Latest / Logosofia no Dia a Dia / Da Escuridão à Luz: A Fronteira que Divide Duas Metades da Vida
Transcript
- Oi é o Ronny, tudo bem? Outro dia eu estava falando da imaginação, né? Vamos usar a imaginação agora de forma produtiva, quando ela não se afasta da realidade. Então, imagina o seguinte... estou achando legal imaginar uma cena, e eu te prometo que não é um filme de horror. Mas imagina assim: passos lentos, hesitantes, num piso de madeira; o som de alguém esbarrando em alguma coisa no escuro. Bom, por muito tempo foi isso. Eu vivi minha vida como se eu tivesse acordado no meio da noite, em um quarto escuro que eu não conhecia. Imagina, é um caos, né? Já passei por isso em hotel, já passei por isso na casa de outra pessoa. É quando você levanta, e eu lembro de sempre me levantar e começar a tatear com as mãos para frente. No final, a gente está tateando o desconhecido. Cada passo é uma aposta, não é um passo firme rumo a algum lugar que você quer chegar. Eu esbarrava na quina de uma mesa, tropeçava no tapete. Até chegar ao lugar que eu queria — geralmente, para ir ao banheiro — era aquele progresso lento, doloroso e reativo. Eu ia ajustando o andar e a trajetória de acordo com os obstáculos que o tato ou o corpo encontravam. Eu só descobria onde eram os obstáculos quando já tinha colidido com eles. Essa imagem é engraçada porque, nas vezes em que essa situação ocorreu na minha vida, eu lembro de ser exatamente assim em cada uma delas. E aí eu fiquei pensando... por que estou pensando nisso? Muitas áreas da minha vida foram vividas assim, sabe? Muitos aspectos da minha vida foram vividos assim. Era como se eu estivesse sempre me movendo num quarto escuro, esbarrando sempre, e o que é pior, nos mesmos móveis. Os mesmos conflitos, os mesmos erros de julgamento, as mesmas reações impensadas, impulsivas. É como se eu tivesse vivido a vida sem nunca entender direito o layout completo do meu próprio mundo interno. É isso. Essa, para mim, é uma imagem super forte. Eu andei e vivi nessa escuridão de um lugar desconhecido durante muito tempo. Agora, eu lembro do processo inicial em que a luz finalmente se acende, e eu comecei a enxergar com clareza. É como se eu tivesse passado uma fronteira, e a vida se dividisse, então, em duas metades: a metade em que eu vivi a maior parte da vida nessa ignorância quanto ao meu mundo interno, na inconsciência mesmo; e a vida que se iniciava sob a luz do conhecimento transcendente, essa luz que ilumina o mundo interno e todo esse mundo metafísico que a gente não conseguia enxergar. Essa mudança, essa percepção do próprio mundo interno, é um negócio revolucionário. Porque é como se a gente deixasse, não de uma vez, mas de ficar sentindo as mesmas dores, sabe? Quantas dores me causou, e ainda me causa, essa ignorância acerca de mim mesmo. Porque andar no escuro, num lugar cheio de armadilhas, é sempre muito doloroso. E como a mente muitas vezes estava desorganizada ou ficava em movimentos involuntários, de acordo com os pensamentos do momento, é como se os móveis estivessem mudando de lugar todo dia. E como continuava no escuro, claro que todo dia eu ia esbarrar em alguma coisa. Era um processo doloroso. Eu vivi uma boa parte da minha vida como um processo doloroso. Aí a gente pode entender por que as pessoas falam: "Ah, eu aprendi com as condições duras da vida". Eu estava vivendo, aprendendo e me superando basicamente com a dor, com o sofrimento desses obstáculos, dessas batidas, desse desconforto de ir tateando no escuro, sem entender o porquê das coisas. É duro, não é? Porque a sensação que dá é que a gente fica à mercê. A vida inconsciente, a sensação é que a gente é extremamente vulnerável. Eu me sentia muito assim. A gente, lógico, bota um esforço danado na parte externa da vida, então, nessa parte, a gente tem uma visibilidade boa. O problema é que, para viver o dia a dia, não é uma questão só de viver as coisas externas. A grande dificuldade, o grande desafio, o perigo, é que durante essas experiências todas, a gente ignora a realidade da vida interna. E é aí que a gente encontra a dor, os obstáculos e o sofrimento. Eu tinha muita dificuldade, por exemplo, em conviver com os demais por conta das minhas deficiências psicológicas. Então, não importava o que eu estava fazendo fora de mim, se era trabalho ou o que fosse, havia um reflexo tão forte das minhas deficiências que qualquer situação era difícil de viver ou, no mínimo, causava constantes dificuldades. E eu sofri muito por ser como eu era, porque o que a gente está vivendo fora vai sempre ser um espelho do nosso estado interno. Eu demorei muitos anos para entender que a causa não estava nas circunstâncias. O divisor de águas, a fronteira que definiu duas metades da minha vida, é muito claro. E é, para mim, a razão maior de... puxa, quando alguém me pergunta sobre as dificuldades da vida, eu falo com muita clareza: "Olha, ter vivido uma parte da minha vida de forma totalmente inconsciente, ignorando a realidade do meu mundo interno, me causou muito sofrimento". Nisso entra esse conhecimento transcendente que, como eu falei, na hora que ele acendeu a primeira luz no meu mundo interno, é como se eu estivesse deixando para trás uma metade da vida à qual eu nunca mais iria voltar. E veja, não é que minha vida terrena mudou. Eu continuei vivendo as mesmas circunstâncias. Mas passar a viver cada dia com um pouco mais de luz no próprio mundo interno começou a me dar a condição de evitar tanto tropeço, tanta pancada, tanto sofrimento. E é isso que o ser humano quer, né? Ninguém quer ficar só aprendendo com a dor e com as quedas. Essa mecânica de aprendizado é muito sofrida. Por isso que eu trouxe essa analogia, por conta do tópico seguinte, que são sobre as duas metades da vida. E isso, para mim, é muito claro. É como se um capítulo tivesse se fechado e outro tivesse se aberto no livro da minha vida. É completamente diferente viver na inconsciência e viver enxergando, conhecendo e dominando cada vez mais esse mundo interno. Agora, não só se evitam os tropeços e as quedas, mas, especialmente, se vive sob essa luz. Isso é uma coisa que o conhecimento transcendente faz de forma brilhante, literalmente. Ele ilumina porque desperta em cada um de nós a capacidade de observação para dentro de si mesmo. E ainda que a gente continue com os mesmos obstáculos — deficiências, pensamentos esquisitos — nesse nosso quarto interno, pelo menos, ao começar a vê-los, a gente finalmente tem um mapa mental que começa a ser aperfeiçoado para que a gente evite os mesmos erros. Não quer dizer que, quando a vida consciente se inicia, a gente consegue transformar completamente esse quarto. Não é isso. Mas começa-se a mapear e identificar de que móveis a gente vai se livrar, porque estão só atrapalhando. Se cada um olhar para a própria vida e para o resultado que o conhecimento transcendente realiza, penso que fica clara essa linha divisória. E não é uma coisa que a gente deveria só saber que existe; a gente deveria parar de viver na escuridão. Por que optaríamos pela escuridão quando temos acesso à luz? "Ah, por medo do que a gente vai enxergar?". Eu sei, eu reconheço. Eu também tive muito medo. Mas é melhor ir descobrindo a parte que a gente não gosta, mas ainda tem, do que seguir a vida tropeçando, caindo e se machucando. É como se cada um de nós tivesse uma opção. Não é um botão de liga e desliga, porque não é tão simples. Mas é um processo em que vão se acendendo as luzes de cada um dos cômodos desse grande mundo interno. É um processo maravilhoso e que, para mim, define, de fato, duas metades da minha vida. Não em termos de tempo físico, mas um capítulo que se fecha na medida em que eu vivo o capítulo de uma vida um pouco mais consciente. E eu espero que você, ao olhar para tudo isso, não só possa identificar essa linha divisória, mas, especialmente, sinta que ninguém está sozinho. Que eu estou aqui, enfrentando os mesmos medos, as mesmas inseguranças, as mesmas dificuldades, obviamente com as variações da minha psicologia. Mas que você nunca sinta que está lutando só. Eu e milhares de seres humanos estamos juntos com você. E nisso a gente encontra uma força para transformar a vida que, sozinho, eu não teria. Boa leitura, boas reflexões. Fique bem e até o próximo podcast.