Latest / Logosofia no Dia a Dia / A Vida Não é Voo de Cruzeiro: Como Aplicar Conhecimento nas Turbulências do Dia a Dia
Transcript
- Oi, é o Ronny, tudo bem? Eu tava pensando numa cena aqui, imaginando, né, claro. E eu vou colocar pra você essa cena. Imagina que a gente vai fazer embarque de avião. A gente vai embarcar num avião pra fazer alguma viagem. Pode ser curta, pode ser longa, pode ser aquela que você espera muito tempo fazer ou pode ser uma viagem que precisa fazer pra um assunto mais comum no trabalho, o que seja. A gente embarca, né, aquele procedimento todo, portão de embarque e tal. Quando a gente vai sentando, depois que já tá basicamente todo mundo sentado, ou quase todo mundo, o comandante geralmente pega o microfone e dá as boas-vindas, né, e se apresenta, o nome, tudo, e confirma destino e tal, e qual o tempo esperado de voo, não sei o quê. Você imagina que na hora que ele fala isso, a gente ouve a seguinte narrativa: "Olha, então, eu sou o comandante fulano de tal. Eu queria dizer pra vocês que eu decorei todos os manuais da Boeing, da fabricante dessa aeronave aqui, a gente tá voando uma aeronave da Boeing, e eu sei de cor tudo sobre qualquer coisa dessa aeronave. Mas eu nunca voei antes. Mas eu estou plenamente fardado, com uniforme de comandante, e na teoria eu sei 100% sobre esse avião e sobre voar." Bom, se a gente ouvisse isso, o que a gente ia fazer? Você ficaria nesse avião? Claro que não, né? Se a gente ouvisse um absurdo desse, que só realmente na imaginação dá pra pensar algo assim, a gente ia se levantar, correndo provavelmente, e ia ser aquela correria pra todo mundo sair fugido morrendo de medo, porque ninguém iria confiar num piloto que sabe 100% da teoria sobre o avião e sobre como é que se voa, mas nunca voou um avião antes na vida. Faz sentido isso, não faz? Tá bom. É um absurdo, né? Você achou, Ronny, absurdo o que você falou? Tá bom. É um absurdo, claro, mas você concorda comigo que faz 100% de lógica, né, que a gente não pudesse confiar numa pessoa assim, tá bom. E se eu te disser que eu, e talvez uma boa parte da humanidade, a gente tenha vivido a vida, ou, vamos dizer, pilotado a vida como grandes teóricos apenas? Tá bom. Então, vou dizer o seguinte: a Logosofia não é mais um conhecimento. Eu já, de vez em quando eu lembro sobre isso, eu reafirmo sobre isso, e tem um ponto que é fundamental nessa reflexão. A vida é uma exploração de um modo, ou de outro modo ela é também um constante ir e vir, e passar, e sobrevoar — vou usar essa analogia do piloto — sobrevoar e passar por uma série de experiências que, em geral, não são apenas céu azul. Em geral, não são apenas aquele dia tranquilo pra voar. Voar de manhã com céu azul limpo é maravilhoso. À tarde, não necessariamente, tá? Porque tem correntes de vento ascendentes, de ar ascendentes, por conta do calor produzido, que às vezes causa um pouco de turbulência. Mas de manhã é sempre muito tranquilo. Mas a vida não é um voo de manhã num dia de céu azul. Se fosse só isso, talvez a vida fosse fácil, né? Se a gente não tivesse que enfrentar, todo dia, primeiro, os próprios pensamentos que cada um de nós tem. Segundo, o pensamento dos outros. Os pensamentos dos outros, né, no convívio humano. E terceiro, talvez mais importante, ou mais determinante ainda, são as circunstâncias e fatos e experiências que a própria vida apresenta. Então, se a gente pensar que a vida é uma viagem, de certo modo é, uma viagem constante, né, de um ponto ao outro, ou pelo menos um voo, né, um deslocamento de um ponto ao outro. Constantemente a gente está se deslocando. E cada dia é como se fosse um trecho diferente, um trecho a mais. A gente faz uma escala. Todo dia a gente faz uma escala. A gente pousa. Aí dorme. Dia seguinte a gente decola de novo para mais uma jornada, até pousar antes de dormir. O ponto é que essa jornada diária, ela apresenta uma série de dificuldades e desafios que a gente, muitas vezes, não só não gostaria de viver, mas que o que fica super claro e ressalta para a minha observação é que são dificuldades ou são situações, circunstâncias e fatos que colocam à prova — não se eu sei a teoria sobre o voo e não se eu sei a teoria sobre a vida, mas colocam à prova se eu consigo me colocar frente a essas situações. Voltando à analogia do voo, e por que eu estou usando a analogia do voo? Porque eu adoro avião e essas coisas todas. Inclusive, eu não tenho licença de piloto privado, mas eu fiz o curso há uns 20 anos atrás e fiz horas de voo em avião de verdade na escola de aviação. Eu não cheguei até o final, tive que parar por outras razões, não completei, mas eu tenho um pouco de experiência nessa parte de aluno para piloto de avião. E por que eu estou dizendo isso? Porque acho que a analogia é muito própria, porque o grande foco do treino prático de pilotar um avião não é na teoria, obviamente, é nas situações diferentes ou nas situações que saem do comum — não vou dizer só em emergência, mas em toda e qualquer situação que exige que a teoria que se aprendeu, que se saiba sobre o avião e sobre o próprio voo em si, ela seja colocada à prova quando a situação não é ideal. Porque situação ideal é simples, né? A gente segura o manche, a potência está lá estabelecida e segue no voo de cruzeiro. O problema não é o voo de cruzeiro, o problema são os pousos, decolagens e toda e qualquer anomalia, toda e qualquer situação que naquele momento se apresente quando a gente está em um avião. Na vida é a mesma coisa, né? Se o problema, se a situação normal da vida fosse tudo bem — a gente chama de CAVOK, né, céu azul, visibilidade OK — assim, esse voo tranquilo, sem nenhum problema, com tudo do bom e do melhor, a vida ia ser fácil. Mas o problema é que todo dia, ou se não é todo dia, mas a cada momento desse voo normal nosso surgem essas situações em que, assim: como é que eu me coloco frente a isso? Como é que eu me coloco internamente frente a isso que está acontecendo agora? Como é que eu me coloco nessa experiência? Como é que eu faço uma opção sobre como é que eu vou viver isso agora? Como é que eu saio dessa turbulência? Como é que eu evito essa tempestade que está se aproximando aqui? Ou como é que eu sigo voando de forma segura quando a situação se torna muito, muito caótica? Ou seja, a gente confiaria e confia num piloto de avião quando a gente é passageiro de verdade? Porque a gente sabe que o piloto de avião não só conhece muito bem a teoria de voo e sobre a aeronave que ele está pilotando, mas a gente sabe que ele passou por um processo de cheque, que a gente chama, que é um processo de avaliação em voo. Então, ele comprovou muitas horas voadas, muitas horas voadas, especialmente quando é comandante de aeronave comercial, e ele passou por todas as provas. E, em especial, esse foco em situações anormais, em procedimentos de emergência, enfim, todas essas possibilidades que têm, estão previstas hoje nos manuais dos aviões, de operação das aeronaves. Muito bem. Então, todo mundo fique tranquilo em relação a isso. Não quero deixar ninguém preocupado com o próximo voo que tiver. Pelo contrário, né? A cada década, tudo isso é muito mais seguro. Mas, voltando ao ponto da vida, seria muito bom se cada um de nós pudesse olhar para a vida e pensar que o que a gente precisa não é a teoria. E, numa época que a gente está vivendo, assim, de muita informação, né, acho que a internet abriu essa possibilidade, mas deu essa impressão falsa, eu acho, tenho a sensação, deu a impressão falsa de que a gente tem muito conhecimento, sabe? Por quê? Porque a informação está disponível. Não só a informação, né, numa época de muitos influencers, pessoal que está vendendo aí soluções ou se apresentando como gurus, a gente busca, muitas vezes, uma frase, uma solução, uma… não sei, uma… alguma coisa rápida, né? Alguma poção mágica, alguma varinha mágica que resolva os problemas da vida. Mas a gente pode até ouvir muito sobre algum tema, e por isso que eu sempre faço essa referência aqui de que, assim, não adianta a gente só ouvir sobre algum conhecimento, não adianta a gente só ler um ensinamento logosófico, por exemplo, decorar um ensinamento logosófico. Falaram: ah, Ronny, então, se eu decorar um ensinamento logosófico, eu estou extremamente preparado para pilotar o avião? Veja, a teoria nos prepara para qualquer coisa. E se a gente está falando da vida, sim, o conhecimento transcendente, a teoria sobre o conhecimento transcendente, claro que nos prepara de forma espetacular para viver a vida com suas várias situações, com esse mundo interno que a gente tem. E vai, obviamente, esclarecendo muito sobre tudo isso, assim, de partida, né, logo de início. Mas a grande avaliação, que nem o piloto tem que passar, né, lá com um examinador, se dá em como é que cada um de nós utiliza o conhecimento teórico, que vai, né, a compreensão que vai alcançando sobre a vida, sobre a existência, sobre esse mundo mental, como é que a gente utiliza isso quando, no dia a dia, a situação não é o voo de céu limpo e tranquilo, o voo de cruzeiro. De novo, se a vida fosse só voo de cruzeiro em céu tranquilo, ninguém precisaria se preocupar com conhecimento nenhum. Mas a vida é um constante, uma constante mudança de condições. Constante, constante o tempo todo. E que bom que seja assim. Eu fico imaginando como eu seria encostado, sabe? A propensão que eu acho que ainda é uma realidade em mim, a propensão a me acomodar, sabe? Uma propensão a realmente ficar onde eu estou, a não fazer esforço. É uma propensão, quer dizer, eu acho que, em geral, as pessoas estão propensas a isso. Eu estou. Então, ainda bem que o dia a dia não é um voo de cruzeiro na vida. Porque, senão, o risco é eu ficar contente com o que eu já sabia, com o conhecimento que eu tinha, que era muito pouco. Mas não. Então, eu estou falando e estou me referindo nessa reflexão ao próximo tópico do livro Exegese Logosófica, que é o tópico que gerou essas reflexões, porque exatamente essa é a mensagem que eu entendi. O tópico tem o título de "Inconveniências da Teorização em Logosofia". Porque, como tudo na vida, a gente precisa buscar conhecimento que defina uma nova forma de viver, experimentar e sentir a vida. E a gente não quer se ilustrar. A gente não quer decorar o manual e colocar uma farda bonita, porque a gente pode até comprar um uniforme de comandante. E muita gente acha que compra um uniforme de comandante e, no final, vive a vida com esse ar de que eu sei tudo, teoricamente. Decorei todos os manuais e documentos. Mas, quando tem a primeira turbulência, não sabe se colocar. Ou vai viver essas turbulências com muito sofrimento. Eu vivi muitas situações na minha vida, experiências, que eu sofri muito, porque eu não tinha ideia em como é que eu saía daquela situação ou como é que eu ia seguir vivendo naquela situação até que ela se modificasse. Então, parece que a chave desse tópico está exatamente em compreender o que a gente está buscando. A gente, certamente, não está buscando ser grandes teóricos sobre conhecimento transcendente, porque isso não tem valor. Parece que tem valor, mas não tem valor, porque a gente acaba até falando bonito, mas a vida acaba se tornando algo muito diferente do que aquela teoria indica. Se ficar uma desconexão grande entre como é que é a vida e a teoria que a gente tem, isso é bonito na mesa de conversa só. Ou é feio, porque a pessoa me ouve falando, se eu falar teoricamente, mas vai olhar para a minha vida, como é que eu vivo as experiências, e vai falar: mas você não vive a vida assim? Você não passa pelas experiências dessa forma? Por que você está falando isso? Mas, claro, a questão não é o que os outros vão pensar. A questão é o que a gente vai fazer com conhecimento transcendente. A gente devia adotar isso para a vida, com qualquer conhecimento. E assim, qualquer conhecimento teórico é a base da compreensão sobre alguma coisa. Mas, geralmente, a gente precisa provar — e por isso que tem as provas, desde na escola, depois vestibular e muitas outras — a gente tem que provar que a gente sabe aplicar na prática, nas situações que são apresentadas, aquilo que se aprendeu na teoria. Bom, o ponto é: como é que a gente faz isso de forma efetiva? Como é que se vive, como é que se assimila o conhecimento transcendente sem que a gente se torne apenas um teórico? E esse é o ponto, que esse tópico está esclarecendo, ou pelo menos definindo de forma muito clara. É preciso unir o que se conhece, o que se compreende com as situações, circunstâncias, experiências do dia a dia. Mas, obviamente, sem a compreensão sobre a teoria, não tem como viver e pilotar uma vida com destreza. Voltando lá para as aulas de voo, tudo bem que eu tinha que fazer aula de voo para praticar o que eu sabia, o que eu estava aprendendo na teoria, mas se eu não tivesse aprendido na teoria, eu não tinha nem o que praticar no voo. Então, claro que são interdependentes, mas o que a gente está buscando é uma nova forma de viver a vida, de sentir a vida, de perceber a vida, a começar pela vida interna em cada um de nós, e não uma nova forma de saber sobre a vida. Concorda? A chave ou o segredo é exatamente esse: como é que a gente aplica no dia a dia, na vida, o conhecimento transcendente que a gente vai, ou pelo menos a porção que a gente vai compreendendo desse conhecimento que a Logosofia apresenta. Ah, Ronny, mas você não falou ainda como é que faz. Bom, é para isso que a gente está aqui todo dia. O que a gente está fazendo é isso: a gente está olhando para o conhecimento e tentando entender o que é possível assimilar dele, e especialmente como é que a gente leva isso à prática. Então, acho que vale a reflexão. Hoje, você está ouvindo esse podcast, ou você está lendo a transcrição lá no blog, ou amanhã, a primeira situação que sair, a primeira oportunidade que não for o que a gente esperava que fosse, que estivesse acontecendo, é aquele momento que você fala assim: como é que eu me coloco frente a isso? Seja alguém falando o que eu não queria ouvir, de forma equivocada, ou seja alguém se comportando de uma forma equivocada, pode ser um filho, pode ser um amigo, pode ser um colega de trabalho, pode ser uma situação que surgiu, um problema que surgiu que a gente não previa ou não queria que tivesse surgido, não importa o que seja, a pergunta é: como é que eu experimento isso de forma diferente, de acordo com aquilo que eu já compreendi sobre a vida? E se eu estou compreendendo cada dia um pouquinho mais, porque o ensinamento logosófico tem essa particularidade, entrega essa possibilidade que a gente vai compreendendo sobre a vida interna cada vez um pouquinho mais, é possível viver cada dia um pouquinho mais de acordo com aquilo que a gente compreende. Boa leitura, boas reflexões, fique bem e até o próximo podcast.