Latest / Logosofia no Dia a Dia / Você Está Cansado de Representar Essa Personagem? É Hora de Mudar o Roteiro
Transcript
- Oi, é o Ronny. Tudo bem? Hoje vou te fazer um convite inusitado. Que tal ser a personagem principal de um filme incrível? Hum? Achou legal a ideia? Não? Por que não? Ou por que sim? Nunca pensou nisso? Então vou colocar isso em outra perspectiva. Que tal mudar a personagem que cada um de nós pegou para si quando nasceu? Está estranha a pergunta? Vou refazer de novo. E se a gente puder mudar completamente o roteiro dessa pessoa, desse ser humano que a gente está representando desde que nasceu? Quando era adolescente, em geral, quando via um filme muito bom, muito bom para mim, do meu estilo, dos estilos que gostava, eu acabava sempre querendo estar no filme, querendo ser o personagem, querendo viver as coisas do filme. Acho que isso todo mundo quis. Na infância tinha aqueles desenhos, aqueles mundos fantasiosos. Puxa, me dava uma vontade de viver naqueles mundos. Até porque, em geral, aqueles mundos fantasiosos tinham mil maravilhas. E tinham aquelas coisas que a vida era — muitas vezes a vida era fácil, a vida era linda, natureza, enfim, tudo. Aí tinha alguma situação ou outra complicada, mas aí tinha os heróis, ou a gente mesmo se transformava no herói. E aqueles papéis, aqueles personagens, aquelas personagens iam — de alguma maneira, iam representando muitas coisas que a gente falava assim: eu quero viver isso, eu queria ser assim, eu queria ter esse poder. Então, poder — então, superpoder que não queria ter. Mas, assim como nesses filmes a gente ia se projetando, a gente ia querendo, de alguma maneira, dava vontade de viver nesses mundos. Por exemplo, lembro quando entrei a primeira vez num parque da Disney, que tem exatamente esse propósito — especialmente o Magic Kingdom — tem esse propósito de representar o mundo da fantasia. A sensação é boa para a alma. Por quê? Porque dá a sensação de que está entrando naquele mundo da fantasia. E aí vem todas aquelas sensações de — nossa, isso aqui é maravilha, só alegria, diversão, é tudo lindo, é tudo bacana, as personagens todas são todas muito legais, simpáticas, engraçadas. Mas aquilo é longe de ser a realidade da vida. Mas estou manifestando essa recordação porque a questão hoje — por isso que fiz a pergunta no início — é assim: cada um de nós, a gente está contente com o roteiro que nos deram quando nasceu? Sabe que personagem que faz filme, novela, série, ele recebe em casa aquele texto — hoje em dia não recebe mais fisicamente, ele deve receber digitalmente, imagino — mas ele recebe o texto com toda a história para frente, para as próximas gravações, porque tem que se familiarizar com aquilo e tem lá, obviamente, qual é o papel dele, daquela personagem, e tem que se preparar para cumprir, para representar. O ator representa uma personagem. Então acho que dá para a gente — vamos assim — considerar que a gente nasce, recebe um roteiro e começa a representar esse roteiro. Primeiro sem saber. Aliás, sem saber acho que, em geral, segue-se a vida inteira. Mas primeiro sem entender e depois a gente começa a reproduzir essa personagem na própria vida e essa personagem vai agregando, obviamente, os acontecimentos. Então o ambiente também vai moldando a personagem que a gente vai representando. Ah, personagem — acho que é o substantivo feminino ou masculino, tanto faz — mas é a mesma coisa: é a personagem ou o personagem, tanto faz, não é homem ou mulher, não. Mas a gente vai sofrendo influência do ambiente e vai, de alguma maneira, moldando aquele papel. É como se a gente fosse recebendo instruções adicionais do roteiro que alguém vai dando ou que muita gente vai dando. Aliás, eis um grande problema: porque geralmente a gente recebe — todo mundo dá pitaco na vida do outro. O mundo dá um monte de pitaco na nossa vida. Todo mundo tem dica de o que fazer. A rede social tem um milhão de — abre aspas — dicas de o que vestir, como ser, como aparecer. Especialmente todas muito focadas — aliás, a maioria muito focada em como parecer melhor, não como ser melhor. E a gente passa a viver num mundo que é cheio de dicas, cheio de sugestões. Na verdade, dica nenhuma — cheio de sugestões ou muito poucas dicas. E a gente vai moldando a personagem que a gente está representando sem nem perceber. Aí chega um dia — esse dia pode ser hoje — pra mim, esse dia chegou vários anos atrás — em que olhei pra essa personagem. Não era no espelho físico, mas eu, assim, compenetrado na minha meditação, nos meus estudos, nesse estudo reflexivo, meditado que faço, com conhecimento logosófico, e me dei conta que aquela personagem que estava representando, eu já estava cansado dela. Estava cansado de representar um ser humano que, basicamente, vivia pra fora de si mesmo, e que tinha muito — cultivava muito — mas tinha muita atenção ao que parecia ser, em vez do que era. Tinha muita preocupação com o que os outros diziam, pensavam, falavam. Consequentemente, que impressão que eu causava nos outros, do que quem eu era. É meio como se fosse — foi o dia — obviamente, isso não é um dia, né? É um processo, claro. Isso não é uma coisa que não é uma chave que vira de repente, como se fosse uma coisa mágica, né? Mas, obviamente, que tem, assim, um momento na vida que isso pode culminar. Se é assim, a gente vai, obviamente, buscando pra si mesmo, né? Quem vive a vida? Ou, na verdade, quem vive a existência terrena, né? Totalmente despreocupado com qualquer outra coisa e mergulhado completamente na personagem que está representando e não sente nada internamente, nada o move, ou não consegue identificar que há um sinal interno de que precisa buscar um conteúdo real para a vida, permanente — essas personagens seguem vivendo a personagem até o final do último dia de vida aqui na Terra. Mas, para os demais, como eu, como você, chega um momento que dá essa sensação de que, assim, eu não quero mais representar uma personagem porque essa personagem não me trouxe, não me deu, não me permitiu desfrutar daquilo que intuo profundamente e que busco — que é uma felicidade acima, além do que se experimenta com as coisas terrenas. Uma paz, uma plenitude que, de fato, essa personagem não sabe viver. Aí você fala assim: ah, legal, Ronny, mas como é que faz? E cadê o roteiro novo? Essa seria a pergunta. O pessoal vive isso — o pessoal que é ator. Aí tem um dia que acaba a gravação daquela coisa que está fazendo, seja qual for. Aí, depois de um tempo, está se preparando já para um outro filme, uma outra série, um outro papel. Ele recebe o quê? Um novo roteiro. Faz sentido? Faz, né? Afinal de contas, novo papel, nova personagem, novo roteiro. Então aquele roteiro, ele deixa de lado. Aquele roteiro deixa de ser o guia. Ele deixa aquela personagem e passa a ser outra personagem. Então, vamos tentar ver como é que a gente reflete isso nesse assunto mais — obviamente muito mais amplo — que é o da nossa existência terrena. Se a personagem que cada um de nós viveu e tem vivido não entregou a experiência, os resultados, a vida que a gente quer viver ainda, que a gente não conseguiu — e, de novo, não me refiro a realizar coisas terrenas. Não é que a personagem não me entregou a riqueza que queria, não me entregou o carro que queria, não me entregou as viagens que queria, não me entregou o par que queria. Não é isso. Se a personagem que a gente está incorporando desde que se tornou adulto não nos deu a oportunidade de viver a vida na plenitude que a gente intui e anela, aspira profundamente — é hora de deixar esse roteiro, de parar de seguir esse roteiro. É hora de colocar as mãos num roteiro e num papel, numa personagem muito diferente. Não fisicamente diferente. Metafisicamente diferente. Uma personagem muito superada. Características, modo de agir, modo de ser, modo de olhar para o dia a dia, modo de passar as experiências do dia a dia — diferente da outra, da atual. Por isso que a sensação que tive é de que um dia — como falei — um momento da vida — me cansei de viver, de seguir vivendo as experiências da vida como estava vivendo. Não sei se é familiar para você essa sensação, mas talvez se separar para 10 segundos. Sabe a sensação de eu cansei de viver a vida dessa forma? E veja que é diferente isso. Não é que cansei de viver porque a vida é difícil, ou que as experiências estavam duras. Não é isso. Cansei de viver dessa forma as experiências. Que forma é essa que a gente cansou? Vou te dizer o que aconteceu comigo. Ao invés de ser útil para você, eu ressoa de alguma forma com a sua situação, com as coisas que você sente e percebe. Cansei de olhar as dificuldades da vida e me sentir pequeno frente às dificuldades. Cansei de fazer os mesmos erros, de erros que me prejudicam, erros que magoam outras pessoas, erros que me fazem viver depois consequências que não queria viver. Cansei de ficar agindo por impulso. E aí você fala assim: por impulso do quê? Quando a gente age por impulso, a gente está sob comando de outras forças que não a nossa vontade. Impulso de pensamentos. Impulso do instinto. Impulso que depois, em geral, leva ao arrependimento. Seja uma coisa simples como assim: puxa, me arrependi de comer, de começar a comer a caixa de bis. Porque, pelo amor de Deus, abrir a caixa de bis — lógico, tem gente que come dois, três bis. Eu admiro muito quem consegue abrir um pacote de bis e comer dois, três bis. Ou bises. Porque não consigo. Sei que não posso abrir uma caixa de bis, um pacote de bis. Não dá. Não tenho essa capacidade. Porque se abrir, vai desaparecer todos os bis da caixa. E não vai demorar uma hora, vai demorar cinco minutos. Porque é trabalhoso. Se não tivesse embalado um a um, ia desaparecer em dois. Você percebe que assim — ah, Ronny, mas você é meio exagerado com chocolate, né? Então, estou te mostrando como é que essa personagem tem características e falhas que — peguei um exemplo bem bobo, porque é bem bobo — mas é determinado por essa característica que assim: não é a minha vontade. Você pode até pensar: pô Ronny, mas você tá com vontade, né? Nessa hora você tava com vontade de comer chocolate. Veja. O que que é a vontade de comer chocolate? Não é a necessidade de nutrição. É gula. Não é pra alimentar o corpo com nutrientes. É gula. O que que é gula? Um pensamento. A vontade está sujeita — da personagem que vivi durante a maior parte da minha vida — a vontade ficou sujeita a muitos pensamentos e ainda tenho vários pensamentos na minha mente que ainda tão sempre, todo dia tentando me fazer agir por impulso. Eu, obviamente, que vou seguir nesse exemplo simples. O que que fiz em relação a esse pensamento da gula? Mantenho ele o mais distante possível da ação. Como? Evitando ter à disposição aquilo que é motivo da gula. Você vai lá: Ronny, você é muito bobo, não passo por isso, sou muito melhor que isso. Graças a Deus. Você não tem noção da dificuldade que era pra mim isso. Agora, por um lado, se você não tem esse pensamento, como eu, você pode ter outros pensamentos como tenho também, que se relacionam a outras coisas da vida e não a parte da alimentação. E que especialmente aqueles que não tem nada a ver com a parte externa, mas são pensamentos que deram pra gente essa característica, essa cara que muitas vezes a gente se arrepende de ter. Não tô falando da beleza física ou não. Tô falando da máscara da personagem que a gente vive. Quantas vezes a gente fala o que não queria falar? Quantas vezes a gente não faz o que não queria fazer e se arrepende depois? Seja porque machucou a gente, ou machucou os outros, ou machucou todo mundo — a gente e os outros. Quantas vezes? Então, se não é o pensamento da gula, é qualquer um dos outros pensamentos. São os vários pensamentos que a gente tá repetindo, que seguem em nossa mente, representando essa personagem que não quero mais ser, não quero mais representar. Consegui mudar completamente? Joguei fora o roteiro da personagem que estava me referindo? Não. Não consegui. Pode me julgar por isso, mas sei que você vai ser muito — sempre — o que vai ser julgado é com generosidade, quando me ouve. Não tenho dúvida disso. Porque é um processo, não é um passe de mágica, sabe? Não é um negócio que não existe — a ferramenta mágica — ou achar que vai ter um momento que vai acontecer esse clique e então tudo transforma. Nada na natureza é assim, na criação. E a natureza nos mostra isso. Nada na criação é num clique. Tudo é um processo. Ah, Ronny, então você tá falando que a gente tem que fazer um processo pra mudar a personagem? É exatamente sobre isso. É exatamente sobre isso que se trata o conhecimento logosófico. Que é o conhecimento transcendente. Por quê? Porque transcende aquilo que o conhecimento comum tem capacidade de realizar. A gente avança como humanidade nessa série de descobrimentos incríveis ao longo dos milênios, especialmente nos últimos séculos, que tá nos levando a condições materiais sensacionais, a saúde cada vez melhor, ou a longevidade com mais saúde, aos avanços — como falo sempre, né? — adoro essa parte de explorar o universo. Acho isso sensacional. Adoro tudo isso. Mas o problema é que, do ponto de vista da felicidade humana, não houve avanço. A menos que você fale: ah, não, Ronny, mas é muito mais feliz viver hoje com o conforto que a gente vive, os carros que a gente usa, as viagens que a gente faz de avião, que é a tecnologia, o avanço da humanidade. Não. O que é mais gostoso e mais legal é — isso traz verdadeira felicidade? Não vou nem responder. Cada um responde pra si mesmo. Então, o que a gente tá falando aqui é que a única forma de mudar de verdade — ou seja, definitivamente — a forma como cada um de nós vive as experiências da vida, até porque a gente não escolhe a maioria delas. Você vai falar: ah, não, Ronny, eu ainda acho que a gente escolhe. Ok. Mas tem uma parte considerável que a gente não escolhe. Eu, hoje, tenho convicção que a gente escolhe a menor parte das experiências da vida. Mas, independente da proporção, a forma como a gente passa por cada uma dessas experiências, ela pode ser renovada completamente. A gente pode mudar completamente a forma como a gente experimenta e se relaciona com o mundo a partir da mudança, da renovação constante dessa personagem que a gente vive. Porque ele vai deixando de ser algo externo. Não é para a gente incorporar uma personagem, não é para seguir vivendo com uma máscara. É para ir surgindo o verdadeiro ser humano por detrás da personagem. É como se fosse o surgimento — como se no palco saísse a personagem, parasse um momento e falasse assim: vou me apresentar para vocês. Não sou ciclano, fulano, a personagem desse filme, dessa história. Sou — e aí dá o próprio nome e conta da própria vida. E aí vai aparecer o ser humano por cima, acima da personagem com a fisionomia natural, com o olhar que antes podia ser esturvo, realmente cheio de sombras, que muitas vezes é a feição da gente nessa personagem que a gente incorporou. Começa a ser uma feição, um semblante de um ser humano que começa a viver a vida numa experiência que é sublime. É sobre isso. O conhecimento logosófico, a logosofia, é sobre como é que a gente vive essa transformação, como é que a gente deixa de ser uma personagem que vem representando a vida toda e passa a ser cada vez mais quem somos. Por mais difícil que seja, às vezes, pensar num conceito como esse, porque a gente se acostumou tanto com a personagem — tanto — que a gente às vezes, ou em geral, se confunde achando que a gente é aquilo que a gente parece ser. Bora. Bora dar um upgrade nesse roteiro da vida. É isso que a gente está fazendo. É isso que sigo fazendo aqui. Boas reflexões, fique bem e até o próximo podcast.