Latest / Logosofia no Dia a Dia / A Esteira Invisível: Por Que Corremos Tanto Mas Nunca Chegamos (E Como Sair Dela)
Transcript
- Oi, é o Ronny, tudo bem? Vou te confessar que uma das coisas mais chatas que tem pra mim é uma esteira ergométrica. Sério, eu sei que tem gente que gosta, mas eu não consigo. É muito sofrido pra mim fazer esteira, caminhar na esteira, correr, qualquer coisa que você falar é muito chato. Eu gosto de andar, e eu ando rápido, no ritmo bom. Mas eu gosto de andar e eu acabo andando na cidade, na rua, que tem lugares que é melhor ir a pé e ficar indo de lugar para outro a pé do que tentando pegar qualquer coisa que vai demorar, porque o trânsito é cada vez pior. Ontem foi um dia que eu andei bastante — bastante mesmo, andei vários quilômetros durante o dia. E no final é bom pra saúde e é bom pro tempo, você economiza um tempão que o trânsito é parado. Ontem em São Paulo, quinta-feira, pior dia agora da semana — já faz alguns anos, pós-pandemia, é quinta-feira — então, que bom que eu posso andar bastante, porque eu não aguento uma esteira ergométrica. Bom, obviamente que eu não aguento, porque a sensação de estar em uma esteira ergométrica é um negócio que não tem, não vai pra nada. Tudo bem, a gente pode ter aquela tela legal que simula que você está andando, que você está correndo em lugares lindos. E quando eu fazia esteira em academia, eu fazia exatamente isso, porque era a única chance de eu conseguir ficar em uma esteira por vinte minutos. Então você bota lá aquele vídeo que parece que você está num lugar maravilhoso. É até legal nos primeiros dias, no começo, porque você está conhecendo vários tipos de lugares diferentes, e essa parte era legal. Mas depois já conhecia, já faltava estímulo. E o pior, a sensação de que a gente fica exausto, sem ter de verdade saído do lugar, é um negócio curioso. Pensa: cada vez a gente tem que andar mais rápido. Ou cada dia, cada época, cada semana, tem que ir aumentando a velocidade da esteira, porque a gente quer estímulos novos. Porque o corpo começa a se adaptar àquela velocidade. E ainda assim, no final, a gente sua bastante, o ritmo cardíaco sobe, mas a gente não saiu do lugar, em termos reais. Aí você fala assim: "Ah, Ronny, mas o objetivo da esteira é exatamente esse — é suar, batimento cardíaco lá em cima, queimar caloria". Ok, mas a sensação não é boa. A sensação boa é que a gente conquistou aquele esforço físico que estava precisando. E por isso que a gente vai aumentando a velocidade, às vezes aumenta a inclinação, porque a gente precisa aumentar o desafio, conforme o corpo vai se adaptando ao que conquistou naquela condição anterior. Tá bom. Agora, vamos trasladar isso, vamos projetar essa mesma realidade. Será que ela acontece com a vida da gente como um todo? Que a gente passa a vida correndo atrás de novos estímulos, a vida toda, apenas para você descobrir que no final — ou quando você faz uma avaliação — a gente praticamente não saiu do lugar, em termos de sensação de existir e de preencher a vida com algo permanente? É exaustivo passar a vida correndo atrás de novos estímulos sempre. Eu, pelo que observei na minha vida, em geral, a grande tragédia é que a esmagadora maioria de nós transformou a própria vida numa gigantesca esteira ergométrica invisível. Sabe o que acontece? A gente — eu acho que assim — a cultura que a gente absorveu, a cultura que a gente vive, que na verdade é uma sequência de pensamentos cultivados ao longo de muitos e muitos tempos, muitos anos, séculos, mesmo que a gente tenha uma cultura hoje chamada moderna, cultura contemporânea, é uma cultura totalmente moldada, totalmente voltada a satisfazer os gostos, desejos e as tendências, paixões pessoais que nunca, nunca se saciam. E é uma cultura que nos tornou muito egoístas, porque é para satisfazer os nossos gostos, desejos, paixões pessoais. Esse é o motor da esteira da vida. Se tornou o motor da esteira, os desejos materiais não têm fim, porque a mecânica é exatamente isso. A mecânica é igual a esteira ergométrica. A mecânica é desenhada para nunca saciar, para nunca parar, para nunca acabar. Não é para chegar em algum lugar. Você vai para uma esteira ergométrica não é porque você quer chegar no outro lugar. Se você quer chegar no outro lugar tem que pegar o metrô, tem que pegar outras coisas. Mas a esteira ergométrica, o design dela é para ficar parado no lugar. E o design dessa esteira ergométrica invisível, da vida que foi construída para todos nós — apenas satisfazer gostos, desejos e paixões pessoais que nunca se saciam — é exatamente desenhada para nunca saciar. Olha só o detalhe: ela é pensada, se ela existisse fisicamente, ela é projetada para nunca saciar. É praticamente uma vida escravizadora, porque é a ilusão sempre de que na próxima conquista — igual a esteira — daqui a X minutos eu chegar em tal marco, conseguir chegar no quilômetro 1, 2, 3. Então tem sempre a ilusão de que os próximos 100 mil reais na conta, próximo milhão, próximo cargo na empresa que eu trabalho, próximo bem material que finalmente eu vou conquistar — seja o carro, a casa, a casa de praia, a roupa que eu queria, o computador que eu queria, sei lá, não importa, o celular que eu queria — a sensação de que a próxima conquista material finalmente vai desligar a esteira e eu vou ficar em paz. Eu lembro dessa sensação, de que quando eu chegar em tal condição, aí vai ser tudo bem, aí a vida vai ficar tranquila, vou me sentir em paz com a vida. O que acontecia cada vez que chegava nesses marcos e alcançava qualquer uma dessas conquistas? Não só a esteira não desligava, como a esteira acelerava. Ela começa a girar mais rápido. Por quê? Porque o corpo — e aí tem uma tendência observada, tanto pela neurociência como pela própria psicologia, acho que a psicologia positiva — chama de esteira hedônica. É exatamente uma tendência do cérebro, da mente humana, de você poder ter um fato feliz, super feliz, conquistou algo, qualquer uma dessas coisas que eu estava comentando. Mas o problema é que o corpo, o nosso sistema nervoso, neuropensante, quando você conquista algo — seja uma coisa curta, pequena, de curto prazo, ou uma coisa muito grande, tipo carro novo — a injeção de dopamina no cérebro, no corpo, é enorme. A sensação de prazer de conquistar qualquer uma dessas coisas terrenas que a gente passa o tempo todo correndo atrás, ou de ganhar uma promoção... Eu lembro quando fui ao cargo altíssimo lá no banco que eu trabalhava, a sensação de felicidade, de alegria, foi enorme. Quando comprava carro novo, cada vez que comprava um carro novo, a sensação era assim: "Que delícia". Então é uma injeção de dopamina no organismo, claro que é. A sensação é sensacional. Qual o problema? Esse é o conceito que a neurociência define da esteira hedônica. O problema é que depois de alguns — pode ser horas, dias, depende do bem, depende da conquista que foi — é uma questão sempre de qual o tempo que vai passar. Não é questão se vai acontecer ou não, mas depois de um tempo, aquela sensação passa. Então, por exemplo, eu lembro quando comprava um carro novo. Naquela época, depois de alguns meses, já não tinha mais graça. A graça do carro novo, o cheirinho ia passando, e já era o mesmo carro. Aí um ano depois, já começava a olhar para carros novos que iria comprar depois, novos modelos, quais eram os lançamentos que iam vir, para trocar de carro, para um carro zero mais legal. Por quê? Porque o cérebro quer outra injeção de dopamina, quer mais. E esse é o problema da vida nessa esteira. O problema é que a gente sempre vai precisar de um estímulo externo maior. E puxa vida, a gente chega a passar décadas, e muita gente passa a vida inteira correndo atrás desses estímulos externos, porque cada vez tem que ser um estímulo maior, para poder dar de novo uma sensação de "agora sim". Só que o "agora sim" passa, igual tomar um bom vinho. Eu já não bebo álcool faz quase 4 anos, mas tomar um bom vinho, uma bebida que cada um gostava ou gosta, ou comer aquele prato maravilhoso, ou então aquele chocolate delicioso — no meu caso — a sensação é deliciosa, mas passa rápido. E o problema é esse. Aí o corpo fala o quê? "Eu quero mais", porque vira um vício de sentir a sensação de alegria da conquista, ou do prazer imediato. E isso fica gerando esse estímulo. A esteira não para, ela vai só acelerando. E a gente não vai sentindo a sensação de preenchimento da vida real, e vai só acelerando essa corrida eterna em busca de qualquer coisa que dê uma sensação de alegria, de satisfação, de felicidade. Só que em geral se busca isso fora. E olha, pode ser até uma coisa que não é material. "Vou viver uma experiência, uma viagem". Ou então assim: "Puxa, não é, eu vou namorar com a pessoa que eu queria namorar, ou casar". Não importa. Mas quando vem de fora para dentro, quando depende de alguma coisa que está fora de nós, depende do outro, não é algo que possa ser permanente na vida, porque as circunstâncias podem mudar sempre em relação ao que está fora de nós. Nesse tópico que a gente está ainda — que tem um nome muito apropriado — "A Logosofia Transforma e Enriquece a Vida" — eu vi bem claro esse conceito de que a gente tem a possibilidade de deixar essa esteira, sair dessa esteira que no final é um tipo de vida que é uma escravidão. A gente fica escravizado pela busca eterna dessas sensações. É muito ruim. E o que a Logosofia propõe, que esse Conhecimento Transcendente propõe, é que a gente vá substituindo esse mecanismo da esteira e comece a andar pelas experiências do mundo de forma a aproveitar e recolher de cada uma delas — sejam quais forem — a essência, o conhecimento essencial da vida e da existência. São conteúdos essenciais, existenciais para a vida, que preenchem e respondem a níveis totalmente superiores, elevados de necessidades de cada um de nós, porque são questões espirituais. A busca da essência espiritual na vida, através dessa vida diária nossa... A busca pela essência espiritual não é largar tudo ou ter dinheiro suficiente para ir viver nas montanhas isolado e meditando o dia todo. Não é isso. A busca por esse conteúdo real, sair dessa esteira infinita de correr atrás de sensações que passam sempre — essa busca é a busca pelo conteúdo essencial espiritual. Só que as sensações, a cada fração de conteúdo que se encontra nesse caso, é infinitamente superior e é duradoura. Contrário, diferente das sensações passageiras que as conquistas materiais ou que a satisfação das paixões humanas entrega. É simplesmente assim: esse conhecimento, a Logosofia está propondo uma inversão do motor. Olha que legal que é isso! A gente não passa mais 20, 30 anos correndo atrás da esteira corporativa para provar o valor que tem para os outros, conquistando cargos. Porque essa vida eu vivi. Acumula dinheiro, status, carros, viagens maravilhosas. Mas chega num domingo à noite, o nível de angústia é o mesmo de quando eu era estagiário. Quem não viveu isso? Não importa as conquistas todas. Aí chega domingo à noite, começa aquela angústia, porque o próprio final de semana também tinha sido uma dose de dopamina. E a gente passa a semana — passava a semana — assim: "Puxa, não vejo a hora de chegar o final de semana porque aí eu vou curtir, vou poder aproveitar". Vira uma escravidão. É uma esteira mesmo. O foco da vida precisa mudar de ser para fora de si mesmo, para ser para dentro de si mesmo. Porque aí é começar a experimentar um prazer sublime. O próprio texto, o próprio ensinamento logosófico fala disso: um prazer sublime quando a gente começa a elevar a vida a um outro nível. A fonte do prazer muda. O prazer não vem de consumir mais nada. O prazer vem de começar a viver, experimentar a vida de uma forma totalmente diferente. E sabe qual o melhor? Que nessa forma nova de experimentar, de sentir, de viver a vida — quando a gente sai, desliga a esteira e vai andar de verdade no mundo com esse olhar, com essa consciência, começa a desenvolver essa consciência — a gente começa a experimentar a maior alegria dessa experiência humana, que é exatamente ir compartilhando com os outros seres humanos dessa nova forma de viver a vida, de experimentar a vida na sua essência. E aí começa a abrir a possibilidade de compartilhar verdadeiramente o que há de melhor na vida com os outros. Desde pessoas que a gente vê de vez em quando, ou pessoas que a gente relaciona a trabalho, até quem está mais próximo da gente. Porque a gente começa a compartilhar não as coisas da esteira. A gente começa a compartilhar essa essência que tem um sabor sublime, um sabor divino. E todo mundo no fundo está buscando essa mesma essência. E todo mundo quer — quando se dá conta — que é isso. E é por isso que quando a gente consegue fazer uma conversa ir para esse lado, ou se elevar nesse sentido, são conversas maravilhosas entre a gente e quem seja. Diferente de quando a gente está focado na esteira e as conversas são sempre também do mesmo nível. Por isso que fica claro o que a Logosofia está propondo. E isso que me encanta na Logosofia — me estimula mais do que encanta, me estimula — é que a gente de verdade começa a viver a vida numa dimensão que é infinitamente superior à vida que eu tinha antes, à forma como eu vivia a vida antes. É algo que parece até... Mas será que a gente consegue viver isso cada vez mais e menos da esteira? Claro que sim. Nós, só por estarmos aqui nesse momento — eu falando e você ouvindo esse podcast — é prova de que todos nós conseguimos ir deixando de viver na esteira e passando a olhar para a vida de uma outra forma, em busca dessa essência, desse conteúdo espiritual para a vida, enquanto a gente vive a experiência do dia a dia aqui na Terra. Vamos parar de correr nessa esteira aos poucos e vamos começar a dar nossas caminhadas na vida. Boas reflexões. Fique bem e até o próximo podcast.