Latest / Logosofia no Dia a Dia / Turista da Própria Vida: Como Sair do Ônibus e Viver a Essência das Experiências
Transcript
- Oi, é o Ronny, tudo bem? Eu lembrei aqui de uma passagem que já faz 30 anos. Quando eu tive — eu passei um mês em uma cidade, em Boston, nos Estados Unidos, quando eu tinha 24 anos de idade. Eu fui estudar, fui melhorar meu inglês, tudo. E foi uma experiência única, porque foi a primeira vez que eu estava indo para os Estados Unidos. Eu só fui para os Estados Unidos com 24 anos de idade. Então era para mim uma viagem que eu aguardava há muito tempo. Até porque era um outro país naquela época, os Estados Unidos. Então eu tinha realmente cultivado muito o desejo de conhecer, entender a cultura americana, entender como era o povo e conhecer essas forças que eles têm — acadêmica, né? Em Boston estão duas das seis instituições mais reconhecidas no mundo de ensino. Então foi uma viagem que eu estava preparado para aproveitar e viver. Eu ia ficar, e fiquei, num dormitório de uma própria universidade lá, e passei a vida comendo nos dias no refeitório da universidade também. Meio que vivendo a vida de um mês de quem vive em Boston como estudante. Só que por outro lado, um dos dias, um dos finais de semana, eu fiz um passeio. Daqueles passeios de — como é que chama? — não é passeio panorâmico, não sei como é que chama, aqueles passeios de ônibus. Que você fica horas dentro de um ônibus, e ele vai andando pela cidade toda. De vez em quando ele para, desce num lugar, e aí o guia explica alguma coisa, conta alguma coisa e tal, aí volta pro ônibus, né? Acho que é turismo panorâmico, não sei como é que chama isso. Bom, por que eu tô lembrando dessa história? Porque, por sorte, eu estava em Boston já algumas semanas quando eu fiz esse passeio. Porque o passeio ia mostrar um monte de pontos, ia circular na cidade inteira, eu ia conhecer lugares que eu não tinha ido ainda, ia ter uma visão mais clara, eu acho, da cidade. E tive, né? Em termos de localização. Mas tinha muita gente no passeio que tava como turista em Boston, né? Como eu, mas tava assim — tava por um dia, dois dias só, que seja —, e tava conhecendo tudo dessa forma, né? De passeio turístico de ônibus, de ficar vendo pela janela, basicamente. Mas qual é a sensação que eu tive? Porque eu tive uma sensação meio esquisita, assim, que eu falei assim: "Pô, o que é isso que eu tô sentindo? Por que que eu tô agoniado?" Porque eu ia vendo tudo, e a gente ia passando — foram horas daquele passeio —, e eu ia tendo a sensação de que aquilo que eu conhecia, quando era algum lugar que eu tinha passado, eu achava super legal. Porque eu falava: "Nossa, isso aqui, eu sei como é que é. Ah, eu fui aqui, passei ali, sentei naquele café ali, ou comprei um negócio ali pra comer naquela barraquinha, sei lá, qualquer coisa assim. Ou já olhei isso aqui, já entrei naquele lugar, entrei naquela biblioteca, entrei naquele prédio, entrei naquela construção, ouvi aquele museu, sei lá." Mas pro resto do pessoal, que tava só ali fazendo um passeio em Boston, panorâmico desse jeito, eu vi que — e eu vivi isso também, onde eu não tava, né? Em lugares que eu passei, que eu não tinha ido ainda —, eu vivi a mesma coisa. Era só uma sensação de, muitas vezes, ver um negócio legal, mas a gente não sabe como é que é. É uma sensação esquisita, porque assim, eu vi, mas não vivi. Sabe assim? "Ah, você viu aqui, você conhece tal lugar em Boston?" Aí eu falo assim: "É, conheço. Não sei se eu posso dizer que eu conheço, né? Eu passei de ônibus, vi pela janela, tirei foto." E todo mundo tava tirando muita foto. Tirei foto — eu praticamente tirei nenhuma, acho que nem levei máquina fotográfica naquela viagem, até porque também não tinha celular na mão com máquina fotográfica. Mas tinha muita gente que ficava só tirando foto. Então assim, eu lembro que a sensação de, aonde eu não tinha visitado, eu só fiquei com aquela recordação na mente do lugar — assim como se eu tivesse tirado foto —, e olhava para as fotos, e olhava para aquela recordação depois, e falasse: "Poxa, mas eu conheci aquele lugar? Eu conheço tal lugar? Sim ou não?" E no fundo, eu percebia que essa era uma forma curiosa de conhecer um lugar novo. Talvez fosse muito bom, e acho que é muito útil, quando você vai, quando você acaba de chegar num lugar novo, fazer um desses passeios panorâmicos. É super legal, porque você tem uma noção, e depois você volta, e vai a pé, e vai caminhar, vai conhecer tudo. Agora, se ficar só no passeio panorâmico, qual é a sensação? Aí agora eu vou relatar qual é a sensação intimamente sentida. A sensação que eu tenho é porque, na minha vida, eu passei muito tempo vivendo a vida como se estivesse dentro dessa excursão panorâmica. Eu passei muito tempo olhando a vida pela janela, e os lugares que eu passei, as experiências que eu vivi, as coisas que aconteceram comigo, ficaram de alguma forma registradas na retina mental — foi como se eu tivesse tirado muita foto. Na minha recordação tem muita foto de muita coisa que eu vivi na vida. Muita coisa — qualquer um de nós tem. Você vai, ah, recorda da época dos 10 anos de idade, vai recorda dos 15, dos 18, dos 20, e assim vai. Alguma coisa a gente vai recordar, muitas coisas a gente vai recordar. Sempre vai ter alguma recordação, porque vai ter alguma: "Ah, eu estava estudando tal coisa, eu estava trabalhando em tal lugar, eu estava fazendo, enfim, curso XYZ, estava namorando com tal pessoa." Não importa. A gente tem recordações à vontade — assim, flashes, fotos, de muitas coisas que a gente viveu na vida. O problema — e a sensação que eu tenho hoje —, olha que interessante, hoje, agora, enquanto eu estava pensando nessas fotos mentais todas, ou em fotos físicas que ajudam às vezes a recordar alguma coisa que a gente viveu, é que eu passei uma boa parte da minha vida fazendo uma excursão panorâmica, em vez de descer do ônibus e viver a essência das experiências, das circunstâncias que a vida apresentou para mim. Aí você fala assim: "Poxa, Ronny, mas qual é a diferença exatamente disso?" Eu acho que a imagem da excursão é boa, porque a diferença é essa: é uma sensação de que eu vivi, mas quando eu tento buscar qual foi o conteúdo essencial daquilo que eu vivi naquela época, qual o resultado daquela época do ponto de vista da minha formação como ser humano — mas não só as consequências. "Passei uma experiência difícil, então tem consequências" ou "Poxa, eu ralei para caramba para conseguir tal coisa, então a consequência foi conseguir tal coisa." Não, eu não estou falando disso. Não são as coisas que a gente alcançou na vida terrena que eu estou me referindo, nem recordar alguma experiência difícil que fez a gente sofrer, enfim, ou marcou a gente de alguma forma. Estou me referindo — e as felizes igualmente —, assim: o que eu aprendi, o que eu descobri sobre mim mesmo, sobre a minha vida e a minha existência em todos aqueles anos em que eu tenho a sensação de que eu fiz só uma viagem panorâmica pela vida? É muito sedutor e fácil ficar no conforto do ônibus da vida, porque é como se eu tivesse vivido a vida de forma externa, sabe? Você está pegando a sensação? Você está entendendo o que eu estou falando? É difícil descrever, mas assim, é muito mais fácil cuidar da vida dos outros ou colocar a culpa dos meus problemas na vida dos outros como eu fiz muitas vezes. É mais fácil. É mais fácil cuidar das notícias, das aparências. É mais fácil cuidar, hoje em dia, ficar acompanhando a rede social ou ficar fazendo coisas fora de mim mesmo do que descer do ônibus, encarar a realidade do que existe dentro de mim e como é que eu enriqueço minha consciência acerca de quem eu sou, de quem eu quero ser. Olha só que interessante. A gente tem a oportunidade, durante a vida toda, de viver cada dia ou dentro do ônibus, nesse passeio panorâmico, ou de descer todo dia e experimentar, dentro de si mesmo, essas experiências, fatos e circunstâncias que a vida oferece. Ou seja, você vai dizer: "Mas ônibus não é um negócio simples, porque como é que eu faço? Qual a diferença exata? Como é que eu garanto que eu não vou viver fora, que eu não vou viver no ônibus? Como é que eu faço isso?" Ou seja, há um marco, há uma virada que a gente tem que se decidir. É o instante que a gente percebe essa superficialidade da vida. Ou seja, a superficialidade de viver a vida dessa forma. E eu sentia isso e demorei para entender o que era, porque ficava só aquela sensação realmente agoniante, desagradável, de que os dias passavam, os anos passavam, mas cadê o conteúdo da vida mesmo? Embora há dias cheios de coisas para fazer. E muitas vezes conquistando muitas coisas do ponto de vista material, terreno, fora de mim mesmo. Eu acho que a prática mais clara de como é que a gente muda de posição é o dia que a gente fala assim: "Chega. Chega de viver apenas a vida, ou de viver a vida apenas de dentro do ônibus. Não dá para ser turista de janela na própria vida." Agora, quando eu entendi isso, quando eu percebi isso mais claramente, foi ao mesmo tempo — sim —, porque eu estava tomando contato já com esse conhecimento que permite essa percepção, já de que existe essa realidade interna. Para começar, se eu não soubesse que existia um mundo dentro de mim mesmo, eu ia seguir vivendo a vida dentro do ônibus, lógico, olhando a vida da janelinha, claro, tirando foto, enchendo a vida de fotos, com a sensação de que eu estava vivendo muita coisa. O conhecimento transcendente, esse que a Logosofia oferece, é um mapa que permite essa navegação dentro de si mesmo com segurança. E transforma a gente de turista passivo — não é no turista de dentro de si mesmo —, é no ator, naquele que vai agir, no construtor da própria individualidade. Quando a gente começa a viver os dias cada vez mais consciente desse mundo interno, dentro de si mesmo, cada evento externo se torna um material para processar internamente, para transformar em valores e sabedoria. É como se a gente tivesse a chance, a oportunidade de todo dia, de escolher entre simplesmente passar pela vida ou vivê-la. E com isso extrair a essência da vida, uma porção a mais da essência da vida para nós mesmos. Essa formação consciente da individualidade, eu entendo que é nesse sentido: em que a vida vai se transformando, vai deixando de ser uma paisagem e um acontecer de fatos diferentes, circunstâncias que se sucedem, em que a gente passa como se fosse turista, e vai se transformando — vai sendo a matéria-prima de onde a gente vai retirando blocos, ou vamos retirando porções, que a gente utiliza de entendimento, de observações, de experiências, que a gente vai utilizando para enriquecer esse conteúdo essencial que é dentro de si mesmo. Porque a própria vida interagindo — é a vida interna, é a vida interna interagindo com a vida de fora, externa, vida terrena. Mas você percebe que isso é um conceito que só faz sentido depois que a gente entende que existe uma vida interna? Porque se a gente não entender isso e não perceber que existe uma vida dentro de nós mesmos, aí essa conversa parece uma conversa de maluco. Mas eu deixei de ser maluco há muito tempo. Ok, você pode achar que eu sou um pouco doido ainda, em algumas coisas que eu vivo, minhas dificuldades, minhas facilidades, minhas escolhas, mas isso é próprio dessa minha característica, da minha própria herança e da minha psicologia, ainda na forma como ela está hoje. Mas eu garanto para você que eu fui deixando de ser doido, de viver essa vida externa, e eu estou procurando viver — sigo procurando viver — todo dia o conteúdo essencial dos acontecimentos do dia. Mas quem ou o que me ajuda como ferramenta vital nesse laboratório é, obviamente, o conhecimento transcendente. O conhecimento logosófico realmente permite essa lida, porque na medida em que ele joga a luz sobre o próprio mundo interno, e ele permite essa navegação dentro de si mesmo, esse conhecimento de si mesmo, cada vez um pouco mais, começa a ficar muito mais fácil e lógico compreender como os fatos da vida diária se relacionam com essa construção da individualidade, desse acervo, dessa essência, desse conteúdo consciente sobre o que eu sou, quem eu sou, o que me permite projetar cada vez com mais solidez quem eu quero ser — hoje, amanhã e sempre. Vamos descer do ônibus? Vamos começar a viver a vida juntos — que eu digo todos nós —, cada vez com mais consciência, caminhando, sentindo, percebendo o que é cada experiência diária, cada dia, e que significado cada dia, cada experiência, cada fato e circunstância pode ter na construção da nossa vida. Na construção de uma nova individualidade. Bora? Boas reflexões. Fique bem e até o próximo podcast.