Latest / Logosofia no Dia a Dia / Por Que Guardar Empobrece e Dar Enriquece: A Lógica Metafísica da Doação
Transcript
- Oi, é o Ronny, tudo bem? Eu acho que já te contei, né, que eu adoro... adoro. Eu gosto muito de doar sangue. Eu sou um doador de sangue há muitos anos. Muitos anos. E eu gosto muito do ato de doar sangue e eu acho, assim, um negócio sensacional. Sensacional. Talvez, é lógico, quem não gosta de agulha, por exemplo, isso seria muito difícil, porque é um procedimento, né, que, clinicamente, vai lidar com essas coisas. E eu sei que tem gente que não consegue conviver bem com agulha grande, nada disso, então eu entendo. Mas eu acho que, em geral, há pouco conhecimento e as pessoas nunca pararam pra pensar sobre como é legal doar sangue. Inclusive, é uma pena que o limite seja quatro vezes por ano e eu tô tentando sempre chegar perto desse limite, mas ainda não cheguei. Mas a vontade era de doar todo mês. Mas há limitações fisiológicas pra não poder doar mais do que quatro vezes por ano. Não são outras questões. Mas quando a gente pensa na doação de sangue, eu penso que é uma analogia sensacional pra contrapor o que a gente erroneamente acredita e aprende na formação que a gente tem nessa cultura voltada pra fora de nós mesmos. A gente vive numa cultura extremamente material, apegada ao que é físico. A gente tá bem aterrado na Terra mesmo. A gente tá com as mãos e pés agarrando a Terra e a gente acaba aprendendo, até porque é próprio, desde a criança, esse apego material, porque a gente não tem consciência da vida e da existência do ponto de vista espiritual, consciente. Então a gente aprende, desde pequeno, sobre a posse. A gente quer brinquedo. Poxa, quantas vezes a gente não viu e a gente não disputou quando criança e vê criança disputando brinquedo. Há uma, instintivamente, há uma tendência — isso é, obviamente, da nossa herança, desde a época que a gente não tinha o que comer e tinha que brigar pra comer, tinha que brigar com as feras. A gente é muito centrado e focado em posse das coisas. E é uma pena, porque isso dá uma impressão de que a gente deve só guardar pra si tudo que tem valor. Eu sei que muitos de nós somos muito generosos. Ok, mas o ponto é que fica, ainda assim, fica essa impressão equivocada de que a gente deve guardar. Por quê? Porque no passado não se sabia, né? O corpo também não sabia, por exemplo, se ia ter comida no inverno. Então o corpo guardava gordura. Lembra? Eu já falei sobre essa tendência do corpo de querer acumular gordura. É porque isso está na nossa instrução genética. Porque não sabia se ia ter comida em alguns períodos do ano. Então é que nem um urso que hiberna, né? Tem que guardar. No nosso caso, é uma pena que a gente não hiberna, porque senão a gente gastava a gordura excessiva. Mas voltando ao ponto da doação. Olha que interessante. A doação, ela é pra mim uma prática que ela vai sempre me recordando de que, ao contrário do que a minha tendência dos meus pensamentos diz de guardar pra mim as coisas, né, de guardar pra mim qualquer coisa, a doação ou dar é muito importante e é o melhor pra mim. Do ponto de vista fisiológico, quando eu dou o sangue, eu sou um adulto de 96 quilos. Eu tenho em torno, pelos cálculos mais específicos, eu tenho em torno de 7 litros a 7,5 litros de sangue no meu corpo. A doação, o que eles tiram o máximo é 450 ml. Então é praticamente 6%, 7% o máximo do que eu tenho de sangue. Em 24 horas, o volume líquido disso é reposto. É por isso que a instrução depois que a gente doa é: olha, se hidrata bem hoje, bebe bastante água. Por quê? Porque a primeira coisa que tem que repor é o líquido, né? Então perdeu meio litro, ou seja, tirou meio litro quase, tem que repor meio litro. Se beber um litro e meio, dois litros de água no dia, já resolveu. Então em 24 horas o líquido é reposto. Obviamente que a hemácia, a medula óssea começou a produzir sangue novo assim que sai, porque o corpo acusa a perda de volume e a medula óssea é acionada e começa a atividade superativa. Então reposição do líquido primeiro, aí ela começa a repor as plaquetas logo na sequência. E as plaquetas demoram alguns dias, poucos dias, para repor as plaquetas naquele volume novo. E depois disso, o que demora mais é a reposição das células vermelhas, das hemácias, que demoram algumas semanas para repor as células vermelhas. Enfim, um processo fisiológico e por isso que é estabelecido para o homem — a mulher tem um período um pouquinho maior — mas para o homem 60 dias no mínimo entre doações. Porque assim a reposição das células vermelhas é completa, tá feita e não sobrecarrega a medula óssea de constantemente estar produzindo célula vermelha em muita necessidade. Na mulher são 90 dias, tá, entre doações. Mas há um limite de 4. Por que é um limite de 4 por ano? Só para esclarecer esse ponto: porque quando a gente doa quase meio litro, a gente vai junto uns 200, 250 miligramas de ferro. E o risco é a gente ficar anêmico se a gente doasse mais do que isso, porque o ferro demora para repor. Se tiver uma alimentação correta, né, uma alimentação com ferro demora para repor e aí se doar muito vai baixando o ferro. Essa é a única razão que o limite de 4 vezes por ano. Se não, dá para doar até 6, do ponto de vista das hemácias, do ponto de vista das plaquetas e do líquido. Muito bem, dito tudo isso, feita a minha propaganda para você doar sangue, se você não faz isso ou não fez ainda, a experiência é sensacional. Agora, você vê que eu estava falando sobre o processo fisiológico, mas tem dois pontos que estão acima do processo fisiológico. Primeiro, cada bolsa dessas de quase meio litro de sangue pode salvar até 4 vidas. Imagina o que que... é um negócio que eu não consigo nem entender direito, esse poder, é um poder muito grande. Você percebe que é um poder? É exercer um poder maravilhoso, que é exercer o poder de beneficiar 4 pessoas, que eu não sei quem são, mas que vão receber — olha que legal que é isso — vão receber uma parte de mim, vão receber uma parte de vida, da minha vida. Claro, limitada a essa parte fisiológica, mas é parte da minha vida. E ainda mais eu tenho um sangue, que é um sangue muito bom para isso, que eu sou A negativo, ou seja, eu posso doar para todos os As, que são a maioria da população praticamente brasileira, e porque eu sou negativo, então eu posso doar para todos os As, todos os ABs também. Eu só não posso doar para B, e não posso doar para O. Mas, então assim, o meu sangue é muito bem quisto pelos bancos de sangue, porque serve a muita gente. Então, esse é um ponto dessa experiência, que quando eu estou doando, eu fico pensando assim: puxa, eu vou ajudar as pessoas a ficarem vivas, eu vou renovar a vida das pessoas que precisam desse elemento vital, que é o sangue. Esse é um ponto muito interessante da experiência. E tem um outro ponto, que é como se fosse uma moeda mesmo, tem a outra metade da moeda, que é qual? Enquanto eu estou beneficiando quatro pessoas com sangue, até quatro pessoas, na verdade, eu estou sendo grandemente beneficiado nessa renovação do meu sangue. Olha que coisa incrível. Quando eu dou o sangue — com a pessoa, quando você dá sangue, né, ou tira sangue — esse trabalho de reposição, de reconstrução do volume de sangue perdido pela medula óssea, é um trabalho de renovação e limpeza do líquido do sangue no seu corpo, no meu corpo, no corpo de quem doa. É como se fosse um processo de limpeza, de renovação desse elemento vital. Olha que sensacional que é isso. Não só sensacional do ponto de vista do sangue e da saúde, claro. Porque, ou seja, o significado disso é: doadores de sangue têm uma saúde sanguínea melhor do que quem não doa. Por quê? Porque esse elemento está sendo renovado pela fábrica de sangue mais vezes do que no processo normal de quem não doa, que é uma renovação, claro. As células vermelhas, acho que duram só 120 dias, então a medula óssea produz mais células vermelhas constantemente, mas esse ato é como se fosse uma renovação no estoque, de uma forma muito, muito ativa e muito eficiente. Aí você fala assim: então é realmente uma moeda com dois lados, tem o lado do que recebe o sangue e tem o lado de quem dá o sangue, e os dois se beneficiam muito. Pois é. Isso é contraintuitivo. Perante essa cultura que a gente absorveu de que a gente deve guardar tudo, que a gente deve acumular tudo para a gente, essa cultura voltada ao material acabou imprimindo essa impressão de que a gente deve guardar as coisas. Tanto é que, quantas coisas a gente não guarda em casa. Eu já falei sobre isso também, eu estou aprendendo a me desprender daquela tendência de ficar guardando um monte de coisa, mais do que roupa ou outras coisas, que vai que um dia eu preciso daquilo. Então hoje, até narrei uns meses atrás uma experiência nos últimos anos, eu fiz uma diminuição, uma limpeza nas minhas posses, nas coisas e roupas, e hoje tudo meu cabe num cômodo pequeno, o que é ótimo. Mas voltando ao ponto do sangue e dessa moeda de duas faces, contraintuitivamente ao que a gente aceitou como verdade, dar significa ganhar, receber, ter mais, renovar. E por que eu fiquei pensando nesse ato do doador de sangue — e eu já estou pensando, a última doação foi em novembro, foi no começo de novembro, eu já vou doar agora em final de janeiro. Porque o tópico seguinte do livro Exegese Logosófica, o livro que a gente está estudando atualmente, é sobre exatamente esse ato do ponto de vista metafísico, porque o título é "Dar é Ensinar". Ensinar é dar. Ensinar é dar. Então, o que é que esse tópico me chamou, me fez piscar dentro de mim bem forte a reflexão de que o que a gente aprendeu sobre a vida até agora, a gente precisa dar para as outras pessoas. E a gente tem mil oportunidades para dar aquilo que a gente já aprendeu. A gente ajuda ou educa crianças, ou já educou, ou ajuda na educação, ou já ajudou na educação de alguma criança. A gente tem amigos, familiares, colegas de trabalho que sempre surge uma oportunidade ou outra, por conta das situações e experiências que cada um de nós passa na vida, de conversar sobre essas experiências. Quantas vezes a gente não percebe, não sente, que o outro está querendo falar sobre alguma experiência, está querendo buscar a nossa opinião sobre alguma coisa em relação às experiências da vida. Então, muito melhor do que aquelas conversas que a gente fica às vezes jogando fora, falando de qualquer bobagem. Quando a gente consegue entrar naquele momento de a conversa, ela vai focando na vida, a gente vai chegando mais próximo da vida de cada um de nós, é maravilhoso, porque é a oportunidade em que cada um de nós pode... não é para dar para o outro alguma coisa que o outro não tem. Não é esse o ponto. O ponto é muito mais profundo que esse, na minha compreensão. E eu entendi isso, porque esse tópico é claríssimo, nesse sentido, e para mim, acho que deu um estalo, eu falei: puxa, é isso. Eu tenho que prestar atenção nisso. No quê? Que para dar, para poder oferecer algo útil para o outro, numa ocasião como essa que estou falando, é preciso... é um processo interno muito interessante, porque a gente acaba revivendo dentro, na mente, e muitas vezes com o coração, a gente acaba revivendo algo da própria vida. Na hora que a gente vai extrair, na hora que a gente prepara alguma coisa, na hora que a pessoa fala, quando a gente percebe que há uma necessidade ou há uma oportunidade de dar alguma parte da nossa vida, da nossa experiência. Acho que instantâneo, é um processo que acontece em segundos, mas acho que é um processo muito incrível, intenso, que é o processo de reviver aquilo que a gente viveu, que está relacionado àquele momento, aquela conversa, aquela oportunidade, e a gente revive o que viveu sobre aquilo, e a gente faz um exercício de extrair a essência mais pura, mais elevada que a gente consiga naquele movimento, para oferecer para o outro. E isso, obviamente, eu penso que ele é próprio desse movimento que é querer ajudar, querer servir, querer dar para o outro o que o outro precisa, e que a gente eventualmente tenha. Então é um movimento que tem uma base, do ponto de vista espiritual, elevadíssima. Porque quando a gente quer dar parte da nossa vida, oferecer parte da nossa vida para os outros seres humanos, e com essa vantagem de que a gente não fica sem — pelo contrário — aí que está o grande insight para mim foi esse. Esse exercício de dar, ele tem essa capacidade, esse... o resultado, esse processo de mais uma vez reviver dentro de nós algo da nossa vida, e sintetizar isso que se viveu, que se reviveu, em uma porção de conhecimento vivido, experimentado, compreendido, realizado na própria vida, e oferecer para o outro. É como se fosse um processo de reorganizar aquilo que às vezes está meio solto dentro de nós, e com uma parcela de consciência, capturar a essência daquilo que é parte da nossa vida, para poder oferecer para o outro. Nesse processo, além que pode obviamente beneficiar o outro, mas nesse processo ocorre algo internamente que é maravilhoso. Que é essa reclassificação, essa renovação do acervo de conhecimentos que a consciência possui. Olha que incrível que é isso. O ato de dar, ou o ato de ensinar, são quase sinônimos. Ele favorece — é um ato que, parece que tem um mandato supremo, muito superior para isso. Porque é um ato que favorece muito mais quem dá do que quem recebe eventualmente. Então dá para a gente olhar para a vida diária como um, além de tudo que a gente sempre está falando aqui, como uma oportunidade de identificar esses momentos em que a gente vai poder exercer esse poder maravilhoso de oferecer uma parte da vida para o outro ser humano. A alegria, a felicidade experimentada deixa a felicidade que eu sinto como doador de sangue lá atrás, de tão grande que é quando a gente consegue realizar esse processo cada vez um pouco mais consciente de reviver em si mesmo o conteúdo essencial, vital das nossas experiências que possa ser útil aos demais. Boa leitura, boas reflexões, fique bem e até o próximo podcast.