Latest / Logosofia no Dia a Dia / Seu Jardim Mental Está Crescendo Sozinho? Ou Você Finalmente Vai Começar a Cultivá-lo?
Transcript
- Oi, é o Ronny, tudo bem? Esses dias, alguns dias atrás, eu fiz aniversário... e obviamente estava pensando em muitas coisas. Mas, especialmente, eu estava sempre fazendo — eu sempre faço nessas datas, ou em alguns marcos assim — eu acabo fazendo uma retrospectiva da vida, mas de uma forma assim mais focado no como eu era, o que eu era, quem eu era... e quem eu sou hoje. Não nos fatos específicos que eu vivi — sempre vem algum na mente, claro — mas, especialmente, essa característica de como eu fui mudando ao longo do tempo, por várias razões. Em especial, como é que eu fui mudando ao longo do tempo quando eu comecei a entender que a minha vida podia ser aquilo que eu determinasse, e não apenas o resultado de fatores externos e de coisas que eu não controlava. Mas eu me lembrei particularmente da infância, da adolescência, da juventude, porque, é claro, sempre é uma fase. Todos nós, quando a gente olha para trás, eu penso que a gente olha com várias emoções essas fases. Algumas emoções são preocupantes — de assim, como eu passei aperto aqui, passei aperto ali — em vários aspectos da vida, às vezes. Ou em assim, puxa, eu vivia... teve uma época em que eu estava meio perdido, meio agoniado, angustiado, aliás, bem angustiado. Teve uma época em que eu era super feliz, quando eu era pequenininho — não tinha nenhum problema. Aí eu tinha minhas aspirações, eu já olhava para o universo, para o céu, e eu lembro como eu ficava encantado com a grandeza da criação. Por outro lado também eu não sabia nada da vida. Mas o grande chamava muito a atenção. Enfim, a gente — quando a gente faz uma recordação dessas, a gente vai olhando para trás — e aí vai tentando se dar conta do processo que a criança cumpriu, depois o adolescente, depois o jovem. E como adultos, a impressão que eu acho que a gente tem é de que tudo isso é meio que um filme tão grande, tão grande, tão grande, e que, claro, teria que assistir todinho de novo o filme para poder lembrar e entender muitos desses processos. Aí tem uma oportunidade muito interessante que é quando a gente acompanha o crescimento de outros seres humanos. Então no caso dos filhos, que eu tive os três muito próximos de mim, aí a gente acompanha nesses outros seres. E aí a gente começa a se dar conta. E eu lembro de assim, de ao longo da vida deles, o crescimento, eles iriam explicando para mim — não falando comigo, mas a vida deles, as mudanças, as experiências, as alternâncias da vida deles — acabou explicando para mim muito do que eu passei. Então a gente pode pensar o seguinte: esse processo da vida é um processo que, assim como a nossa infância e adolescência, ou seja, o começo desse processo é um processo que ninguém tem consciência. A gente chegava na casa da avó, dos tios, aí aquela tia pegava na bochecha e falava assim: ah, que bonitinho, você cresceu tanto. E pegava a bochecha e amassava. Sim, mas a gente não sabia quanto tinha crescido. A gente não tinha consciência desse crescimento. A gente ouvia os outros falarem do crescimento, a gente ouvia, sei lá, a gente via as coisas de um jeito, podia às vezes fazer alguma coisa que não fazia antes. Então a vida mudava a perspectiva porque agora eu estava em uma escola de uma série maior, então aí já podia frequentar a escola das crianças maiores. Ou então mudava de escola por causa da idade. E às vezes começou a fazer os esportes — a educação física não era mais brincadeirinha, já era um esporte. A gente via uma ou outra mudança, mas a gente não tinha consciência do que a gente estava se tornando e dessas mudanças que iam ocorrendo dentro de nós. E quando eu penso nisso, eu falo assim: essa também é a história da vida adulta. Na medida ou na parte da vida adulta que eu fiquei inconsciente quanto às mudanças e aquilo que eu estava realizando em mim mesmo. O problema talvez maior é que, assim, no desconhecimento que a gente tem — ou pelo menos que a gente chega na vida adulta praticamente desconhecendo — sobre a realidade da vida mental, é muito difícil para o ser humano acompanhar de forma consciente os processos que cada um de nós vai vivendo. E que vai — eu não vou dizer nos moldando, embora alguns, o risco é algum desses processos nos moldarem mesmo — mas especialmente assim, como é que esses processos, essas experiências vão impactando a vida e de várias formas, de todas as formas possíveis. Aí você pensa assim: mas aí tudo bem, a vida é assim, né, a gente vai vivendo a vida e beleza, vamos tocando a vida e tudo bem, não é? Pois é. Nesse ponto, eu passei a olhar a vida de uma forma bem diferente durante esses anos todos de estudo e de investigação do conhecimento logosófico. Eu comecei a entender algo que para mim era vital. Assim, me causava, obviamente, angústia e ansiedade não saber para onde eu iria do ponto de vista como ser humano. Assim, qual é o meu futuro. Não profissão, morar, nada disso. Mas assim, para que eu estou aqui, né, para onde eu vou? E sim, eu sempre me inquietei muito com isso. E obviamente eu não lembrava disso todo dia, mas o incômodo ficava. Ficava aquela inquietude, mas assim, a inquietude vai se tornando um incômodo porque é aquilo que não está respondido. E eu demorei para entender — então — e só entendi isso porque a mente vai sendo iluminada por esse conhecimento. Que assim, é como se cada um de nós realmente tivesse um grande jardim dentro de si mesmo, na mente. E que eu passei a maior parte do tempo da vida com esse jardim crescendo, cultivando o que meio que caiu, sabe assim, as sementes que os ventos trouxeram, as flores que voaram até lá e deixaram sua semente, sei lá, as ervas daninhas que já existiam no solo e que se desenvolveram com o tempo. Então era um jardim que assim era a própria vida se manifestando muitas vezes fora e no que eu era, como eu falava, como eu me colocava, como eu me movia no mundo. Mas a causa, a origem dessa vida, dessa forma de ser, era esse jardim que era a própria mente. Mas que se eu não tivesse a consciência, se eu não começasse a cultivar esse jardim com consciência do que que é e como seria, o que cresceria nele, o que ficaria nele, eu ia ser um acaso. E essa sensação de ser um acaso, de ser assim fruto de um jardim ser, ter plantas e flores e ervas daninhas, fruto do acaso ou de fatores que eu não controlava, me dava muita agonia. Mas eu entendi que era possível cultivar esse jardim. Então eu penso que um dos grandes avanços, ou dos grandes momentos em que eu comecei a tomar mais consciência do de como é que eu ia deixar de ser o que eu era — ou seja, como é que eu ia deixar de viver as experiências de qualquer forma — e ia passar a viver as experiências da vida de uma forma melhor, ou de uma condição melhor, foi quando eu entendi que a minha mente era um jardim que eu precisava me tornar de fato o dono e começar a cultivá-lo como tal. Não é um processo simples nem fácil, né, porque a gente não aprendeu a fazer isso. A gente aprendeu a se mover por necessidade na vida, e a gente foi se movendo por necessidade após a outra, depois a outra. De vez em quando tinha um querer, tinha um propósito do coração, e a gente se moveu muitas vezes por um sentimento também, ou por vários sentimentos que ainda nos movem. Mas ficava esse ponto de como é que a gente vai construir uma nova vida se a gente não entender que a vida vai ser sempre um espelho do que existe dentro de cada um de nós. E ainda que os fatos externos sejam diferentes para cada um de nós, e eles realmente mudem, se alternem ao longo dos dias, anos da vida, o problema é que a forma como a gente passa por tudo isso corre o risco de ficar sendo a mesma a vida toda. O que é, o que parece uma sentença, uma condenação de que eu ia passar a minha vida vivendo as experiências com aquelas mesmas características que eu tinha. Se eu passasse, se fosse assim, e se tivesse sido assim, a sensação era de estar condenado, condenado a não mudar. E isso é algo muito triste, né, porque eu sofri muito por muitas características minhas, psicológicas. Ou seja, nesse jardim tinha muitos pensamentos, deficiências psicológicas que me faziam sofrer. Se eu tivesse condenado, de fato, a passar a vida inteira vivendo a vida com os mesmos pensamentos e deficiências apenas, ou com eles sempre, sempre causando e atrapalhando o livre desenvolvimento da minha mente e da minha vida, eu ia ser um inferno, porque eu ia ser muito triste. Então, acho que a primeira — não sei se a primeira, mas assim — das primeiras comprovações que eu fiz com o conhecimento logosófico foi de compreender que eu poderia ser como eu me determinasse a ser. E nisso, assim, parece uma coisa boba, né, ou simples, assim, na forma de falar, que talvez seja mesmo. Mas o conteúdo essencial, o significado dessa realidade, ou dessa possibilidade, tem um valor transcendente para a vida humana. E é uma pena porque eu vejo assim que, em geral, a gente vive a vida tão, tão — vou dizer assim — tão ignorando, né, ignorando tanto essa realidade. E que a gente às vezes só se dá conta quando passa experiências muito difíceis. E a sensação é de que, puxa, que dureza passar por isso daqui, eu não queria passar por isso daqui. Quando na verdade a vida está apresentando as situações e experiências que a gente — se a gente não faz as mudanças por consciência, né, ou por antecipação, se a gente não faz um trabalho constante nesse jardim mental — a vida vai apresentar as experiências que são consequência daquilo que cresceu nesse jardim. Então, assim, não tem nada de estranho, né, que a gente passe por momentos, por épocas, por fatos e circunstâncias que nos apertem, né, assim, em vários sentidos. Porque é uma posição de que, assim, ó, se o seu jardim cresceu isso, você vai viver isso para ver se você percebe, né, que precisa mudar essa parte, essa característica. E é mais ou menos a sensação que eu tinha de quando, né, assim, a necessidade ou a providência me fazia passar por experiências que eu falei assim: puxa, agora eu entendi, né, puxa, que ruim isso daqui que eu fiz, né, que eu tenho, que eu sou, que essa parte aqui não é boa, preciso mudar isso. Por outro lado, muito melhor é quando a gente decide por mergulhar nesse mundo próprio. Porque, veja, não é cuidar da vida do outro, é cuidar da própria vida. É assumir essa condição de que a realidade da própria vida mental de cada um de nós é, talvez assim, a área da vida que precisaria ter mais atenção. E a gente fica tanto tempo perdido dando atenção a tanta coisa que está fora da gente. Ou a gente passa a vida cultivando a profissão, cultivando uma carreira, cultivando um status quo, né, ou respondendo ao status quo da cultura corrente, de como as pessoas em geral entendem as coisas. É como se a gente passasse a vida fora de nós mesmos. Enquanto num jardim da própria mente as coisas estão acontecendo. E a gente preocupado com o que está fora. E a gente sem consciência dos processos que estão ocorrendo dentro da mente de cada um de nós. E o mais legal é que, assim, não é uma coisa que é, assim, difícil, que, assim, ah, mas aí é para quem é, quem já tem condições de conhecer a própria mente. Não, na verdade o processo é esse. E aquela recordação que eu fiz, né, nesses dias da criança que eu fui, do adolescente, e que, obviamente, é uma recordação que é mais clara por conta dos processos que eu vi os meus filhos viverem, né, na infância e adolescência, a gente consegue olhar para tudo isso depois, em geral, com muito mais clareza. E aí a pergunta é: como é que a gente olha para a própria vida nossa sem que ela precisa ter passado completamente para que a gente possa ter clareza sobre os processos que a gente está vivendo dentro de nós? E é aquilo do crescimento, né. Eu não quero só crescer como eu cresci desde que eu nasci e um dia me dar conta, com 20 anos de idade, que eu era um jovem adulto. Eu quero, todo dia, poder me dar conta do que está acontecendo dentro de mim, desses processos que estão ocorrendo nesse meu jardim. É preciso cultivar esse jardim para ser, para superar-se, para viver de forma diferente, para experimentar a vida de uma forma cada vez mais consciente, mais ampla, mais serena, com mais paz, com mais segurança e com mais acertos. É preciso cultivar esse jardim, esse espaço mental. Essa é — não é à toa — talvez essa realidade do mundo mental não é à toa que ela é dos temas mais centrais da Logosofia. É um tema que vai estar sempre recorrente em tudo que a Logosofia trata, dentro do método que ela apresenta. Quando a Logosofia apresenta os temas nos livros, a realidade do mundo mental é a realidade do mundo causal, da própria vida de cada um de nós. Então, assim, você fala: legal, Ronny, mas o que cabe fazer agora, então? Porque, assim, é uma coisa que eu me pergunto: legal, e o que eu vou fazer agora com isso? E essa é a proposta. A proposta é que sempre a nossa posição seja buscar como é que a gente vive o dia de hoje, de forma diferente, superada ao dia de ontem, que seja, porque a gente compreendeu algo e alguma coisa se tornou clara pra nós quanto a isso, quanto a vida. Então, eu posso dizer o seguinte: quando eu penso nisso, e todo dia eu procuro pensar nisso de alguma forma, eu procuro estar mais atento ao que ocorre em minha mente durante o dia. Muitas vezes, pra poder perceber, naqueles momentos em que as coisas vão acontecendo no dia a dia, se eu tô simplesmente embarcando e sendo levado pela corrente, se eu tô sendo levado pelos acontecimentos, ou se eu tô recordando que eu tenho a minha vida mental, na minha mente, deveria estar, ou deveria estar cultivando, deveria estar reafirmando todo dia o que eu quero ser, como eu quero ser, quem eu quero ser. É um trabalho de todo dia observar a si mesmo pra que essa realidade mental, a vida mental de cada um de nós vai deixando de ser um espaço desconhecido e possa ir se tornando o grande ateliê em que cada um de nós vai vendo aparecer, por cultivo, por trabalho, por esculpir todo dia, uma nova forma da gente viver e experimentar a vida. Boas reflexões, fique bem e até o próximo podcast.