Latest / Logosofia no Dia a Dia / O Tecido do Tempo Se Desenrola — A Jornada Consciente Dentro de Si Mesmo
Transcript
- Oi, é o Ronny, tudo bem? Eu queria começar te falando hoje sobre o bolo de chocolate da mamãe. Mamãe faz um bolo de chocolate que é um negócio... Preciso te falar, é um negócio surreal. Isso é uma receita, você tem ideia? É uma receita que a gente pegou — porque eu pedi pra ela conseguir — de um amiguinho do pré, do meu pré, imagina, meu pré-primário. De um aniversário, que eu gostei tanto do bolo de chocolate, mas tanto, tanto, tanto, que eu fiz minha mãe pedir pra mãe do meu amiguinho a receita do bolo. E desde então, mamãe reproduz essa receita, que já virou, obviamente, o bolo da minha mãe, pra geração que veio depois, né? E faz, certamente, quase 50 anos que eu como esse bolo. Mas o bolo da mamãe, ela deixa — você não vai acreditar — mas ela assa por 3 horas em fogo muito baixo. É estranho, parece que vai, né, o que precisa assar, que bolo que assa 3 horas, né? Isso não é feijoada, né? Mas é um bolo, uma receita, que vai algumas coisas diferentes. E essa, assar isso por 3 horas em fogo bem baixo, cumpre exatamente — e eu sei lá porque, não entendo — mas cumpre exatamente o processo que essa receita precisa pro bolo ficar surreal. Então, assim, o dia que você estiver comigo, você me lembra, por favor, né? O dia que você me conhecer, o dia que a gente se encontrar, você pergunta: Ronny, tem bolo? Sobrou alguma coisa aí do último bolo? Porque é a oportunidade de uma vida, sério. Mas olha que interessante, o processo do bolo, né, esse processo de esperar 3 horas. Ela não, obviamente, depois que ela coloca no forno, ela não fica vigiando. A mãe já sabe que são quase 3 horas, ela vai vigiar quando dá 2 horas e meia. Aí ela abre, aí ela bota lá o palitinho, né, pra ver como é que tá, porque o bolo fica alto, né? E é um bolo que fica bem úmido, assim, nossa, agora em jejum, nessa hora da manhã, falar desse bolo e olhar pra ele aqui na mesa, aqui da sala, me dá uma agonia. Porque foi meu aniversário no sábado passado, agora dia 25 de abril. Amanhã a gente vai comemorar, fazer um churrasquinho aqui e tal, aqui no quiosque do condomínio. E aí a mamãe fez o bolo. Eu tava vendo ela fazer o bolo ontem, e pensando sobre isso, né, de assim, puxa, demora 3 horas, né? Em geral, aquele bolo, se fizer um bolo de caixinha, acho que é 20 minutos no forno pré-aquecido, né? Poxa, o bolo de caixinha é tão mais fácil. Mas há uma realidade que a gente precisa se dar conta, na vida, de que tudo tem um processo. Essa eu acho que é das coisas mais difíceis, das lições mais difíceis que eu tô aprendendo: é que tudo na vida é um processo. Ou tudo é processo. Agora, o ponto — e o que é difícil de entender — porque a gente entende isso, né, que cada coisa tem o seu tempo e tal, mas é difícil de entender que tudo é um processo, porque a gente cresce e se dá conta e vive no mundo em que, em geral, as coisas estão disponíveis, prontas. Tirando cozinhar, tirando esperar um prédio ser construído. Mas enquanto o prédio tá sendo construído, se você vai morar naquele prédio, você tá morando em outro lugar, porque tem um monte de casa e um monte de prédio já construído. Se você tá, sei lá, se alguém tá costurando uma roupa pra você, você tem um monte de roupa pronta na loja pra comprar, e você tem um monte de roupa no seu guarda-roupa. Se você tá cozinhando, você tá cozinhando porque você quer fazer alguma coisa, mas tem outras comidas na sua geladeira, na sua casa, que estão prontas. Ninguém morre de fome porque tá cozinhando, porque não tem o que comer. A gente tá acostumado a ter à disposição as coisas prontas. E, em geral, acho que uma das causas da nossa impaciência quanto às coisas do dia a dia é exatamente por causa disso. Há um descasamento entre aquilo que a gente tá acostumado e cada vez a gente quer coisas mais prontas e mais práticas até da vida, né? Porque a vida é corrida, sim. Ninguém tem tempo de ficar todo dia cozinhando duas horas no dia a dia de semana, pelo menos quem trabalha. Você quer uma coisa que já esteja pronta, você quer uma coisa que possa esquentar, sei lá, quer comer fora, quer comer na rua porque é mais fácil, mais rápido. Mas a gente não se dá conta que, assim — e acho que por conta disso, né — essas coisas da vida, a gente tá acostumado e a gente tá mais impaciente com tudo. Ainda mais com a internet, né? Tudo ficou mais disponível. Eu falo com quem eu quiser no mundo, na hora que eu quiser, vejo a pessoa de vídeo, mando uma mensagem, faço uma compra, recebo no dia seguinte. Você percebe que a gente tá vivendo num mundo que tem dito pra gente — ou não é que tem dito, que tem nos acostumado — a consumir coisas de forma mais imediata. E a gente meio que se tornou um pouco impaciente. Acho que naturalmente por essa evolução física, né, por essa evolução tecnológica, pelo ritmo do dia a dia, a nossa cultura atual nos tornou um tanto impacientes com qualquer processo que demande um tempo de maturação maior. Bom, pelo menos eu observo isso em mim, né? Eu fui meio que me acostumando às coisas rápidas, a resultados rápidos, a ter aquilo que eu queria, né? Comprar o que quer, se precisar sai, vai na loja e compra, né? Muito bem. Qual o problema dessa visão ou dessa compreensão? Vamos dizer que a gente compreende o mundo que a gente vive de uma forma mais imediatista, né? A gente compreende o mundo que a gente atua todo dia com um pouco de sensação de pressa, de impaciência. Não é à toa que, ainda mais quem vive em cidades com trânsito, fica mais impaciente ainda, né? Porque é praticamente impossível você ir para algum lugar de forma rápida em São Paulo, por exemplo, não importa que... A menos que seja bem final de noite, você consegue, né? Mesmo final de semana depende do dia. Sábado então é insuportável na hora do almoço em São Paulo. Mas estou dizendo isso para dizer o quê? A gente vive num mundo em que a gente está acostumado com o ritmo e com processos muito rápidos, em geral. Mas a gente se depara, pelo menos, com processos internos que têm outros tempos. Processos de experiências da própria vida — que não essas de consumo das coisas — que também demandam outro tempo para maturar. Experiências da nossa vida que demandam muito tempo, muitas vezes, para culminar. E como é que a gente se coloca frente a essas experiências da vida? Como é que a gente se coloca frente ao próprio processo? Olha que interessante, a nossa vida é em si um grande processo. Você concorda? A gente vive cada vez mais, né? Inclusive com os avanços que estão vindo nesses próximos anos agora — dois, três anos, cinco, no máximo — com a inteligência artificial. Está se revolucionando a pesquisa científica. O que vai vir de mudança para a longevidade da vida humana, da saúde, vai ser um negócio surreal. A gente vai viver cada vez mais. Então a gente passa décadas e décadas e décadas. Por um lado, correndo atrás dessas coisas materiais, físicas, e fazendo essas rotinas da vida. Que quanto mais você fica nelas, mais vai ficando claro que elas são uma repetição, né? É uma repetição de rotinas, de afazeres, de necessidades, de a gente ir em busca de cumprir. É difícil, eu não consigo, às vezes, definir o que é que a gente fica perseguindo. O que a gente tanto persegue durante anos, durante décadas? Eu acho que a gente persegue — a gente fica buscando uma satisfação. A gente fica buscando aonde encontrar satisfação na vida. E a gente tem a impressão que vai encontrar satisfação conforme a gente vai conquistando uma série de coisas, do ponto de vista material. Mas a satisfação de verdade não chega. Eu acho que até pior: conforme a gente vai alcançando condições mais tranquilas, do ponto de vista material, os apuros maiores vão passando. Embora, como eu bem sei, depois, no outro momento da vida, eles podem voltar, por várias decisões. Mas eu acho que, conforme vai passando o tempo, a gente vai, de alguma maneira, conquistando o básico e depois uma condição um pouco melhor. Vai ficando mais agudo esse buraco, esse vazio interno, que, obviamente, nunca será preenchido com nada material, com nenhuma condição terrena, óbvio. Então a própria vida é um processo. Só que a gente tem conduzido como esse processo. Ou seja, a gente compreendeu o processo da vida? A gente compreendeu o processo dessa existência nossa terrena aqui? Vamos pensar que essa existência — o tempo que a gente existe aqui na Terra, quando a gente nasce, até o dia que o veículo vence, vence, que eu digo, dá validade, chega na data de validade do veículo. Todo veículo tem data de validade, toda coisa material quase tem data de validade. Um dia quebra, um dia não serve mais. Natural, normal. E desse processo, dessa existência física, nos primeiros 15 anos, praticamente, a gente não tem noção de nada. E tem muita gente que segue sem noção por muito tempo ainda depois, infelizmente. Mas vamos pensar que, nos primeiros 15 anos, a gente não tem muita noção. Os 10 seguintes, é mais ou menos noção. Quando a gente acha que já entendeu a vida, mas, na verdade, ainda somos jovens inexperientes. Embora, no meu caso, era bem arrogante. Achando que já conhecia a vida, já entendia a vida. Eu errei muito, né? Por conta dessa crença demasiada em mim mesmo, na minha capacidade. Eu era muito ingênuo, mas achava que era muito bom. Mas, enfim, então, se a vida é um processo de décadas, podem ser 10 décadas. A minha geração vai viver 10 décadas por conta desses avanços todos. E, obviamente, cuidando da saúde. Mas o problema é o seguinte: se a vida é um processo, então, se essa existência é um processo em si, por quê? Porque é um andar no tecido do tempo. O tecido do tempo se desenrola embaixo de nossos pés. Eu adoro pensar no tempo como esse tecido que vai se desenrolando, sabe? Não é bem isso, mas imagina essas esteiras de andar na academia, no prédio, né? Esteiras de caminhar, de correr. Meio que assim, é como se tivesse um rolo na frente infinito, né? Porque vai andando, vai passando, o chão vai passando. Mais ou menos a imagem que eu tenho do tempo é que ele é um grande tecido cósmico, assim, que vai se desenrolando e ele não cessa nunca, é infinito. Então, ele vai passando embaixo da gente, né? A gente vai dando os passos, a gente vai levantando o pé, igual a esteira mesmo. Se a vida, se a existência, esse período nosso aqui na Terra, é um processo, ou deveria ser um processo, deveria ser um processo do quê? Como é que a gente passa uma existência toda terrena em que a gente não entende — e não, pior, não mergulhou, não se dedicou — a entender que processo é esse que a gente deveria estar cumprindo, realizando nesse período? Claro, você pode me perguntar: Ronny, e se não tiver propósito nenhum? Bom, veja, eu já fui um cético também, em relação a que, assim, tanto faz, tanto fez, quem sabe não tem nada para fazer mesmo e só vive essa vida de qualquer jeito. O fato — e acho que esse é um fato muito particular de cada um de nós — é assim: está à disposição de cada um de nós a possibilidade de fazer observações muito pertinentes sobre isso. Veja, não sou eu, muito menos eu, mas não é outro ser humano que vai nos convencer de que existe um propósito, de que a vida, essa existência terrena é um processo, que a gente deveria ter consciência de que processo é, ou seja, a gente deveria saber o que fazer durante cada um desses anos, meses, dias, horas. Então, assim, não sou eu que vou dizer isso. Eu não tenho capacidade para convencer, muito menos não tenho intenção de convencer ninguém sobre a vida ser um processo. Mas o que eu estou dizendo é o seguinte: a quantidade de elementos à disposição de cada um de nós que está vivendo esse processo, a quantidade de elementos que estão disponíveis para a nossa observação, capturar e o nosso entendimento perceber que a vida é um processo são inúmeros. Veja, como é que a gente, se a gente não percebeu ainda por tudo que cada um de nós já viveu e vive e segue vivendo, de experiências — veja, experiências de todos os tipos. Algumas muito felizes que culminam e ficam presentes em nossa mente, em nosso coração como experiências muito felizes. Especialmente os vínculos com os demais seres humanos que o tempo geralmente não apaga, a distância física não apaga, ou a ausência física também não apaga. Então esses já são elementos muito ricos que a gente deveria estar observando e percebendo que dizem muito sobre esse processo. E tem as experiências difíceis. Tem um monte, no meu caso tem um monte. Uma, duas, três. As experiências difíceis que igualmente são instrutivas. E esse é um ponto interessante. E a gente, obviamente, por uma concepção até de que a felicidade seria não ter problemas na vida — e isso é um engano, já percebi — mas a gente acha então que as experiências difíceis são ruins, são problemáticas. Sim, muitas dessas causam sofrimento, mas causam sofrimento exatamente porque eu não tinha percebido que elas também fazem parte do processo. Entendeu? Você entendeu a sutileza que é isso? Eu achava que as experiências difíceis eram um problema, tipo assim, sabe assim, uma falha na estrutura, uma falha, sabe quando está num programa ou num aplicativo e dá um erro? Você fala assim: tem um problema, tem um bug que a gente chama, né? Tem um erro aqui no aplicativo, nesse negócio. Eu achava que os problemas da vida eram tipo bugs, né? Problemas de que deu errado o negócio. Hoje — e observando todos os problemas que passaram e passam na minha vida — hoje está claríssimo que todos eles também são parte desse processo. Então, assim, no mínimo, a gente tem a possibilidade de olhar a vida e observar todos esses elementos, né? Esses que trazem alegria, esses que trazem apreensão, os que nos preocupam, os que nos alegram, os sustos, as boas surpresas, tudo, né? Que tudo isso, obviamente, está interligado. E enquanto esse tecido tempo se desenrola à nossa frente e a gente caminha, a gente precisa compreender esse processo e entender que esse processo não está fora de nós em todas essas coisas que estão acontecendo. Que o grande processo da existência humana e da própria vida, do ponto de vista consciente, espiritual, ocorre dentro de cada um de nós. Essa é, para mim, Ronny — só posso falar por mim, né? — é que eu sempre, assim, torço para que para você possa valer alguma coisa dessa, assim, em termos de ser útil essa reflexão, essa percepção minha. Mas, para mim, essa é a grande chave. Ou, vou dizer assim, esse foi o maior achado, a maior descoberta que eu fiz com o conhecimento transcendente, esse conhecimento que a Logosofia oferece: foi compreender, finalmente, perceber e compreender — e eu sigo compreendendo cada vez melhor — que a vida é um processo que ocorre dentro de mim e que se manifesta de muitas formas fora de mim. E que as circunstâncias e fatos que se alternam na vida, essas todas as coisas que acontecem com a gente ao longo do todo, do tempo, são fios que têm — de forma ainda que invisível para os olhos — tem conexão, ou deveriam estar conectados com algo dentro de mim. Nem que sejam conectados a ponto de me mostrar partes de mim que precisam ser superadas. Formas de me colocar na vida perante as experiências que eu preciso superar, formas de me colocar perante vários fatos e circunstâncias que se apresentam. Não é à toa que, nessa conferência que a gente está tratando — que é sobre uma atitude consciente na atividade da inteligência, nas atividades da inteligência — é porque, finalmente, ao longo de, depois de décadas da minha vida, eu demorei algumas décadas para me dar conta de que o grande processo da vida e como todo processo demanda, cada um desses sub-processos demanda seu tempo de maturação. Precisa dos elementos que precisam ser buscados, precisam ser conquistados, precisam ser compreendidos. Que tudo isso se apresenta e se — vamos dizer assim — tudo isso acontece e ocorre de forma cada vez melhor quando a gente começa a ter consciência dessa atividade nesse mecanismo maravilhoso que é a própria mente e a inteligência humana. Tem tanta coisa para a gente ver, né? Tem tanta coisa para a gente compreender ainda, tanta coisa para a gente perceber sobre esse processo que ocorre dentro de nós. Sobre esse mundo, esse universo que cada um de nós tem dentro de si. E quanto mais cedo a gente começar a tomar posse e estar à frente desse processo, conduzi-lo com consciência, mais rápido a gente vai se desprendendo dessas correntes, desse lastro que ainda nos impede ou atrapalha muito nossa ascensão como seres conscientes no universo. Boa leitura, boas reflexões, fique bem e até o próximo podcast.