Latest / Logosofia no Dia a Dia / A Vida Secreta da Sua Imaginação: Trailers vs. Filmes Reais
Transcript
- Oi, é o Ronny, tudo bem? Sabe o que eu estava pensando aqui? Que na minha mente tem uma produtora de filmes. Tem. Eu não estudei cinema nem nada disso, mas tem uma produtora de filmes na minha mente. O problema é que ela nunca faz o filme, mas faz tanto trailer que você não acreditaria. Vou te dar um exemplo. Lembro de um momento que foi tão icônico, acho que ficou gravado na minha mente de forma tão impressionante que não me dei conta do que estava acontecendo. Muitos anos atrás, quando não dava para fazer isso online, lembro de ter acumulado o prêmio da Mega-Sena e entrei numa lotérica para comprar um bilhete. Quando saí com o papelzinho na mão, parei na porta, dobrei-o e o coloquei no bolso. Lembro que parei, fechei os olhos e a imaginação projetou um trailer sensacional. Do ponto de vista da vida terrena, era perfeito. Estou falando desse episódio porque, primeiro, eu o acho muito engraçado, e segundo, porque o ponto do trailer não são só as imagens em ação na mente; as sensações do corpo e da mente respondem completamente a essas imagens. Essa produtora de filmes também faz trailers de terror. Nossa, tem trailers de terror. Em algumas situações nos últimos anos, em que estive frente a desafios muito grandes e correndo riscos, lembro de me deitar para dormir e essa produtora começar a passar um trailer horroroso, de eu ficar aterrorizado. Sério. Eu detesto filmes de terror, nunca assisti a um na vida, mas os trailers que minha imaginação já fez são assustadores. Os dois tipos de trailer que a imaginação faz têm o mesmo problema para mim. Não é só porque eu fico horrorizado; é porque drena uma energia tão grande da minha mente. Tudo bem, os trailers ruins, de horror, tristeza e drama, são sobre o que pode acontecer. Mas o grande perigo não está no trailer de terror; o grande perigo é quando a imaginação solta, desenfreada, trailers felizes. Quantas vezes eu não fiquei me deliciando com um trailer em que as circunstâncias da vida terrena se alinhavam de acordo com o que eu gostaria? Aí você fala: "Rony, mas qual o problema? O trailer é super feliz, gostoso". Eu te digo qual é o problema. A sensação no momento é ótima, e aí mora o perigo. A imaginação é, talvez, a única faculdade da mente que já está funcionando desde que somos muito pequenos. Ela vem como a "rainha da mente", e mesmo quando a mente começa a se estruturar, a imaginação está tão acostumada a fazer tudo que temos um trabalho hercúleo para colocá-la a serviço da inteligência. O problema desses trailers felizes é que a tendência é a gente ficar se deliciando com essas imagens em ação. E esse deleite é quase uma droga, como o chocolate ou o açúcar. Gera sensações de prazer, e o corpo e a mente ficam viciados, querendo aquele prazer imediato. Esse deleite é um tóxico viciante porque, enquanto estamos nesse estado, vivendo aquela situação boa, é como se estivéssemos bêbados, embriagados. Isso rouba uma energia enorme, porque estamos vivendo uma ficção. E o pior de tudo é que fomos acostumados com a ideia de "final feliz". Essa história é um caos, porque poucas experiências da vida têm o final que a gente quer. E um final feliz não significa, necessariamente, o final que a gente deseja. A felicidade não está na circunstância, mas na capacidade de viver qualquer circunstância com a consciência do seu significado para a nossa superação. Esses trailers de um suposto filme maravilhoso me afastam do que eu tenho que fazer com empenho todo dia: colocar minhas melhores energias para viver as circunstâncias reais de outra forma. O problema não é imaginar o trailer feliz, mas o fato de que, por ser uma ficção, quando eu volto para a realidade, o contraste é enorme. A imaginação pode nos prender por minutos ou por épocas da vida. Tem um filme maravilhoso sobre isso, fica a dica: A Vida Secreta de Walter Mitty. É sensacional, é exatamente isso. O cara vive com a imaginação solta, mas nunca viveu de fato aquilo que imagina ser capaz de viver. Assista a esse filme, se puder, porque você vai lembrar desta nossa conversa. Quando a gente vive na ficção, afasta-se cada vez mais de realizar o que é possível com a vida real. E por mais delicioso que seja — e eu sei como é, sei qual é o efeito dessa "droga" —, essa não é a vida que viemos viver. Estou falando, claro, do tópico seguinte do livro Exegese Logosófica. É um trecho tão curto, mas que gera tantas oportunidades de reflexão. O tópico chama-se "A Imaginação". Essa realidade de ter uma faculdade da mente tão desenfreada, essa produtora de trailers que não controlamos, nos leva a perguntar: como nos tornamos o diretor dessa produtora? Porque o uso da imaginação a serviço da inteligência é necessário. Precisamos dela para vislumbrar uma realidade pela qual queremos trabalhar, seja em projetos terrenos ou, especialmente, ao projetar as possibilidades que o conhecimento transcendente nos oferece. E quando falo em mudar a vida, não é ter essa ficção acontecendo como eu queria, mas viver a realidade com o conhecimento que nos permite extrair o elixir da felicidade, independentemente do que acontece. A consciência, ao assimilar a essência do conhecimento transcendente, vai se capacitando e se tornando a diretora dessa produtora. A gente é capaz de perceber, a partir do conhecimento causal, que podemos ser muito mais do que somos. Esse é um excelente uso para a imaginação. Que a consciência de cada um possa começar a atuar mais como diretora. Quando for um filme de terror, temos que ser capazes de dizer: "Corta! Foco no real". E quando for um trailer projetando uma ficção maravilhosa, "Corta!" também, para que possamos planejar esse filme de verdade, passo a passo, em cima dos fatos. Espero que possamos, juntos, ser cada vez mais capazes de usar a imaginação como uma ferramenta da inteligência, e não como uma máquina solta que nos tira foco e energia. Boa leitura, boas reflexões. Fique bem e até o próximo podcast.