Latest / Logosofia no Dia a Dia / Quando o Coração Quer Uma Coisa e a Mente Faz Outra — A Divisão Interna que Divide o Mundo
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- Oi, é o Ronny, tudo bom? Eu estava lembrando, até por conta dessa mudança climática que pegou a gente aqui no sudeste — obviamente nada surpreso, porque o outro ano já havia começado, a gente não tinha pego ainda uma primeira onda de temperatura mais baixa. E ontem chegou em São Paulo, certamente passou pelo sul também. Mas eu estava lembrando — olha que curioso — quando eu era criança e na adolescência, começo da adolescência, mesmo no meio, eu tinha muita crise de bronquite. Quando chegava um tempo desse, ou mudava, ou a temperatura caía muito, eu ficava muito vulnerável. E lembro de várias vezes — na época não tinha aqueles aparelhos direitos, o que nem hoje tem, de fazer inalação em casa — então eu acabava indo para o pronto-socorro para poder fazer inalação. Lembro de colocar aquele negócio, aquelas máscaras no nariz, e ter que ficar respirando aquilo. Mas assim, eu não gostava da situação, mas o alívio era tão grande que, no final, era bem-vindo sempre. Era uma gratidão enorme quando eu ia para o hospital para fazer inalação. Agora, o curioso é que, conforme eu cresci, essas crises de bronquite pararam de acontecer. E aí, outro dia eu estava curioso sobre isso — falei, poxa, que engraçado, vai chegar o inverno de novo, e aí lembrei dessas crises todas em outras épocas da vida, e depois como parou. Depois que fiquei jovem, as crises pararam. Fui investigar porquê, e achei muito interessante que há uma lógica por trás dessa — não é cura, mas é uma remissão desses quadros respiratórios que, em geral, crianças e adolescentes apresentam no começo da adolescência, que levam à bronquite, aquelas crises todas. E sabe qual é a razão da remissão, ou seja, da falta de acontecer de novo? É porque o crescimento faz alguns pequenos milagres — muda as condições internas. E acho que os principais fatores, pelo que lembro, são, primeiro, o próprio sistema imunológico, que já é muito mais forte, mais capacitado, e já com muito mais aprendizado sobre vírus e bactérias, se mantém muito mais apto a debelar as infecções virais normais, comuns. Mas especialmente — o crescimento do corpo acaba fazendo crescer também as vias aéreas, todas respiratórias. E aquilo que rapidamente congestionava e causava dificuldade de passagem de ar na criança, depois, como tudo cresce, crescem as vias aéreas, as passagens de ar, crescem os alvéolos no pulmão. Então o muco que antes formava no pulmão, o catarro, e que obstruía tudo e quase impedia de respirar, causava muita dificuldade de respirar — já mesmo existindo e acontecendo de novo, não causa essa dificuldade. Então, até porque os músculos estão ao redor do próprio pulmão, e a capacidade muscular do adulto é muito maior, então ele respira mesmo com dificuldade. Então, assim, eu estava lembrando desse detalhe só porque caiu a temperatura de novo, e falei, poxa, que bom que já não passo aquilo que eu passava antes. Se a gente for transpor isso para uma realidade bem mais ampla, a gente pode entender, acho talvez, algo que é preciso compreender para a gente se colocar melhor frente aos acontecimentos da vida e do mundo como um todo. A gente está sujeito — todos nós estamos sujeitos — porque todos nós repartimos, a gente vive junto num mundo, num planeta, aqui numa sociedade, e a gente acaba vivendo juntos esses dramas que a sociedade, que a humanidade está vivendo, e que já viveu ao longo dos tempos. É impressionante como um negócio cíclico — assim como as minhas crises de bronquite eram cíclicas na infância. Nossa, tinha otite também — putz, tinha dor de ouvido em um nível... O pior é que era ocasionado pelo mesmo problema: quando começava a acumular muco, e as vias aéreas menores, mesma razão, tampavam logo. E nossa, vou te falar, tem muita coisa ruim na vida, mas dor de ouvido é um negócio — putz, gringo — eu sofria demais. A homenagem — eu sempre lembro com muita gratidão, e às vezes falo aqui para a minha mãe — poxa, eu passava a noite assim, ela passava horas do meu lado com ferro de passar, e passando uma toalhinha, esquentando uma toalha, uma toalhinha para eu poder deitar e botar no ouvido que estava doendo. Em geral, o calor acabava ajudando a, acho que a expandir mesmo as vias, e aí a pressão cedia um pouco, né? Puxa vida, como era sofrido aquilo. Mas então, a gente parece que vai vivendo — a gente que eu digo nós-humanidade — e aí cada um de nós, de alguma maneira, pode acabar se sentindo que está... Independente de quanto cada um de nós está fazendo para as coisas acontecerem ou não, a gente está sujeito à mesma realidade. A gente vive ciclicamente, parece que como as estações do ano. A gente vive uma história na humanidade que se repete em fatos e acontecimentos que são tão doloridos para a humanidade, são épocas tão difíceis. A gente vê, de alguma maneira, as coisas vão se repetindo, como se a gente não conseguisse escapar disso. Eu estou, obviamente, assim, sempre — últimos anos todos, aliás, sempre, mas mais últimos anos, os últimos cinco anos, dez — muito preocupado com o caminhar da vida humana como um todo. Porque, assim, como a gente tem voltado a viver um estado que parecia que já tinha sido superado, a humanidade. Acho que quando passou pelas crises do século passado, no começo do século passado, das grandes guerras, eu até acreditei que a gente tinha aprendido as lições de forma definitiva. O fato é que a gente não aprendeu as lições de forma definitiva e estamos sempre sujeitos a viver de novo o recrudescimento desses mesmos problemas, dessas mesmas lamentáveis situações e épocas que a gente acaba enfrentando — ou de novo como antes, ou em parcelas, em partes, em proporções diferentes. Mas, assim, há muitas coisas acontecendo na humanidade. A gente olha para tudo isso e fala assim: como é possível que a gente se meteu de novo em situações ou em um quadro tão complicado, tão triste, quando se olha de forma mais serena, como o quadro atual da humanidade? Mas aí eu estava pensando o seguinte: a explicação é muito clara. E se a gente pensar bem, a explicação sempre esteve na nossa cara e na frente do nosso nariz, desde sempre. Nós continuamos sendo — nós, conjunto de seres humanos — continuamos sendo muito vulneráveis aos pensamentos que em certas épocas se manifestam de forma muito aguda em algumas mentes. E as mentes se dobram, os pensamentos dobram as mentes e as mentes simplesmente param de pensar e cedem à força desses pensamentos. É só a gente pensar no estado atual de divisão em que o ser humano vive. O ser humano está brigando e está dividido por coisas que chegam a ser um absurdo — opiniões. Então assim, a gente se divide porque cada um torce para um time. Eu vou fazer um disclaimer aqui: eu não torço para time nenhum de futebol, já faz 40 anos. Mas a gente se divide porque torce para time diferente, se divide porque apoia ou tem visão política diferente, se divide porque qualquer coisa que acontece, cada um de nós tem uma razão própria. E aí entende que o outro não tem a razão — quem está com a razão sou eu. E a tendência é querer separar a gente do outro. Você vê que isso acontece em qualquer nível — no individual, quando a gente está se relacionando com qualquer ser humano no dia a dia, pode ser até aqueles que estão mais próximos da gente, ou no nível de uma quantidade maior de seres humanos, as massas humanas. E quando chega ao ponto de países, de conjuntos inteiros, por conta dos seus dirigentes, se desentenderem. Então a gente vê assim: o estado atual do mundo é um estado que demonstra que, embora a gente tenha avançado, esteja avançando de forma exponencial na tecnologia material do mundo, da experiência humana, na parte mental, espiritual — no que concerne, em vez, não na mente comum, que é essa mente que está trabalhando com a tecnologia, mas que também se desenvolve com as limitações da vida material e ela não tem como ultrapassar essas limitações — a mente comum está se desenvolvendo muito bem, obrigado, diria a humanidade. Mas a mente superior, essa mente que deveria estar exercendo uma capacidade de gestão da vida, especialmente do ponto de vista da existencial, da vida, do existir aqui, do ser um ser consciente — ou pelo menos deveria ser um ser consciente — de entender a própria experiência humana de uma forma que passe por cima de todas essas pequenezas que a gente observa no dia a dia, propriamente, às vezes, a mente dos demais se detendo. Mas não — parece que a gente avança com a mente comum, sempre avança. E parece às vezes que a gente está andando para trás com a parte da mente que deveria estar cuidando da vida do ponto de vista existencial, da nossa colocação frente à vida. Porque o risco sempre é esse: da gente deixar a mente comum nos levar com esse estímulo, com esse ímpeto, essa velocidade dos acontecimentos, da tecnologia, das coisas, dos avanços da humanidade, das conquistas diárias, materiais. Enquanto isso, a gente seguir vulnerável, muito vulnerável, para pensamentos de todas as índoles. Esses pensamentos que têm feito, têm criado, racham, têm dividido os seres humanos entre si. A começar por dividir dentro de cada um de nós — ou por separar, melhor do que dividir — por separar dentro de cada um de nós, o próprio sentir do pensar. Quantas vezes a gente não consegue ser coerente? Quantas vezes eu não fui coerente entre o meu sentir e o meu fazer, o meu pensar? É como se eu tivesse, assim, o coração quer verdadeiramente, e tenha, assim, um profundo querer sobre uma forma de viver, sobre uma opção, sobre uma escolha, sobre uma colocação frente à vida. Mas aí a conduta segue para o outro lado. Aí você fala assim: como é possível? Como é que a gente pode ter um querer profundo no coração e muitas vezes as escolhas ou a conduta seguir para um lado diferente? Mas é possível, sim. Na minha vida, eu já observei muito isso. Não é engraçado, mas eu estou rindo de nervoso. Essa fragilidade de ainda sermos — eu pelo menos posso falar por mim — sermos ainda um ser que está dividido mesmo, não consegue viver como um só. Às vezes tem hora que ele vive de acordo com os pensamentos da mente e tem hora que vive de acordo com o que o coração quer profundamente. Você percebe que a gente está em uma situação ainda muito frágil, como ser que a gente poderia ser conscientes do nosso existir, da nossa vida como um todo. A gente segue muito vulnerável ainda à influência dos pensamentos, que começam por isso — por separar a mente do coração em cada um de nós. E, obviamente, seria lógico e seria uma ingenuidade a gente pensar que não aconteceria — é separar os seres humanos entre si. Como falei, desde coisas simples e meio bobas — como, por exemplo, torcer para um time de qualquer esporte, ou futebol que seja, no Brasil — ou cada um defender suas ideias e acabar vítima de ideologias que tendem a consumir a mente mesmo. Qualquer ideologia tende a consumir a mente, colocar a mente num molde. Esse é um estado super difícil de sair, porque a gente não percebe que está num molde. E aí não consegue exercer esse livre arbítrio, não consegue exercer essa capacidade, essa liberdade — pelo menos na teoria — que cada um de nós teria ou tem para pensar por si mesmo. Aí você fala assim: porroninho, mas assim, duro, né? Esse quadro que você está pintando aí, que dureza, né? Pois é, que dureza. Lembrei até de uma propaganda que tinha antigamente sobre isso — uma bebida, uma propaganda de bebida alcoólica, que podia ter, né? Deu duro, aí tomava um dré. Mas o ponto é o seguinte: frente a um quadro como esse, o ponto não é assim — então, vou me desanimar, né? Porque assim, a situação está difícil, a gente não consegue nem encontrar a si mesmo, ou ser um ser íntegro, não pensar e não sentir, e, quiçá, já conseguir conviver em harmonia com os demais seres humanos, os povos entre si. Não — o ponto é exatamente o inverso desse. Essa é uma mensagem, e esse podcast é um podcast sempre repleto de otimismo e esperança, e por uma razão muito óbvia: porque eu tenho convicção absoluta na capacidade humana. Porque eu vejo em mim, frente a todas as minhas dificuldades, limitações e fragilidades, eu tenho visto em mim surgir essas capacidades na medida em que eu passo a conhecer a potência que essa engrenagem maravilhosa que é a nossa mente — ela é, ainda que eu não tenha desenvolvido na sua plenitude. E nisso entra, assim, precisamente esse conhecimento transcendente que a logosofia apresenta sobre a própria mente, sobre a realidade do mundo mental, sobre a realidade dos pensamentos. Você percebe que agora a gente começa a entender, assim, talvez de uma outra forma, por que é tão importante, e por que o conhecimento logosófico ele se concentra nessa — vamos dizer assim — nessa apresentação, nessa elucidação do mistério do mundo mental. Não um mundo mental, assim, genérico, fora, sei lá onde — o nosso mundo mental. Você está percebendo o detalhe? Olha só, porque é sutil mesmo. Eu às vezes me perco e demoro para retomar esse fio. Olha só — não é à toa que o conhecimento logosófico e a estrutura do método logosófico, eles convergem. Ou vamos dizer assim, têm como sua principal convergência a descoberta primeiro, e então o — vamos dizer assim — o treinamento, ou o tomar posse, digo, por cada um de nós, dessa realidade que é um. A realidade que às vezes a gente nem sabia que existia, né — que era a possibilidade de desenvolver a própria mente como um instrumento de independência. E de finalmente poder olhar para um mundo que convulsiona em muitos sentidos, e ter esperança que se a gente pode individualmente tomar posse desse mundo próprio, desse mundo interno, a gente pode em conjunto reverter essa situação, esse caos que impera na humanidade em geral. Vale a pena, claro. E eu me senti muito inspirado pela conferência seguinte, já que a gente se move no livro "Introdução ao Conhecimento Logosófico". E a conferência seguinte — até porque na época que ela foi proferida por González Pecotche, que foi em fevereiro de 1941 — ela meio que faz a gente voltar no tempo e olhar para hoje e falar assim: não acredito, a gente está vivendo algo muito parecido, né. A conferência se chama — tem o título, né — "O Quadro Mental e Psicológico que o Mundo Apresenta." Vale a pena a leitura e vale a pena se deter, porque vão vir reflexões muito úteis para a gente entender e pensar sobre qual é a nossa colocação hoje, frente à realidade do mundo cada vez mais complicado que nos cerca. Mas eu sigo com o otimismo pé no chão, de que a gente está à frente, ou de frente para um conhecimento que nos permite não só nos colocar de uma forma única, mas especialmente de agir em prol do bem em geral também. Boa leitura, boas reflexões, fique bem e até o próximo podcast.