Latest / Logosofia no Dia a Dia / Do Barulho Mental ao Silêncio Interior: O Trapezista e a Orquestra
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- Oi, é o Ronny, tudo bem? Ontem foi um dia muito interessante, para dizer o mínimo. Aqui em São Paulo, um ciclone extratropical vindo do oceano trouxe uma ventania muito forte. A energia acabou às 8h30 da manhã. Eu tinha planejado trabalhar de casa e a previsão inicial da Enel era de que a luz voltaria até as 10h30. Bom, resumindo a história: a Enel foi adiando as previsões ao longo do dia, e a luz só voltou à meia-noite e vinte. Você imagina como foi meu dia. Por um lado, complicado. A geladeira já estava perdendo a temperatura, e eu, preocupado com o freezer, tive um calafrio ao lembrar do desastre do ano passado, quando ficamos cinco dias sem energia. "Será que vai acontecer a mesma coisa?", pensei. Por outro lado, enquanto esperava, ganhei um dia muito reflexivo. Consegui resolver um monte de pendências pelo celular, mas, nos momentos de pausa, fiquei pensando na imagem do trapezista que tratamos ontem, ou seja, sobre o tópico do essencial. E o que é essencial? Energia elétrica é muito importante, mas essencial mesmo é água. Se faltar água, não dá para ficar. Mas, falando em essencial, fiquei pensando no que significa, de fato, o "afastamento simbólico do mundo comum" para se viver mais num mundo superior. O ensinamento é tão curto que vou lê-lo aqui: "À medida que o discípulo anele avançar no mundo superior, deve afastar-se simbolicamente do mundo comum. Ninguém pode ir ao lugar que se propõe se pretende, ao mesmo tempo, permanecer no ponto de partida." Essa segunda parte é lógica, mas preciso que essa lógica seja afirmada para mim. É essencial compreendê-la. Podemos viver sem isso? Claro, eu vivi décadas sem me preocupar com o tema. Mas o mundo comum é ensurdecedor. Não só de sons físicos, mas do barulho mental: um ruído constante de opiniões, medos coletivos, notícias alarmantes e expectativas. Afastar-se simbolicamente é como um músico em uma orquestra que, em vez de tentar tocar mais alto que os outros, aprende a isolar o som do seu próprio instrumento. Ele se guia pela partitura — pela sua própria consciência —, focando seletivamente em sua realidade, sem se distrair se o colega ao lado está desafinado. O trapezista, lá no alto, não pode se distrair com os gritos da multidão; ele ouve apenas o som do próprio corpo e o balanço do trapézio. Esse afastamento é um silenciamento do ruído externo para poder ouvir a música sublime que toca na criação e, portanto, dentro de cada um de nós. Não se trata de isolamento físico, de ir para um mosteiro no Tibete. Afinal, a experiência em sociedade é a razão de estarmos aqui. Claro que sair da rotina ajuda. Quando viajo para as montanhas, afasto-me do barulho mental de São Paulo e tenho uma chance maior de ouvir essa música. Mas não é preciso ir para as montanhas. O desafio é que, muitas vezes, temos medo de soltar o que está conosco há muito tempo, mesmo que não tenha valor real. Quanto mais nos agarramos ao conforto material, aos prazeres externos, aos conceitos da cultura comum, mais difícil fica ouvir essa música sublime. Quanto mais nos materializamos, mais insensíveis nos tornamos a essa frequência etérea. Não é preciso fazer voto de pobreza, mas nos últimos anos passei a repensar muito o apego que eu tinha a tudo que é material. Senti que eu tinha fincado minha vida fundo demais na terra, e isso impede de viver uma vida mais elevada, onde os valores são outros. O problema de cultivar apenas as coisas da terra é que tudo isso tem um dia para acabar. E, se seguirmos apenas as regras da cultura, dando importância ao que os outros pensam e ao que é circunstancial, corremos o risco de chegar ao final da vida com a sensação de que faltou algo essencial. Eu não vou viver isso. Tenho lutado diariamente para observar o que me motiva. É apenas responder às pressões da sociedade ou estou encontrando tempo para ampliar a sensação de existir do ponto de vista consciente? A questão não é deixar de viver o dia a dia, mas como vamos vivê-lo e quais escolhas faremos para nos libertar de um destino comum. Hoje, e sempre, é dia de pensar sobre o essencial. Boas reflexões e fique bem até o próximo podcast.