Latest / Logosofia no Dia a Dia / González Pecotche: O Sherpa da Escalada Logosófica
Transcript
- Oi, é o Ronny, tudo bem? Eu estava lembrando aqui das últimas analogias que a gente tratou e teve duas delas que eu penso que são perfeitas para hoje. Quando eu falei do mergulho, eu estava contando um aspecto, uma face da experiência. Aconteceram algumas faces já, em alguns episódios, mas eram faces específicas, especialmente a última era sobre correnteza, como é que a gente fazia para se deslocar na correnteza, para fazer um mergulho com correnteza, quando o meio ambiente é mais hostil. Mas agora eu estava pensando especificamente numa das faces dessa experiência que para mim é sensacional. Como instrutor de mergulho, quando eu guiava meus alunos embaixo d'água, especialmente os alunos iniciantes ou em curso ainda, especialmente, mas depois os alunos ainda que quando já estavam no mar para fazer o check-out e depois os mergulhos iniciais, quando o aluno ainda é muito inexperiente, mesmo já depois da certificação, o papel que eu fazia, que eu exercia, era um papel muito especial para mim, porque eu cuidava desses alunos de uma forma quase paternal. Eu não era só o guia deles em relação para onde a gente ia se deslocar embaixo d'água. Eu checava o ar deles constantemente, de todos, porque tem um medidor de ar. Se fosse um medidor de combustível, tem um medidor de ar. Eu, quando alguém estava, especialmente aluno ainda, estava começando a querer entrar em pânico com a experiência nova, eu segurava na mão, eu passava essa tranquilidade e mostrava que eu estava ali cuidando dele. Era uma sensação muito boa de poder fazer esse papel, de aclimatar todo mundo ali naquele meio, que é um meio estranho mesmo, que a gente não vive embaixo d'água. E era sempre uma confiança muito bacana que os alunos todos depositavam em mim como instrutor. Por quê? Porque eu conheço o mar como instrutor de mergulho. Eu conheço o meio ambiente, eu entendo praticamente todos os fatores que incorrem ali na nossa atividade. Aliás, é o papel do instrutor, o papel de quem, teoricamente, domina o conhecimento, especialmente tem experiência desse conhecimento. Então, era uma relação muito especial, muita confiança, muito cuidado, os conselhos que eu dava antes de entrar na água, antes de sair do barco, enfim. E depois também, quando a gente fazia os debriefings e fazia análise do mergulho, avaliava o mergulho, eu sempre ia apontando detalhes e pontos importantes que, em geral, o iniciante nem viu, nem entendeu, não percebeu, não se deu conta. E, obviamente, se tinha algum pseudo perigo, alguma situação um pouquinho mais delicada, eu estava sempre de olho e me antecipando a isso. Então, aonde vai, qual o caminho lá embaixo, se tem correnteza ou não. Eu sei aonde vai ter correnteza, de acordo com a topologia do local, da ilha, da costa. Mas eu vou extrapolar essa, porque essa é uma experiência que eu tenho, que eu conheço muito bem, formei muitos alunos, mas eu vou extrapolar para uma experiência que é muito mais épica, do ponto de vista físico, do que essa. Vamos elevar essa analogia para uma relação a uma altitude de até 8.000 e tantos metros. Foi por isso que eu estava pensando também nas analogias que eu fiz com Monte Everest e a escalada, porque a gente estava tratando, alguns episódios atrás, a gente estava tratando dessa aclimatação, que são dois meses, pelo menos, que aqueles que aspiram, que querem ir até o cume, precisam cumprir, no acampamento base e com os ensaios variados. A gente estava tratando da aclimatação na busca da verdade, que a gente tem que se aclimatar à verdade que a gente busca. Ou seja, tem que ir se modificando, o corpo tem que ir se modificando, no caso do Everest, para poder viver naquela altitude naquele período e subir mais altitude ainda. E que a gente também, do ponto de vista metafísico, a engrenagem metafísica, o corpo metafísico nosso tem que ir se adaptando e se transformando para poder se aproximar cada vez mais e absorver uma parcela maior da verdade que a gente busca. Mas agora, hoje, o ponto é exatamente sobre essas duas, vamos dizer, esses dois resuminhos, mas vamos pensar num aspecto que é claríssimo. E sempre, sempre me chamou atenção e eu sempre fui muito fã disso. Quando qualquer um vai escalar, tirando talvez os pouquíssimos que são experientes, em escalada do Everest, são pouquíssimos, quando os escaladores mesmo com experiência em outros lugares vão escalar o Everest, há um fator determinante que possibilita a escalada e que minimiza no máximo possível os desastres que acontecem, porque há mortes, toda temporada de escalada há morte no Everest. É um negócio realmente épico, é um negócio extremamente perigoso, extremamente perigoso. Muito bem, logo depois que se parte do acampamento base, tem um dos trechos que são os mais perigosos da escalada e não está nem lá em cima no final, está a 5.000 metros de altitude, que é uma geleira, não lembro o nome dela agora, mas que é praticamente, quase hoje em dia, caminho obrigatório, e que está se tornando cada vez mais perigoso, porque é uma geleira mesmo, com blocos de gelo, com neve e gelo, lugares com fissuras enormes, buracos que surgem de um dia para o outro, é muito perigoso. Mas antes da temporada de escalada começar, o que acontece? Um grupo dos mais experientes guias de montanha, chamados Sherpas, são os locais lá, exatamente os que vivem lá, gerações e gerações dominam o conhecimento da montanha, e não dominam o conhecimento teórico, dominam a montanha de fato, e sobem e descem cada temporada, dezenas de vezes, e ano após ano, os Sherpas mais experientes, um conjunto de Sherpas mais experientes, faz a travessia dessa geleira, reconhece como é que está naquele ano, as mudanças que teve, porque vai se deslocando o gelo, ainda mais com a temperatura mais quente da terra, vai se tornando isso mais perigoso ainda. E eles começam a criar as rotas, colocando escadas de alumínio para atravessar fissuras muito grandes, estabelecendo rotas de corda, de cabo, para guiar e para apoiar e para garantir a segurança nas travessias. Quando os escaladores começam a travessia e vão atravessar a geleira, já tem lá, não é um milagre, escadas para travessia, para subir paredes de gelo, tem cordas fixadas para você segurar e colocar seu gancho, a pessoa passa certamente com um pouco de medo, mas passa. E talvez, não sei se ela pense assim, "quem colocou essa escada aqui? Quem arriscou a vida pendurado nesse gelo para que eu pudesse passar?" Quem fez isso são os pioneiros. E o episódio de hoje é uma homenagem a quem colocou a escada. Por quê? Porque acho que nessa analogia da Everest é muito boa, porque ela é tão extrema que fica evidenciado que a gente não está acostumado, embora a gente tenha essa relação de aluno e professor durante a vida toda, mas como as experiências são muito sutis, não tem risco de vida na experiência de ir para a escola, pelo menos não na experiência de aprender. Então acho que é uma relação que a gente tem pouca noção, a gente tem uma noção muito sutil, muito tênue do significado dessa relação. Porque um Sherpa não é um ser de outro mundo, literalmente. O Sherpa é um guia, é um conhecedor profundo daquela escalada, do caminho, da rota. Veja, o Sherpa estabelece a rota. Olha que interessante. Você fala, "Ronny, mas a rota é em direção ao cume, né?" Só que não. A escala do Everest não é uma linha reta. A escala do Everest é uma rota toda confusa, que vai, obviamente, se adaptando ao terreno para que seja segura. Não é uma reta que vai subindo. Então alguém estabelece a rota. E os Sherpas estabelecem as rotas com conhecimento profundo do terreno, da montanha, do clima. Então assim, eles sabem onde o vento bate mais forte, onde o vento é perigoso, porque não é ventinho de ficar com frio, né? É vento sério. Se tiver uma tempestade, eles sabem aonde vai ser mais abrigado, aonde que deve ficar a parte do descanso, em relação a… Enfim, cada detalhe. Então, esses Sherpas passam a ser reconhecidos pelos escaladores. Eu sei isso porque eu estava contando a experiência do instrutor de mergulho. Eu tenho certeza que a experiência do Sherpa e do escalador deve ser muito mais intensa, porque a vida de um escalador do Everest depende diretamente dos Sherpas, e do Sherpa do grupo dele. Porque aí cada grupo tem um Sherpa. E o Sherpa não é só quem estabelece a rota. Ele cuida do escalador, daquele grupo que ele está alocado, praticamente como se fossem filhos. Porque o Sherpa não dorme na mesma hora que dorme o escalador. O escalador está dormindo, o Sherpa está derretendo neve para fazer água, o Sherpa está checando equipamento, consertando equipamento, está analisando o clima, está se comunicando com outros Sherpas para poder entender como é que está a montanha em cada um dos seus trechos, de suas partes. Então, a gente pode imaginar, eu já li relatos, mas a gente pode imaginar o que é a relação que a gente, se fosse a gente escalando o Everest nessa condição, qual é a relação que a gente desenvolveria com um Sherpa? E certamente, veja que interessante, ainda que a vida dependa diretamente do Sherpa, ele não é adorado como se fosse um Deus, não é isso. Mas ele é respeitado, ele é admirado, ele é tido, querido pelo escalador, porque ele é o mestre da montanha. O Sherpa é o mestre da montanha. Você sabe que ele já subiu aquilo centenas de vezes, ele conhece cada pedra, cada mudança nas condições, ele domina a rota e domina o método para alcançar o cume, na verdade. Muito bem, dito isso, reconhecendo esse papel, que é praticamente um papel paternal, ele pode parecer chato, às vezes, o Sherpa, por quê? Porque ele fica dando instrução, ele fica indicando, "dessa forma, aqui é para caminhar desse jeito, aqui a pisada tem que ser mais assim, assado, apoia aqui, não vai por ali, vai por aqui", porque ele quer que você chegue ao topo vivo e volte vivo. Ele dá orientação segura para a escalada. E, às vezes, pode parecer até meio chato, assim, "pô, é cheio de regra, né?" O Sherpa instrui muito, dá muita regra, mas é porque a regra é necessária por conta da incapacidade, da ignorância do escalador que nunca fez aquilo, nunca foi naquele lugar. O escalador que não tem muita experiência no Everest, que são quase nenhum, pouquíssimos, não tem nenhuma experiência, a maioria não tem nenhuma experiência, nunca pisou ali. E eu me reconheci nisso, sabe? Assim, nessa busca pela verdade, na escalada, em busca da verdade, eu sou o escalador de primeira viagem do Everest. E eu demorei para reconhecer isso. E mais, eu demorei para reconhecer o papel vital e reconhecer a… e senti uma gratidão enorme por existir um Sherpa, no meu caso, né? Que é o guia, o mestre da montanha, que, no caso, para mim, é o papel que o González Pecotche está cumprindo para mim desde que eu conheci a Logosofia. Mas eu demorei anos para entender isso. Porque ele é o mestre desse caminho para mim, ele é o guia, ele é aquele que domina o caminho que eu vou percorrer, que eu tenho percorrido e tem sido extremamente preciso nas instruções e nos conhecimentos que ele tem oferecido para que eu consiga avançar trecho a trecho dessa escalada. É incrível, porque era a coisa mais óbvia e eu demorei muito tempo para me dar conta que tinha esse papel do Sherpa da montanha e que esse papel é um papel natural. Veja que interessante. Não é uma coisa fora do normal ter um mestre da montanha no Everest, porque não tem como fazer escalada sem um mestre da montanha. A menos que o escalador já tenha subido tantas e tantas vezes que ele se torna um. Aí você tem o conhecimento e domina o conhecimento como o Sherpa da montanha, beleza, você se tornou um Sherpa, só não é da mesma origem de nascimento. Então não dá para ser o self-made man espiritual, ou seja, aquele assim, "eu subi a montanha, alcancei o cume do Everest, eu conquistei o Everest". Ninguém conquista o Everest sozinho, o cara só conquista o cume porque um monte de Sherpa trabalha gerações fazendo isso. Isso é cegueira, é praticamente uma ingratidão a todo esse papel fundamental que o guia tem na escalada. Quando eu olho para o Conhecimento Transcendente e para a minha busca, essa minha trajetória, veja, eu estou numa jornada de busca, de aproximação a esse cume. Como ele não é físico, é bom porque ele não tem fim, é uma elevação constante. Lógico que há passos pequenos, mas firmes. E essa jornada, essa escalada ao cume em busca da verdade, do Conhecimento Transcendente, de entender a vida, a existência, em busca dessa proximidade real com o Criador, com Deus, essa é uma jornada que eu nunca teria nem começado se não fosse o papel do guia, do mestre, do Sherpa. Porque eu nem sabia que existia esse cume para começar a história. Eu nem sabia que existia esse cume. E depois que eu fui informado do cume pela Logosofia, e por isso que eu falo, por trás da Logosofia há o guia, que para mim exerce esse papel de mestre diretamente nessa jornada. Depois de ter sido informado do cume, eu percebi que ele deixou todas as instruções, todas as instruções necessárias para que um ser comum como eu, que nunca tinha escalado nada, muito menos a verdade, pudesse começar essa escalada, desde a aclimatação inicial e cada um dos aspectos, dos trechos que eu já percorri até agora. Eu não sei como são os trechos acima, mas a instrução que o Conhecimento Logosófico deixa, estabelece, é o que preciso eu para realizar e continuar essa jornada desde que eu comecei. Então, muito bem. O ponto talvez mais importante dessa reflexão, e eu estou me referindo ao tópico seguinte do livro Exegese Logosófica, que é sobre "O mestre". É porque… não porque o mestre não precisa, o González Pecotche não precisa que eu pense nele, que eu recorde ele. Não está nem aqui na Terra mais. Mas eu preciso entender e me dar cada vez mais conta, ser mais consciente do papel que o Sherpa exerce nessa escalada do Everest, que eu tenho um guia, um mestre, que exerce o mesmo papel na minha jornada em busca da verdade, do Conhecimento Transcendente e da minha aproximação cada vez maior ao Criador. Cada ensinamento que a gente lê, cada dia que a gente pensar em tudo isso, eu penso que cabe para nós recordar dessa relação e, puxa, poder sentir essa gratidão de que alguém já trilhou essa rota, alguém já colocou todos os avisos e deu todas as instruções que a gente precisa para subi-la. Em segurança. Boas reflexões, fique bem e até o próximo podcast.