Latest / Logosofia no Dia a Dia / Não Ensine Teoria: Reviva Sua Vida e Inspire Outros
Transcript
- Oi, é o Ronny, tudo bem? Eu vou voltar a falar do mergulho. Ah, foi eu recordar outro dia disso, foi uma delícia. Mas tem realmente detalhes, não do mergulho em si, mas da época que eu fui, que eu sou instrutor, mas não tô ativo, né, mas da época que eu tava ativo e tava dando aula. Eu formei muitos alunos, muitos alunos, durante muitos anos. Mas tinha algo que se repetia constantemente. Lembra que eu contei que pra se formar como mergulhador tem a parte teórica, dura geralmente alguns dias de aula, à noite ou o que seja, tem as aulas de piscina e tem o que a gente chamava de check-out, que é ir fazer esse check na situação real e ver se o aluno tá capacitado, tá habilitado, pode ser habilitado mesmo pra mergulhar, porque conseguiu aplicar no ambiente real aquilo que viu na teoria e viu em ambiente que a gente chama de águas confinadas, que geralmente é a piscina. Tinha um acontecimento que era, assim, constante, né, era uma repetição incrível de um momento assim muito, muito curioso por si e que pra mim era muito importante e representativo. No primeiro mergulho no mar, quando os alunos iam fazer a primeira descida, então imagina a situação: depois que o barco — geralmente a gente tá de barco, indo pra algum lugar mais apropriado, não saindo da praia geralmente — a gente chega no lugar, todo mundo tá se equipando, começa a se equipar no barco, que já é um stress, né, pros alunos. Stress que eu digo, já é um movimento extra que você não faz na sua vida normalmente. Tem que colocar aquele equipamento, que fora d'água não é uma coisa confortável. É um equipamento assim, ele é curioso, porque não é algo assim anatômico direitinho, né, é um negócio que desequilibra. Você vai andar com aquilo nas costas, você vai bater, fica com as coisas penduradas. Não é exatamente um negócio normal. Então o aluno tá lá se equipando, aí o barco balança um pouquinho. Às vezes, dependendo de onde a gente tá, o aluno às vezes começa a ficar um pouquinho enjoado. Então a gente tenta fazer os alunos todos se aprontarem muito rápido, o mais rápido possível, pra já ir pra água, porque na água a tendência é enjoar menos. Bom, tem uns que não enjoam, ótimo. Aí todo mundo é pra água. Aí já tem o primeiro movimento, vamos dizer assim, a primeira prova do aluno é repetir naquele momento a entrada, como é que é a entrada na água. E geralmente de uma plataforma mais alta, um barco, a gente chama de passo de gigante, que é um passo que você abre bem as pernas assim pra frente, como se fosse dar um passo enorme, e desce e cai assim na água, com as pernas abertas. Isso freia a descida um pouco, bastante. E aí você já tá com o colete, que é aquela parte que a gente usa pra, geralmente, equalizar a nossa neutralidade na água, pra gente não descer nem subir demais. A gente já tá com o colete inflado pra que na superfície ele sirva como uma boia mesmo, né. Aí o aluno já começa a acumular... Aqueles alunos na água, já tem instrutor, alguns dos instrutores já tão na água, ou eu já tinha descido pra água também, ou tava na água. E aí quando todos os seus alunos de cada instrutor já tá na água, a gente vai, né, se afasta um pouquinho do barco, vai pra boia que tem uma corda, né, até um peso lá embaixo, uma poita. E a gente começa, vai fazer a primeira descida dos alunos. E aí é curioso porque a primeira descida é um momento tenso. Eu lembro, por quê? Porque eu lembro muito da minha primeira descida. E essa era uma recordação. Ou não é que eu recordava, quando eu olhava pros alunos que estavam ali comigo, sempre vai ter aqueles que estão mais confortáveis e os que estão menos confortáveis, né, especialmente os que ainda estão menos confortáveis. E normal isso, né, porque é um meio diferente, é uma situação totalmente diferente. A vida, eu tinha passado a vida até os meus 18 anos, eu tinha passado 17 anos, eu tinha passado a vida num ambiente terrestre. Aí de repente você vai pela primeira vez pro mar pra descer e respirar. É um negócio diferente mesmo. A gente tem que dar o crédito pra sensação de ansiedade, de um pouco de receio, porque assim, você nunca fez aquilo na vida, né. A vida não era daquele jeito. A vida muda a partir daquele momento. E então quando eu olhava nos olhos dos alunos que estavam comigo ali, antes de fazer a primeira descida, controlada, direitinho, segurando o cabo da boia, enfim, super tranquilo, mas há uma ansiedade, há um receio, e às vezes há um medo da experiência que não foi vivida ainda, de um mundo que não foi experimentado ainda. É novo pra todo mundo, né. E nesses momentos que eu olhava nos olhos dos alunos, especialmente os alunos ou alunas que estavam mais tensos, o que eu via, eu reconhecia imediatamente. Primeiro, quando a gente já tava com a máscara, né, os olhos mais arregalados, né, tipo aquela expressão. É engraçado, mas não é engraçado. Aquela expressão de, né, de ansiedade. Então os olhos já estão mais arregalados do que o normal. E quando coloca o rosto na água, a gente já tá com o regulador também, aquele equipamento na boca, né, que a gente recebe o ar que vem do cilindro por ele. Eu já via a respiração acelerada dessas pessoas. Então não é uma respiração comum, porque no mergulho a gente tem muita tensão na respiração, pra que ela seja, assim, lenta, contínua, mas lenta, né. Não é respiração de quando a gente tá... Não é isso, né, hiperventilando. É uma respiração lenta, né, expirar, soltar o ar. Por quê? Primeiro pra poder manter, né, o ar, né, o batimento cardíaco e o corpo tranquilo. E segundo porque, como a gente tem um estoque de ar comprimido específico, restrito, né, limitado, uma respiração lenta e tranquila, profunda, vai preservar tempo de fundo, né, vai dar mais tempo de mergulho do que se a gente consumir o ar, né, meio translocadamente. Muito bem. Então, o que eu observava nesse momento do primeiro mergulho, nos minutos ou segundos antes de começar a descida com cada aluno, eu observava essas características que na hora me remetiam, me faziam reviver o meu primeiro mergulho. Essa era a característica mais legal desses checkouts, não era o mergulho em si, mas era a sensação que eu tinha de ver a mim mesmo naquelas pessoas, com variações, né, ou cada um com um pedacinho de mim. Me identificar com aquelas pessoas. E naquele instante eu não estava ali ensinando a teoria. Eu estava revivendo no outro o que eu tinha, uma parte da minha vida. Lógico, uma parte pequena da vida, limitada. Nesse caso do mergulho, sim. Mas era isso. Então, o que eu podia falar e fazer com cada aluno, porque eu descia um por um — então o instrutor sobe e desce — e lá embaixo, onde a gente fica lá na areião, uns 10 metros, 12, o que seja, 8, a gente, para esse mergulho, tem um outro ajudante nosso. Geralmente tem um divemaster que está acompanhando quem já desceu. Então o instrutor sobe e desce com cada um nesse primeiro mergulho. E cada aluno que eu descia, às vezes eu segurava na mão, porque era preciso, para dar aquela segurança. Eu olhava nos olhos, e eu tentava passar a segurança que eu tinha já depois, porque era a única coisa que eu podia fazer. Às vezes, lógico, na superfície eu falava alguma coisa, se tivesse alguma coisa que eu observava que podia ajudar. Mas eu não estava ali ensinando. Eu estava ali revivendo minha vida naquele processo específico. No caso, de novo, limitado em termos de alcance, mas não menos importante em termos de vida, porque era algo que eu tinha passado, e eu revivia a cada instante. Por que eu estou contando isso? Porque o próximo tópico, que é... Às vezes eu olho para os tópicos, ou para os temas de Logosofia, ou para os ensinamentos, e falo assim: "Nossa, o que será que o González Pecotche quer, ou tem como objetivo que eu retire desses ensinamentos?" Porque o próximo tópico, ele chamou de "Técnica da Informação e Preparação do Estudante", e ele se refere exatamente a isso. Quer dizer, eu me remeti a isso quando eu fui pensar no que reflexões que esse conjunto de ensinamentos me proporcionava. E obviamente que eu pensei no mergulho. Mas aí, imediatamente, eu me remeti ao que eu faço todo dia aqui, e por que eu faço? E essa é a parte que acho que a gente não entende, porque a gente é aluno a vida inteira, né? A gente é aluno desde criancinha. E em geral a gente é aluno. Poucos de nós somos professores. E eu achei que nunca na vida eu ia... Imagina, eu não tinha nenhuma vocação para ser professor. Eu achava, até porque eu não gostava muito da época de escola. Então assim, eu achava que era chato ensinar. Talvez porque eu tive professores, na maioria, não bons professores, e que ensinavam teoria, mas não estavam passando parte da vida. Até porque nessas coisas de escola é difícil passar a vida ali, né? É ruim porque são conhecimentos que não são vinculados à vida. Você percebe a sutileza? Olha só a diferença que é quando a gente tem que passar um conhecimento que é teórico, e quando a gente vai passar um conhecimento que é parte da vida, que representa algo na vida de cada um. É muito diferente. Então não é culpa dos professores que não fizeram ter gosto pela matéria. É porque é muito difícil mesmo. E por isso que acaba sendo maçante o estudo do conhecimento comum muitas vezes, porque é algo que não está vinculado à vida da gente, nem do professor, nem da gente estudante. Mas então quando eu me coloquei na posição de instrutor de mergulho, não era nem porque eu queria ensinar. É porque foi algo natural. Eu gostava tanto daquela atividade quando eu descobri no final da adolescência, que eu fui progredindo e eu queria que mais gente vivesse aquela experiência. Eu queria ajudar as pessoas a viverem a experiência, a se adaptarem a esse meio. Eu queria difundir essa atividade. Então foi uma coisa natural, foi uma sequência natural de eventos até que eu me tornei instrutor e acabei trabalhando uns anos na juventude com isso mesmo. Mas depois, até por razões, porque é difícil viver economicamente como instrutor de mergulho, e é uma vida dedicada a finais de semana trabalhando basicamente. Bom, mas voltando ao ponto, por que eu lembrei disso? Por conta dessa parte, desse fato de que quando se ensina algo que se vive, que já se viveu intensamente, é um outro tipo de posição do que passar a teoria. E aí eu falei, outra reflexão imediata que me veio é o que eu tô fazendo aqui, todo dia, e por que que eu tô fazendo? E esse é um ponto que eu demorei anos pra entender. Por isso que nos primeiros anos meus de estudo da Logosofia, eu falava pouco de Logosofia pros outros, porque até eu me achava muito inseguro. E aí eu pensei: "Poxa, alguém que tá me ouvindo aqui hoje vai também achar que não tem conhecimento o suficiente, e deve sentir inseguro de falar de Logosofia pras outras pessoas". Tenho certeza que alguém que tá me ouvindo hoje tá nessa condição, porque eu vivi isso muitos anos. Porque eu não tinha entendido ainda essa parte que é vital. Eu não tinha entendido que eu não precisava ensinar nenhuma teoria de Logosofia pra ninguém, porque isso o próprio ensinamento tá aqui pra apresentar a teoria. Não que seja um conhecimento teórico, não é isso. Mas aquilo que eu não tinha vivido, eu não precisava ensinar pra ninguém, porque não cabia a mim ensinar. Mas eu achava que cabia a mim ensinar Logosofia pros outros. Então eu falei: "Poxa, mas eu entendo pouco de Logosofia". Nos primeiros anos, o que que eu vou falar? Como é que eu vou ensinar uma coisa que eu não sei direito? Imagina, então eu era super tímido. Eu não falava de Logosofia. Você pode achar estranho, né, se hoje eu falo de Logosofia todo dia praticamente. Mas é, eu falava muito pouco, durante acho que uns 10 anos, eu me contive, eu me segurava com medo de falar errado, de a pessoa não entender, ou de a pessoa me perguntar as coisas e eu não conseguia explicar. Na verdade, eu não tinha percebido, eu não tinha me dado conta que não era pra falar de Logosofia, mas eu podia começar a reviver, ao falar com as pessoas, eu podia começar a reviver aquelas passagens da minha vida, as experiências, os fatos, as circunstâncias da minha vida diária, em que o conhecimento logosófico havia feito a diferença. E isso é totalmente diferente de ficar falando de teoria. Mas eu demorei tanto tempo pra entender isso. Mas que bom que eu entendi, um dia eu entendi. Então essa compreensão foi se fazendo presente na minha mente, e aí meu coração quis muito, né, que eu começasse a falar então do que que eu estava vivendo com a Logosofia. Bom, e o que que esse tópico tem a ver com isso mais uma vez? Porque o ponto principal é que ao reviver as experiências com o conhecimento logosófico, assim como nas sedes culturais da Fundação Logosófica, os docentes atendem aqueles que aspiram ao saber logosófico. E eu já fiz muitos desses cursos de informar e de preparar estudantes de Logosofia. Quando a gente fala daquilo que a gente experimenta, sente e vive, a gente revive na vida do outro que está chegando ou que está percorrendo um caminho similar ao que a gente percorreu. E esse reviver tem essa propriedade maravilhosa de... É como se fosse assim, sabe, o toque divino da receita de alguma coisa? Ele dá um sabor único, porque eu penso que ele condensa na consciência o trajeto, sabe? E como a gente recorda sempre, o processo, a jornada que a Logosofia propõe é uma jornada consciente. Não é uma jornada sem consciência do que está acontecendo. Não é uma jornada assim: "Ah, vamos viver a vida e vamos tentar aprender alguma coisa com ela". Não, é: vamos viver a vida cada vez mais conscientes dos processos internos e desse grande processo. Quando o processo interno se torna esse grande processo de superação, e falar de Logosofia... E eu queria deixar essa imagem final para você de que assim: você pode falar de Logosofia à vontade, para quem você quiser. Por quê? Porque você não é mestre de Logosofia, nem eu sou, nenhum de nós é, e nem será. Mas a gente experimenta algo, já viveu algo, já esteve na posição de quem não sabia o que era Logosofia. Então a gente sabe como alguém que não conhece nada do mundo interno olha para a vida. A gente sabe como alguém que não conhece nada sobre pensamentos, sobre consciência, sobre conhecimento superior, transcendente, entende a vida. Então a gente já está numa condição diferente. E é possível reviver essa trajetória, porque cada ensinamento, cada estudo, cada reflexão que a gente faz, a gente vai experimentando alguma coisa diferente nesse mundo interno nosso. E é essa experiência que tem o poder de, para quem ouve, servir de alguma forma como uma fonte de inspiração, de reflexão, e poder ver uma forma diferente de viver a vida, naquilo que seja. E para quem fala, para quem revive esse momento, essa experiência interna, quem revive o processo, os passos que deu, tem esse poder maravilhoso de ir consolidando na consciência os conhecimentos que tem assimilado. E por isso que eu desejo que você possa ir contando a sua experiência na medida que ela for a cada dia, para muita gente, para que você também possa, experimentando cada vez mais, a sensação de ir ganhando consciência desse tesouro que cada vez mais está onde o nosso está aquilatando, está tomando consciência dele. Boa leitura, boas reflexões, fique bem e até o próximo podcast.