Latest / Logosofia no Dia a Dia / Qual É a Corda Invisível Que Você Não Consegue Ver? (E Por Que Você Acredita Que É Livre)
Transcript
- Oi, é o Ronny, tudo bem? Eu estava pensando aqui sobre o problema do elefante, e como a gente se acha muito melhor que o elefante em questão. Já vou contar a historinha. Como a gente se acha muito melhor que o elefante em questão, a gente tende a acreditar que não é o caso com a gente. Eu já me referi a essa... É uma metáfora, mas é uma realidade, ou era uma realidade no passado. Muitas vezes se treinava elefantes que eram usados para cativeiro — não sei só os de circo, mas aqueles que eram utilizados antigamente na Ásia para carga, para transporte. Que era o caso há muito tempo atrás. Como é que eles eram treinados a não fugir e ficarem sob o julgo dos humanos? Quando bebês recém-nascidos, ou logo depois, se prendia uma corda na pata do elefantinho e se prendia a uma árvore. E ele tentava, obviamente, por um tempo X, tentava muito se desprender e fugir. Mas claro que, como pequeno, a capacidade dele de fazer frente à corda e à árvore era praticamente nula. E depois de um tempo tentando, dias e dias, ele simplesmente desistia. Ele aceitava o destino dele. Ele simplesmente se rendia àquela corda que estava presa a uma árvore e parava de resistir, parava de tentar fugir. A partir desse momento, os elefantes iam crescendo, mas não iam mais sendo mantidos numa corda presa a um tronco grande. Uma corda era mantida na pata deles, presa a um pedaço de madeira no chão. Qualquer pedaço de madeira no chão. Qual o problema? Porque isso é quase impossível de acreditar. O problema é que o elefante já tinha desistido de tentar vencer a corda. Então já não importava mais se a corda estava amarrada num grande tronco duro e forte ou num pedaço de madeira fincado no chão. Para ele, a corda era simplesmente invencível. Bom, por mais triste que a história seja, o caso é que é muito mais triste quando isso se refere à vida humana. E eu estava lembrando dessa metáfora porque... Embora eu já não esteja tão gordinho, mas eu vivi como elefante muitas vezes na minha vida e durante muito tempo. E ainda vivo em parte como elefantinho e como elefante adulto, nesse caso. A gente passa a viver a vida tendo sido... Vamos dizer assim. A gente passa a viver a vida tendo sido alimentado por uma série de conceitos. Isso, para nós, é claro. Conceitos que a gente aprendeu desde pequeno. Começa aprendendo de pequeno. Todos eles, em geral, muito úteis. Vamos dizer assim que em geral. Aqueles que a gente recebe dos pais, dos educadores, dos adultos que são responsáveis, que a gente convive. Muito úteis, em geral. Por quê? Porque são conceitos que vão nos proteger, vão nos encaminhar para entender o mundo, pelo menos o mundo físico, o mundo que a gente vive aqui, terreno, da melhor forma possível. Então a gente vai evitar, com esses conceitos, correr em erros básicos, do tipo atravessar a rua — tem que olhar para os dois lados, na faixa de pedestres, preferencialmente. Outros conceitos que a gente deve respeitar os mais velhos e que a gente deve respeitar as pessoas, em geral, também. Estou lembrando de alguns, mas assim, são coisas que a gente vai aprendendo simples, bem simples, mas que vão sendo úteis durante esse desenvolvimento da mente até que a mente possa ter condições de começar a ensinar a si mesma, começar a perceber, no ambiente que nos cerca, aquilo que deve ser compreendido. Mas junto com esses conceitos, a gente também recebe outros. Ou seja, vários outros pensamentos tomam contato direto com a nossa mente e muitos deles acabam adentrando a mente e a gente os recebe, às vezes, sem se perceber. Mas são conceitos que, de alguma maneira, vão distorcendo a realidade da vida porque são conceitos que são limitados pela concepção que os guiou, que os criou. Então, por exemplo, a gente acredita que a vida... A gente nasce, depois começa a se desenvolver e como a gente vai conhecendo a vida física, material, terrena, cada dia um pouco mais, a gente acredita que quando chega à idade juvenil, a gente entendeu a vida. Ou seja, a gente entendeu a vida ou a vida terrena em boa parte, nesse momento. Obviamente não nos detalhes das experiências que a gente vai viver — que essas são todas surpreendentes — mas que a gente entendeu como é o funcionamento da vida. Mas junto com essa compreensão, vem a limitação de que a gente entendeu apenas a parte visível da vida. Você percebe que isso é uma sutileza que mesmo para a gente hoje é algo difícil de perceber? Qual é a distância dessas duas coisas. Porque a gente continua vendo a vida até hoje em proporções que cada um pode dizer qual é a sua, mas a gente continua vendo a vida hoje como se fosse algo físico. A gente continua olhando para a nossa vida e considerando, medindo os acontecimentos da vida, medindo tudo, medindo a felicidade, medindo as conquistas, medindo a paz, ou a falta de paz, a falta de felicidade, de acordo com os acontecimentos físicos, externos, os acontecimentos terrenos. A gente tem pouca condição sozinhos. E se você for exceção a isso, não se preocupe, não se sinta, de alguma maneira, que eu estou diminuindo a sua capacidade. Eu estou dizendo o seguinte: em geral, eu, Ronny, e os demais seres humanos, somos mais limitados no quesito capacidade de perceber a vida de outra forma que não a forma física, externa à vida. Mas, de novo, a felicidade, a paz, que a gente condicionou aos acontecimentos da vida, estão longe de estarem, ou de serem originados, ou de serem causados por esses acontecimentos. E isso, se você me acompanha já há algum tempo, você vê que é um tema recorrente nas minhas reflexões e constatações. Por quê? Porque, de fato, eu vivo olhando para a minha vida. Eu vivo olhando para a minha vida — é quase literalmente falando isso. Eu passo a minha vida olhando para mim mesmo, e olhando para as experiências que eu estou vivendo, e eu fico me perguntando: de onde vem a felicidade? De onde vem a falta de felicidade, ou a falta de paz, que muitas vezes eu quis e quero sentir dentro de mim, e às vezes não encontro? Elas, de fato, são oriundas, são originais das experiências e fatos que estão passando pela minha vida nesse instante? A primeira resposta é que sim. Que, poxa, o Ronny, poxa, tadinho de você, você não está encontrando aquela paz, ou às vezes aquela tranquilidade que você quer internamente, porque, poxa, você está nesse momento vivendo a experiência X lá, difícil, que exige muito de você e que está dura, que não saiu ainda de acordo com o que você queria. Pois é. Essa é uma visão que eu tive sobre mim mesmo e sobre a vida muito limitada. Exatamente porque, assim, é como se eu tivesse aprendido apenas que a felicidade, a paz, a serenidade interna são oriundas, ou são consequências das coisas que acontecem fora de mim. Isso é exatamente a corda que colocaram na nossa perna conforme a gente foi crescendo. Quando a gente começou a dar os primeiros passinhos, que a gente finalmente parou de engatinhar e começou a dar os passinhos em duas pernas, meio cambaleante, e de vez em quando com um tombo ou outro, bem instrutivos para o equilíbrio, a gente começou então a perceber e observar o mundo bem devagarzinho, nas primeiras idades. Mas depois a gente começou a observar, perceber, a gente começou a ouvir, a aprender e absorver tudo que ia sendo ensinado para a gente. Mas o problema é que a cultura que a gente vive, o estado atual de desenvolvimento metafísico da humanidade é tão limitado por esse aspecto externo — de ver a vida apenas para fora — que a gente foi amarrado, igualmente amarrados a um tronco durante todo o desenvolvimento da vida até a idade juvenil. A gente ficou amarrado nesse tronco de uma visão extremamente limitada, materialista, externa sobre a vida e a gente aceitou que a vida é o que acontece com a gente fora de nós mesmos. Eu fiz uma afirmação dura, né? Você fala: "Porra, Ronny, você foi dura, hein? Você foi nessa, você... o que o pessoal fala no futebol, foi na canela". Veja, eu estou sendo duro comigo mesmo, não é com você. Eu estou te dizendo o seguinte: eu aceitei, sem saber que eu aceitava, eu aceitei uma concepção extremamente limitada sobre a vida em que me dizia, ou que resume-se a entender a vida de acordo com os fatos externos a mim que ocorrem comigo. E, obviamente, que ao entender a vida assim, eu deleguei, sem saber, totalmente inconsciente — veja, estou falando assim, se eu soubesse disso, eu não tinha feito, né? — mas acontece comigo, como eu acho que acontece com a grande parte da humanidade. A gente delegou a vida aos acontecimentos externos. Olha que surreal que é pensar sobre isso. Pensa nessa frase: a gente delegou a vida aos acontecimentos externos. É tipo assim, a gente estava numa embarcação, que a gente era o capitão, a gente soltou o leme e deixou o barco ao vento e às marés. Aí você fala assim: "Ué, Ronny, mas não faz sentido isso". Veja, o que eu estou dizendo é tão sutil, essa posição diferente, esse engano é tão sutil, que às vezes para mim é difícil recordar que eu ainda me encontro nele em muitos momentos. A gente não vê, no nosso caso, a gente já não vê a corda. Porque se a gente visse a corda, a gente ia falar assim: "Ah, não, mas a gente é muito mais capaz do que o elefante. Coitado do elefante. Veja aqui, é uma corda, eu sei que eu tenho capacidade de rompê-la, porque eu não sou mais um bebê. E esse pedacinho de madeira que está fincado no chão e a corda amarrada, certamente não tem capacidade de me segurar". Veja, se o elefante tivesse essa capacidade, ele adulto, ele ia olhar para a corda, olhar para aquele toquinho de madeira e falar assim: "Pô, vou arrancar isso daqui, vou quebrar essa corda, no mínimo". Mas ele já desistiu há muito tempo. Ainda que ele veja a corda. A gente, eu acho que conosco, acontece uma situação que é um misto das duas coisas. A gente, em geral, não vê a corda. Por quê? Porque essa corda é muito sutil. Essa corda, para nós, é invisível, não é física. Então, a gente realmente se sente com liberdade. A gente cresce e ganha liberdade. Imagina, nossa, quando tirei a carta, então, a habilitação para dirigir carro ou moto — eu tirei as duas juntos na época — nossa, aí eu me senti muito livre. Puxa, quanta liberdade eu tinha. Quando eu comecei a trabalhar com 15 anos e já não prestava muitas contas à minha mãe — porque eu morava com a minha mãe, coitada da minha mãe — eu já não prestava muitas contas a ela. Imagina, me sentia o rapaz mais livre do mundo, fazia o que eu queria. Então, olha qual é o primeiro problema. A imagem ou o conceito de liberdade é um equívoco. Esse que eu narrei que era o meu, né? Se o seu não é assim, está tudo bem. Mas, assim, eu tinha esse conceito de que a liberdade era fazer o que eu queria, quando eu queria, aqui nesse mundo terreno. E só não podia ir para onde eu queria o tempo todo, porque não tinha dinheiro para isso. Mas, assim, se tivesse, aí eu ia afirmar para todos os ventos que eu era 100% livre. Até podia ir para onde quisesse, quando quisesse. Mas esse é um conceito que, obviamente, denota ou nos apresenta essa realidade de que a nossa corda é invisível. A gente acha que a gente é livre, mas o que é de verdade a liberdade? Como é que a gente pode ser livre se a gente está preso, se a nossa felicidade, nossa tranquilidade, nossa paz, nossa alegria do dia a dia está sujeita aos acontecimentos da vida? Então, sim, tem dia que eu estou feliz, tem semana, mês, época, ano, que, ah, está tudo ótimo, está tudo saindo como eu queria, que maravilha, ai, como eu sou feliz. Um ano, cinco, vinte depois, ou um mês depois, ou um dia depois, alguma coisa acontece, alguma coisa muda, e aquela felicidade, aquela alegria parece que se esvaíram e parece que fugiram. Escaparam em nossas mãos, entre os dedos, como se fosse areia quando a gente tenta agarrar aquele monte de areia na praia. Você percebe que essa é uma sutileza que a gente acreditava que a gente era livre e que a gente acreditava que a gente podia ter o destino na própria mão, mas a gente se tornou e se permitiu ficar à mercê dos acontecimentos da vida externos a nós para que eles definissem e definam ainda, muitas vezes, a nossa felicidade, nossa paz e para onde a gente vai, qual o nosso destino. Não é fácil, né? Acho que você está pensando que nem eu. Você está assim: "Puxa, Ronny, que dureza. E agora, o que a gente faz?" Vamos fazer o seguinte. Hoje, nesse podcast, eu penso que o mais importante é essa reflexão. E se eu puder sugerir para você, assim: puxa, é hora de se deter profundamente sobre isso, sabe? Quais são as fibras dessa corda invisível que nos mantém atados e presos sem que a gente perceba, sem que a gente se dê conta? Próximo podcast, vamos continuar esse mergulho e vamos entender o que que... como é que a gente inverte essa situação, como é que a gente vai finalmente poder cortar essa limitação e se livrar desse... dessa limitação, dessa escravidão, a corda. Bom, só para constar, eu estou na conferência, na próxima conferência já do livro, que é a Policromia Psicológica. Boas reflexões, boa leitura. Fique bem e até o próximo podcast.