei a imaginar ganhando aquele prêmio e todas as coisas que eu ia fazer ao ganhar aquele prêmio. Eu não sei, não vou falar que todo mundo, mas acho que muita gente já passou por uma experiência dessa, né? De ficar, a gente fala assim, pensando, mas não é pensando, né? É imaginando o fato, como ganhar naquele prêmio gigantesco e as coisas todas que iam fazer, os problemas da vida comum que iam resolver, né? Eu sei que eu fiquei ali segundos, não sei se foram mais do que alguns segundos, mas pareceu uma eternidade pra mim. Mas eu lembro, assim, a sensação, eu todo em risada, porque quando eu me peguei, quando eu percebi, né, o que tava ocorrendo na minha mente, que eu tinha entregue a minha mente pra imaginação e tava ali naquele filme, né, que a imaginação costuma fazer, eu lembro que eu comecei a rir sozinho e falei: gente, como eu sou vulnerável ainda a esse canto, né? É quase o canto da sereia, né, que parece maravilhoso, mas, na verdade, é uma armadilha perigosíssima. Porque esse devaneio da imaginação, ele, na verdade, responde e ele acaba reforçando internamente uma posição, um equívoco, né? Um conceito que a gente, acho que, culturalmente, a gente deixou crescer na cultura, que é o de que as coisas deveriam, ou poderiam, pelo menos, né? A gente mereceria que as coisas caíssem do céu nas nossas mãos, sabe? Na verdade, até hoje eu tenho que me esforçar pra não deixar esse pensamento perturbar a mente, né? Não de ganhar na loteria, porque eu sei que é praticamente impossível, né? Então acho que eu só lembro de jogar quando é aquela da Megasena da virada, né? Aí eu lembro de jogar, porque é muita notícia e eu acabo me rendendo ao pensamento e eu engordo o prêmio que o pessoal leva sempre com um bilhetezinho. Mas, enfim, o ponto é que há uma tendência em mim, veja, olha que coisa... Você fala assim: ah, Ronny, qual o problema disso? Então vamos lá. Há uma tendência na minha mente a esperar, ou assim, quase como assim, eu gostaria de que as coisas caíssem do céu e os problemas se resolvessem como fosse um passe de mágica. Os problemas da vida. Eu sei que não é assim. Então veja, não é que eu sou iludido, eu sei que não funciona assim. Mas há um pensamento na mente ou, assim, a mente está propensa por falhas mesmo, características lógicas da minha psicologia, e eu acho que isso está na cultura humana. Há uma propensão ao fácil. Inclusive a logosofia descreve isso, né? Quando a gente passa pelo livro, estudo o livro "Deficiências e Propensões do Ser Humano", a logosofia descreve as deficiências psicológicas mais salientes da psicologia humana e as propensões que a mente tem. Uma delas é essa: a propensão ao fácil. Porque por várias razões desse repetir da vida inconsciente, a gente acabou ficando propenso e quer. Porque é óbvio que para a mente comum, se eu puder ter resultado sem esforço, melhor. O esforço para nós, infelizmente, parece algo sofrido, né? Nossa, tem que me esforçar muito para conseguir tal coisa. Já vem uma sensação de sofrimento, não vem? Engraçado isso, né? Agora, vamos pensar o seguinte: o que representa, de fato, o que representam todas as provas todas da vida, e mesmo da vida física aqui na Terra, na nossa existência terrena, as provas todas que vem na vida e as que a gente tem que viver internamente, especialmente essas, né? Ou seja, as situações e experiências que a gente é obrigado a se ver frente e tem que passar por elas, tem que vivê-las, tem que experimentar aquilo. E isso é todo dia. Não é, vai ter uma experiência na vida que eu vou ter que passar. Eu estou me referindo a todos os apertos diários, e não aperto externo. De novo, eu não estou me referindo a provas materiais ou físicas da vida comum. Essas também fazem parte, mas muito mais difíceis são as provas internas. Ou seja, quando a gente é chamado a se colocar e nos conduzirmos frente às experiências do dia a dia. Como é que eu faço aqui agora? Como é que eu me coloco frente a isso aqui e a essa pessoa? Como é que eu me coloco frente a essa necessidade? Como é que eu encaro cada uma das, vamos dizer assim, cada uma das vezes que a gente é chamado a se posicionar internamente? Então, porque não é uma questão só de resolver os problemas ou de encarar as situações, as experiências do dia a dia do ponto de vista externo. Está bom, pronto. Porque há formas e formas de fazer tudo. Qualquer tarefa no dia a dia pode ser lavar a louça, cozinhar, limpar alguma coisa, arrumar o quarto, arrumar a cama. Ou pode ser as tarefas do trabalho no dia a dia com outras pessoas ou sozinho, no computador. Ou pode ser com cliente ou com fornecedores. Não importa. Pode ser no trânsito, pode ser a tarefa de cruzar a cidade no trânsito caótico de São Paulo, por exemplo. Você veja, qualquer coisa. Não é questão de dizer, mas eu resolvi, eu fiz. A questão é como é que a gente viveu aquilo. Mesma coisa, do mais simples ao mais complexo. A gente pode lavar a louça ou arrumar a cama, que é uma coisa básica na vida, de uma forma que internamente seja uma forma feliz e produtiva para a vida. Ou a gente pode fazer isso com mau humor. Quando eu era adolescente, eu fazia isso de mau humor. Porque era obrigado. E veja, a tarefa é a mesma. Então, lavar a louça ou arrumar a cama ou resolver os problemas da vida no dia a dia, todas as experiências que a gente vive, quem olha de fora, fala que tarefa já sei fazer. E a gente sabe fazer. A questão é como é que a gente se coloca à frente cada uma dessas tarefas. E eu falo tarefa, não é a tarefa doméstica ou do trabalho. É os eventos diários, os centenas de eventos diários que a gente tem que lidar. Então, a questão é a colocação interna, ou seja, como é que a gente vive internamente aqueles desafios que a vida oferece aos montes. Todo dia, toda semana, todo mês, todo ano, toda década, a vida inteira. E nisso está... a fronteira é essa. Veja, a diferença entre viver uma vida comum e viver uma vida plena, superior, transcendente, eu entendo que está exatamente nessa fronteira. Qual fronteira? Essa que divide como se fossem dois mundos, que embora estejam juntos, mas há uma membrana invisível que acaba às vezes até impedindo, se a gente não entender que o mundo causal está dentro de nós. O mundo mental é o mundo causal, ou seja, a causa original da nossa felicidade diária não está nas tarefas que a gente está fazendo, e nos acontecimentos, nas notícias, no que a gente alcança no dia a dia. A causa, a conquista daquilo que a gente busca, que é a felicidade, a vida plena, a paz interna, a identificação com o pensamento criador, que é a busca milenar do ser humano, obviamente eterna, ela se dá enquanto a gente vive tudo isso, mas entendendo como é que a gente vai se transformando, como é que a gente vai se esculpindo internamente, enquanto se dá tudo isso, enquanto tudo isso ocorre fora de nós. E aí a gente fala assim: bom, então na verdade a vida é de fato um campo experimental, né? Pois é, essa é a imagem que para mim foi muito original que a logosofia me apresentou, foi essa de que transformar a vida num campo experimental é isso. É sair dessa posição de que as coisas acontecem porque sim ou pelo fato de acontecerem tantas coisas todo dia. A vida é somente uma repetição de fatos para entender que todos os fatos da vida servem para que no laboratório, na bancada de trabalho, ou seja, na bancada do artífice, do artista que cada um de nós pode ser, dentro da própria mente, todos esses fatos diários possam ser oportunidades da gente esculpir, construir, montar, melhorar essa vida superior, essa vida plena, esse ser que vai surgindo finalmente consciente. E a gente sendo consciente dessa construção de uma nova forma de sentir e experimentar a vida. Para isso, aquela imagem de que eu queria que todos os problemas se resolvessem com alguma coisa e caísse do céu, tipo o prêmio da Megasena, não faz sentido. Ah, Ronny, então não pode querer ganhar o prêmio? Pode, claro que pode. O problema não é querer ganhar o prêmio da Megasena, não. O problema é que a gente tem essa posição, essa propensão, porque a gente acha, ao fácil, querer que as coisas fossem fáceis, porque a gente acha que a luta, a gente acha que as provas diárias da vida são um sofrimento que a gente não deveria ter, não precisaria passar por elas. Mas para alcançar um objetivo tão elevado como cada um de nós, de fato, anseia profundamente, para alcançar a tão falada felicidade plena, verdadeira da vida, paz, e, como eu falei, a identificação com o pensamento criador, obviamente haveria que ter muitas provas. Por quê? Porque nenhuma posição elevada, nenhuma conquista elevada ou de valor real vem na criação sem provas concretas. Sem provas concretas de que há condições de manter aquela posição. Vamos pegar, por exemplo, hoje na era da inovação na corrida espacial, nos descobrimentos da tecnologia. A gente está num momento muito incrível disso, porque a tecnologia está agora num ponto que a gente está começando a se preparar para, de fato, explorar e utilizar o espaço aqui no sistema solar de uma forma muito diferente. Nesses últimos anos, o que se tem conquistado em termos de foguetes que mandam as cargas para a órbita ou para fora da Terra estão agora voltando e pousam de volta. É uma coisa sensacional. Agora, olha só, um foguete, para poder conquistar isso, que para a gente é o máximo da tecnologia humana, para a gente conquistar isso e para chegar nesse ponto, quando um foguete desses, agora já, com a tecnologia madura, decola, vence a resistência da gravidade terrestre, coloca uma carga enorme, um veículo enorme em órbita e volta, esses mesmos foguetes chamados de boosters, que são praticamente só motor, foguete, voltam e pousam de volta nas bases na Terra para serem reutilizados. Esses foguetes não passaram por poucas provas, sabe? A tecnologia, a capacidade máxima, essa capacidade de ponta, essa conquista espacial que a gente já está vivendo, ela vem, mas depois de muitas e muitas provas que os engenheiros fizeram com esses motores em primeiro, em bancadas aqui na Terra. Ninguém imaginou uma conquista, ninguém só sonhou com uma conquista dessa, com uma inovação tecnológica dessa e simplesmente fizeram um projeto e botaram para testar em um lançamento real. Claro que não. Esses motores foram submetidos a testes, a provas rigorosíssimas aqui nas bancadas de teste na Terra, nas fábricas e certamente as primeiras versões tiveram muitos problemas, até de vez em quando explode um ou outro nessas provas. Por quê? Porque é exatamente para isso. Porque há que submeter esses materiais, essas ligas metálicas que vem sendo a inovação, a forma de construir os materiais desses motores, tem que submeter eles a pressões enormes, a temperaturas enormes. Por quê? Porque as condições em que eles vão enfrentar, as condições que eles vão enfrentar no voo real, nesse desbravamento da corrida espacial, são condições extremas. Então, assim, é preciso submeter aqueles motores às condições extremas para provar que eles têm condição de alcançar as alturas elevadas que aqueles motores devem alcançar. Você percebeu que estou falando de motor de foguete, mas é, na verdade, a sensação que estou falando da minha própria vida, da nossa própria vida. A gente não poderia alcançar alturas essas que eu me refiro, do ponto de vista espiritual, da vida plena, da plenitude da vida, se a gente não passar por provas que nos habilitem, nos qualifiquem para estar nessas alturas. Faz sentido isso? Faz, não é? Do ponto de vista lógico, faz muito sentido. Quer dizer, as leis universais, a engrenagem da criação, o pensamento criador que determina todos esses processos, e por isso que esses processos físicos a gente já tem descoberto cada vez mais, conhecido mais, e por isso que a gente está agora nessa exploração espacial, uma nova era da exploração espacial. Essa engrenagem cósmica não permite, essa engrenagem da criação não permite aventuras ou as aventuras não conseguem. Quando é só uma aventura, uma tentativa a esmo, é claro que não é sustentável. A conquista real das posições mais elevadas exigem que os veículos, então no nosso caso, que nós, cada um de nós, passe pelas provas de qualificação para as alturas que a gente quer alcançar. Há que qualificar-se a vida, o ser humano, essa constituição interna, esse mundo interno, a mente humana e o coração precisam estar formando uma liga muito especial de qualidade que a gente talvez não tenha se preocupado em alcançar antes na vida para que a gente possa de fato alcançar alturas elevadas. As provas da vida não são um infortúnio, não são um problema que surge de vez em quando e que a gente às vezes reclama que coisa tem que passar por essa experiência, que difícil, que sofrimento, que dureza. As provas da vida, eu entendo que são exatamente essas provas de qualificação da engrenagem, dos motores da mente e do coração que nos permitam, das convicções. As provas da vida são as provas para que a gente forje convicções cada vez mais profundas e sólidas e fortes de que do que a gente quer viver, do que queremos ser e de que a gente está de fato disposto a alcançar essas alturas, essas condições elevadas que a gente tanto anela ou tanto aspirou durante tanto tempo. Não dá para alcançar alturas elevadas do ponto de vista espiritual se a gente não estiver forjando essas convicções e essa posição, essa liga entre a mente e o coração forte e nos preparando e vivendo as experiências do dia a dia, sabendo que elas são exatamente as provas que nos qualificam para alcançar os objetivos mais elevados da vida. Bora! O convite que eu faço é sempre esse, para mim mesmo e obviamente para você. Vamos seguir na busca dessas conquistas que são viver a vida, o dia a dia, as experiências, as provas da vida, especialmente aquilo que nos prova internamente que a gente precisa se qualificar cada vez mais. O conhecimento transcendente é o elemento catalizador que possibilita essa qualificação, essa condição cada vez mais firme, mais sólida, mais forte que a gente vai obtendo para realmente se qualificar para viver aquilo que a gente sempre quis viver. Boas reflexões. Fique bem e até o próximo podcast.