Latest / Logosofia no Dia a Dia / Você Está Usando a Argila da Sua Vida para Construir Algo Seu — ou Fazendo Encomendas para os Outros?
Transcript
- Oi, é o Ronny, tudo bem? Eu estava pensando aqui, lembrando de uma coisa que eu adorava quando eu era criança — adorava, na escola. Só que geralmente eu tinha essa experiência, e era uma coisa incrível, nas aulas de artes: de vez em quando tinha argila para esculpir. Ah, eu adorava — essa acho que era a parte que eu mais gostava da aula de artes, era esculpir argila. Obviamente, e eu já confessei isso aqui antes, eu não tenho nenhuma aptidão para artes plásticas — zero, é uma lástima. Mas enfim, ainda assim adoro, adoro pegar alguma coisa assim, pronta para ser esculpida, ou para desenhar, ou pintar. Mas enfim, eu não sou bom nisso, não dá para fazer nada. Nem acabei desenvolvendo — poderia ter desenvolvido também ao longo da vida, mas não desenvolvi por várias razões, sei lá. Mas eu gostava muito de argila, e o que me impressionava muito era que dá para fazer quase qualquer coisa. Obviamente que sem conhecimento, sem técnica, é muito mais limitado do que dá para fazer, mas era como uma mágica. Porque um bloco de argila — aquele bloquinho de argila para escultura, para esculpir — ele é um negócio super maleável, ao mesmo tempo super firme, que você pode ir dando a forma que você quer. E depois de algumas horas ele já está duro, pelo menos por fora, e depois de alguns dias está totalmente seco, muda a cor, dá para pintar, dá para fazer um monte de coisa. Então eu estava pensando nisso, porque a última vez que eu mexi com argila — talvez você tenha mexido com argila mais recentemente, mas eu mexi com argila acho que faz uns 12 anos, por aí. Eu estava em uma cidade que eu gosto muito, de montanha, e a gente foi num ateliê desses de escultura mesmo. As crianças e todos fizeram a escultura de argila, e pintamos — aí foi para o forno, e dias depois a gente pegou. Ficou super legal, aquele tipo de escultura. E na verdade eu fiz o quê? Eu fiz um cinzeiro para charuto. E você vai falar: "Ronny, isso não é arte, né?" Claro que não, eu sei disso. Mas enfim — o que um incompetente nas artes plásticas ia fazer com um bloco de argila, né? Fez um cinzeiro para charuto. E eu estava pensando sobre isso porque, na verdade, eu não me dei conta — mas eu e você, a gente segue recebendo todo dia, na hora que a gente acorda, alguém coloca um bloco de argila para modelar na nossa bancada de escultor. Eu sei que a gente não se dá conta disso — você vai me dizer que não, que não é isso que acontece, que você nem está vendo, que não tem nem bancada de escultor. Eu te garanto que é isso que acontece, e eu vou te dizer por quê. Argila é o tempo que a gente tem — e que, igualmente à argila, no final do dia vai estar endurecida. O tempo do dia é argila modelável, que ao final não vai ser mais modelável. Se o escultor fica olhando para aquele bloquinho de argila o dia todo, ou se distraindo, resolvendo problemas da vida dele, do vizinho, enfim, qualquer coisa — a argila vai secar e vai virar uma pedra inútil. Não tem nada para fazer com aquilo. Não dá para estocar argila fresca de um dia para o outro — depois de passar um dia parada, ela vai secar e acabou. Então imagina que a gente recebe uma matéria-prima valiosa todos os dias, só que chega a noite e a gente percebe que gastou a argila de várias formas. Por exemplo, ficou fazendo um monte de coisinhas para uma série de outros pensamentos ao longo do dia — seja lá no trabalho, entregando pecinhas que alguém pediu, ou algum amigo ou conhecido pediu, ou a família pediu alguma coisa para fazer em casa. E a gente vai gastando, vai tirando pedaços daquele bloco de argila para cumprir uma série de coisas que faz durante o dia. Aí tem o cachorro, tem o gato, tem o peixe, tem as atividades de ir para um lado e para o outro, o trânsito nas cidades maiores, aí tem o celular, tem as notícias, tem que acompanhar o que aconteceu, tem que ver o que fulano disse ou não disse, tem que fazer toda a parte do trabalho, tem que entregar, tem que cumprir, tem que pagar boleto — e tem mais um monte de coisa que eu nem listei. E no final do dia, a gente pegou um pedaço desse bloco e fez alguma coisinha que cumpria alguma demanda daquele dia. Mas e a escultura da própria vida? Que parte desse bloco a gente pegou e fez mais uma peça da grande escultura da própria vida? Ou seja, a gente passa um dia — ou talvez muitos dias — usando toda a argila para fazer um monte de coisinhas, lembrancinhas, tarefas, para fora de nós mesmos. Sabe, a gente tem uma relação totalmente distorcida com o tempo. A gente acha que o tempo é um relógio na parede, ou no celular, ou no pulso, nos cobrando. Quando, na verdade, o tempo é exatamente esse bloco de argila. Tem um ensinamento logosófico — eu lembro que me marcou muito — em que a Logosofia apresenta que tempo é vida. O tempo não é um tirano que está fora da gente no relógio. O tempo é a própria matéria-prima da qual a nossa existência é feita. É assim: cada dia, cada hora do dia, é um punhado de argila. E o rendimento não é fazer um monte de coisinha pequena com esse bloco de argila — não é ficar entregando, assim como eu fiz um cinzeiro. Não é fazer um monte de cinzeiro para vender na feirinha. A grande obra a fazer, a obra-prima, é ir transformando essa argila que todo dia está à nossa disposição na obra-prima da própria vida. Quem vê o tempo como um tirano, como uma coisa que fica pressionando, corre contra o relógio o tempo todo, o dia todo, todo dia, a vida toda. Quem vê o tempo como matéria-prima, como argila, senta, planeja e molda com intenção de realizar uma obra-prima. O nosso drama moderno, o estado atual da sociedade, é que a gente fica amarrado por toda a classe de compromissos. A gente realmente passa o dia inteiro como se fosse um escultor atendendo encomendas que odeia. Eu falei assim — eu sei que chocou — mas quantas coisas a gente não faz o dia inteiro que realmente não quer fazer? Tudo bem, a gente não odeia tudo. Tem coisa que, eventualmente, eu odeio fazer. Antigamente, então, tinha muita coisa. Hoje em dia tem pouca. Mas sabe essa sensação? A gente não odeia, mas quantas coisas ao longo do dia a gente atende, tem que fazer, dedica tempo — e não é isso que a gente queria. Não é isso que faz a gente sentir mais feliz. Essa dor é a dor de deixar de pertencer a si mesmo. A gente acorda, começam as rotinas, chega no trabalho, o chefe ou o trabalho já pega um pedaço dessa argila, o trânsito pega outro no caminho, o celular e as redes sociais vão levando uma parte boa desse bloco. Chega à noite, a pessoa olha para a bancada — que é a própria vida — e só tem pedacinhos pequenos e já secos, porque a noite já secou, acabou, já foi, se esvaiu. E, geralmente, eu tinha essa desculpa do excesso de trabalho. Durante muitos anos eu usei essa desculpa — do excesso de trabalho, de coisas a fazer — para não mexer nessa matéria-prima, para deixar essa matéria-prima secar mesmo ao longo do dia e fazer os cinzeiros que desse para fazer. E isso não tem nada a ver com posição social ou capacidade econômica. De um jeito ou de outro, é muito doloroso perceber que a gente está construindo, na verdade, coisas para fora de nós, para os outros, com a argila da própria vida — com o tempo, que é a própria existência. O tópico — o último tópico desse capítulo do livro, que é o capítulo da didática do método logosófico — chama "Ensinamento Preliminar sobre Aproveitamento do Tempo". E eu estava detido nele nos últimos dois dias, preparando para esse episódio. E eu falei: "Puxa vida, eu preciso entender melhor e perceber o seguinte." A questão do tempo vai deixando realmente de ser um tirano, de ser algo que pressiona, para ser a argila da própria vida — se, obviamente, eu estiver cada vez mais consciente do que significa cada dia da minha vida para esse objetivo de construir algo que transcenda as tarefas diárias. Porque se a gente continua acreditando que a vida é entregar tarefas diariamente, é cumprir tarefas e aproveitar os momentos que dá para se divertir, para relaxar, para fazer qualquer coisa — e veja, coisas boas, não estou falando de nada ruim aqui, né? —, se a gente passa o dia acreditando que o nosso objetivo é passar pelas tarefas que tem que fazer, porque tem que fazer, e apenas aproveitando o que sobra, essa não é a obra da própria vida. Você já pensou nisso? Aí você fala assim: "Ah, Ronny, mas a gente vai ter que continuar fazendo tudo isso — vai ter o trânsito, vai ter não sei o quê." Sim. A questão é entender qual é a diferença de viver o dia a dia em que tudo isso acontece — isso não vai mudar, vai ser sempre assim, com coisas a fazer, com vários assuntos a atender. Mas a chave não está em o tempo físico parar, ou em parar de fazer coisas, ou em "quando me aposentar, aí eu vou ter tempo para ser feliz." Não. É claro que não. Você já diria que não antes de eu falar. A chave é entender que se o tempo mental começar a ser utilizado de forma consciente, o bloco de argila deixa de servir a objetivos para fora e a gente começa a moldar finalmente — a trabalhar finalmente na obra-prima da própria vida. Não sei se ficou clara a diferença. É sutil, né? Porque o aproveitamento do tempo não é aproveitamento do tempo físico para fazer outras tarefas físicas. Não é essa a questão. Pegou a sutileza? A questão é a seguinte: como é que a gente segue fazendo tudo o que tem que fazer, mas aproveitando a argila — que é o tempo — para desenvolver a obra da própria vida enquanto faz todas as outras coisas? Aí você fala: "Mas isso é complicado — tem que focar no que está fazendo a cada momento, no trabalho ou no que seja, na tarefa que for, em casa, na rua." Sim — mas não é fisicamente. Eu estou me referindo ao tempo mental. Por isso que quando a Logosofia começa a apresentar conhecimentos e começa a propiciar que a gente saia daquele estado de inconsciência total, e a gente começa a perceber, a notar, e começa a entender como é que a gente move a engrenagem mental de cada um — como é que a gente pode passar a observar os próprios pensamentos, como é que a gente pode passar a criar pensamentos, observar os pensamentos que estão na mente atuando, e começa esse trabalho de identificação, depois seleção de pensamentos, criação e fortalecimento dos pensamentos que vão favorecer essa obra-prima da própria vida —, a gente começa... é quase como se tivesse duplicado o tempo. Tem o tempo físico, das coisas do relógio e das coisas que vão acontecer naquele tempo físico no dia. Mas tem esse tempo como se fosse o metafísico — que é o tempo mental — em que, em vez da gente estar apenas atendendo tudo como se o objetivo da vida fosse atender as coisas do dia a dia, a gente está atendendo as tarefas do dia a dia, as necessidades, mas internamente a mente está aproveitando aquele tempo para recolher elementos e moldar a obra-prima da própria felicidade. Você vai dizer: "Mas como é que é isso exatamente?" Bom, obviamente isso é uma prática — assim como tudo que transforma ou que faz parte da transformação da vida, não é um interruptor que a gente liga. Não era fácil transformar a vida. Mas parte — parte de dedicar tempo mental ao conhecimento de si mesmo, dedicar tempo mental ao estudo e conhecimento desse mundo metafísico, primeiro em si mesmo, que é o conhecimento de si mesmo — é praticamente a mesma coisa. Ou seja, quando a Logosofia instrui como ciência e como método que a gente deve dedicar um tempo diário a esse conhecimento e a essa observação — esse trabalho no ateliê interno de cada um —, é porque esse é o começo dessa mudança, dessa transformação, em que a gente vai deixando de ser escravo do tempo físico e vai se transformando, vai alcançando a condição de ser escultor da própria vida, da própria felicidade. E aí fica claro por que não há limites para a felicidade humana — os limites estão nessa concepção equivocada de que a vida é o que vivemos no plano material. Enfim — amanhã, hoje, agora nessa hora — eu acabei de receber o bloco de argila faz pouco tempo, faz quase uma hora que eu acordei. Você, não sei se está recebendo o bloco de argila agora — se for no meio do dia ou à noite, no próximo dia, quando você acordar, lembra: acabaram de colocar um bloco de argila na sua bancada. Boa leitura, boas reflexões, fique bem e até o próximo podcast.